Diante de um tema tão complexo como o escolhido para a Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano, podemos nos perguntar: mudar é possível? De que forma?
Para nos ajudar a refletir e pensar alternativas para uma economia de vida, como propõe a CF, recorremos à publicação de uma matéria da revista de Aparecida, que entrevistou o economista Marcos Arruda, um dos colaboradores do Texto Base desta Campanha. Marcos acaba de lançar um livro, no qual propõe como caminho uma economia voltada para o amor, inspirada pelo altruísmo, pela compaixão e pelo desejo do bem comum. Ao primeiro olhar isso pode soar utópico, mas veremos que são pequenos gestos de cada um de nós que tornarão nossa sociedade menos financeira e mais solidária.
Vamos ao breve resumo que fizemos sobre as colocações de Marcos Arruda:
As pessoas de um modo geral nem sabem direito o que quer dizer economia, a maioria quando pensa na palavra economia lembra o verbo “poupar”. O que dirá pensar se existem tipos diferentes de economia. Na verdade, o sentido original da palavra economia é “gestão de casa”. “Oikos” em grego é casa e “Nomos” é gestão.
A idéia original era todo o trabalho de gerir as casas para que seus habitantes tivessem melhor qualidade de vida. Ao longo da história foram aparecendo outras atividades, como o comércio, as finanças, que foram dando à produção, ao trabalho de produzir bens e serviços, uma direção que já não era de atender às necessidades, mas em primeiro lugar, fazer lucro. E na medida em que o lucro entrou em cena a economia foi sendo distorcida e virou o que ela é hoje: a atividade do fazer dinheiro e acumular riqueza material é a atividade de consumir cada vez mais sem limite nenhum, nem limite do que se é capaz de consumir, nem respeito ao limite da natureza, da terra, da cidade nem de nada.
O tema da CF deste ano pode parecer um pouco complicado, mas na verdade ele vem em boa hora, pois por um lado o mundo está ainda vivendo os efeitos de uma crise, resultado dessa febril busca de lucro que deu tanta ênfase ao lado das finanças e que se esqueceu de ligar as finanças à produção das necessidades humanas. Chamamos isso de “financeirização” da economia, E na medida em que apareceu a crise os governantes, ao invés de irem aos fatores que geraram a crise, que é, sobretudo, a especulação, ficaram na superfície do problema. Assim a crise vai voltar, mais cedo ou mais tarde, e justamente agora a CNBB e o CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), num movimento ecumênico, decide fazer a Campanha da Fraternidade em torno do tema economia e vida. Portanto o momento é o mais oportuno.
“Cabe a cada um de nós fazer a mudança na nossa vida para colocar a lógica do suficiente no lugar da lógica do esbanjamento”.
É um tema riquíssimo e que nós temos que trabalhar muito para fazer o melhor dessa Campanha, em termos de educação, de levar consciência à população e acordar todo mundo para a importância, a urgência, de cada um mudar seu estilo de vida, sobretudo, quem tem muito, e quem tem o suficiente e gasta demais, consome demais, produz lixo demais, desperdiça recursos preciosos da natureza. Cabe a cada um de nós fazer mudança na nossa vida para colocar a lógica suficiente no lugar da lógica do esbanjamento, do excesso, da gula, da voracidade e da ganância.
Falar essas coisas dentro da Igreja e para Igreja enquanto povo é instruir as pessoas da necessidade de mudança de atitudes, a começar pelas individuais.
É preciso ganhar consciência de que cada gesto faz a diferença, se gastamos muita ou pouca água, ou o lixo, por exemplo, se selecionamos para a reciclagem, se nossas compras não são em excesso, se consumimos coisas que fazem mal à saúde, enfim tudo isso faz parte dessa economia de solidariedade, de cooperação. O conceito da economia do amor é altruísta, é pelo desejo do bem do outro e não só do próprio. Isso é uma evolução.
“ A idéia de introduzir oamor na economia vai ser uma revolução para o mundo por que não se trata só do amor ao outro, às pessoas, à sociedade, mas amor à vida, à natureza e adequar a economia para ser harmônica com a natureza e não agressiva contra a natureza, isso é possível, já está acontecendo, o movimento de economia solidária tem se expandido pelo mundo.
Nós temos hoje milhões de pessoas que estão trabalhando em cooperativas onde não há dono. Todo mundo que trabalha tem direito a ser dono, todo mundo que comunga do mesmo espírito de partilha e de atendimento à necessidade de cada um e de todos, tem direito à propriedade e à gestão do empreendimento onde trabalha.
Já a questão do dinheiro, que tanto corrompe, tem na sociedade o mesmo papel que o sangue tem em nosso organismo. O dinheiro tem como finalidade levar o poder de compra a todas as células que compõem a sociedade. Então se ele fica concentrado na mão de poucos é como se o sangue ficasse concentrado em um só órgão, e parasse de circular. E a nossa sociedade, que é um grande organismo tem essa doença grave, um sistema financeiro no qual o dinheiro fica concentrado na mão de poucos e o sistema circulatório não funciona direito. Então uma grande parte das células dessa sociedade está mal nutrida do poder de compra para ter uma vida decente e os que têm criam um sistema de propaganda para convencer todo mundo, através de novelas, de histórias de televisão, que se você trabalhar muito pode ter tudo àquilo também, o que é mentira, porque nunca poderemos produzir para todo mundo tudo o que os ricos consomem porque não há recursos na terra para tanto consumo e nem lugar para jogar tanto lixo.
Por isso a necessidade que existe é que os países mais desenvolvidos reduzam sua produção e seu consumo. Não há outro caminho. 20% dos países mais ricos consomem 86% daquilo que é produzido no mundo.
E para os países menos desenvolvidos é importante que o que for preciso produzir para o seu crescimento seja dentro dos limites da natureza e das gerações futuras.
“Cabe a cada um de nós fazer a mudança na nossa vida para colocar a lógica do suficiente no lugar da lógica do esbanjamento”.
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