A descendência prometida por Iahweh não é mais
esperada. O homem, impaciente, decide concretizá-la à
sua maneira. Mas essa é uma maneira que visa um herdeiro de
bens materiais, enquanto a Deus interessa um descendente que seja
mais um elo, ao longo da história humana, que perpetue a Descendência,
até chegar Àquele que esmagará a cabeça
da Serpente (Gn 3,15). A Deus interessa criar um povo para si constituído
por uma humanidade regenerada através da obra do Redentor prometido,
nascido da Mulher que Ele fará nascer numa condição
de inimizade total com a Serpente. O homem está tão
longe dos pensamentos de Deus (Is 55,10) que faz nascer a sua descendência
de uma escrava, legitimando como filho seu aquele que dela nasce,
simplesmente por meio de uma convenção legal. O quadro
de ciúmes e arbitrariedades que se segue acabam, todavia, apresentando
uma verdade importante para nós: Deus está continuamente
observando a história de cada homem e cada mulher e está
pronto a encontrar a solução para cada problema, por
quanto difícil que ele seja. Naturalmente, o caminho d' Ele
é sempre radical. A Agar, Iahweh ordena de voltar a ser submissa
a Sarai: é a única forma para salvar a sua vida e a
do menino e, subseqüentemente, a forma, embora árdua,
de se tornar um povo ligado a Abrão: um resultado extremamente
compensador não obstante o grande ato de submissão exigido.
O gesto pelo qual a própria Sarai dá Agar a Abrão
para que engravide e suscite para ela um filho e para Abrão
um herdeiro, merece uma análise atenta porque explica seja
a atitude de Sarai como a atitude de Iahweh em relação
a Agar. O Autor sagrado, de início menciona que Sarai é
"esposa" (v. 1) de Abrão. Como "osso dos seus
ossos e carne da sua carne" (Gn 2,23), e, portanto, como aquela
que Adão chamou de "Ela", porque tirada dele, Sarai
permite que Abrão vá até à sua serva (v.
2) para que ela (Sarai) dê um filho a ele. É nesses termos,
segundo uma lei mesopotâmica, que Abrão atende ao pedido
de Sarai. É nessas condições, insiste o Autor
sagrado, que Sarai "toma Agar...e a dá a Abrão
(v. 3), "osso dos seus ossos, e carne de sua carne", portanto
o Ele dela (ishah), na condição de Ela dele (isshah).
Agar é, juridicamente, a própria Sarai para Abrão,
quando a ela se une para que por ela, sendo que foi até então
impossível por meio de Sarai, seja concebido o herdeiro. Quando
Agar chega a se vangloriar diante de Sarai até ao ponto de
desprezar a sua senhora, torna-se necessária uma correção
para que Agar reconheça o seu lugar, correção
que o próprio Iahweh exige que Agar aceite.
Temos que prestar atenção, também, a um outro
detalhe: Deus é descrito dialogando com Agar como se o fizesse
por um anjo. É o momento de revertermos à concepção
de anjo que nós temos e que é fruto de uma angelologia
que foi se desenvolvendo ao longo das gerações. "Anjo
de Iahweh" (v. 7) significa o próprio Iahweh. Anjo significa,
portanto "Deus enquanto se manifesta". Pode Deus manifestar-se
pelo vento ou, até por um homem que ele suscita para realizar
a sua vingança. Toda e qualquer criatura pode ser enviada,
pode ser, portanto, anjo (particípio passado passivo, do verbo
grego angello) para executar a sua vontade. Nesse sentido, pode ser,
enfim, até uma criatura "angelical", mas esta é
assumida para sinalizar, de forma eminente, o próprio Deus
enquanto manifesta ao homem, de forma inconfundível, a sua
vontade o anjo Gabri-El = Forte é Deus, porque "nada é
impossível para Deus" (Lc 1,26-38).
Pe. Fernando Capra |