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Amados irmãos, a ação de Deus na humanidade é sempre marcada pelo seu apelo e a obediência do homem. Porém, sempre se observa que em muitos momentos era necessário mais de um pedido, isto certamente ocorre pela fragilidade, medo e mesmo egoísmo do homem, mas, sempre vale ressaltar que com o tempo, em meio às circunstâncias o homem acaba cedendo ao pedido de Deus. De muitas formas o Senhor quer levar as pessoas a esta obediência quer seja por uma graça inesperada, quer seja por um sofrimento temporal, enfim, Ele sempre de alguma maneira nos leva a ser seus anunciadores tornando-nos instrumento de Seu amor para outros. É possível perceber que Deus está sempre voltado para o sofrimento humano e que através deste sofrimento o homem não perca o sentido verdadeiro da vida, e assim, Deus de tempo em tempo age na humanidade por meio de pessoas. Pois, Ele ama infinitamente o homem e quer resgatá-lo e dar a dignidade humana e a filiação divina. Todos os seres humanos são carentes. A pobre precisa de pão, de roupa e de emprego. O rico não precisa disso, mas precisa de paz, de harmonia na família, de respeito dos filhos; precisa poder deitar à noite e dormir sem aquela sensação de que está devendo alguma coisa a alguém. A pior coisa deste mundo é confundir as coisas. Às vezes a gente pensa que porque tem um bom saldo bancário, carro, uma boa casa, porque se tem amigos, respeito, está tudo bem. Mas conhecemos muita gente milionária, artistas de televisão, políticos, empresários, que dizem: "O que faço de minha vida? Por que quando eu deito, sinto como se estivesse devendo alguma coisa a alguém? Eu não devo nada a ninguém, mas não tenho paz!" Essa é a realidade do ser humano. Portanto, a conversão não é somente para aquele que está desempregado, é também para aquele que está bem empregado, mas não tem paz no coração; anda pela vida, mas sente que está faltando alguma coisa. Busca, busca e não encontra. Quantos procuram satisfazer esse vazio do interior nas drogas, nos vícios, na promiscuidade, na preocupação de ganhar muito mais do que necessitam e vão se afundando cada vez mais? Muitos não somente pela impotência, mas pelo abandono, percebem a necessidade de Deus e o clamam. Talvez não sejam atendidos por cometerem o grande erro dos seres humanos, por pensarem que se unindo a uma Igreja estarão convertidos. Se guardarem um código de normas de vida moral, estarão convertidos. As Escrituras relatam, porém, dizendo que o ser humano pode fazer tudo o que quiser para viver uma vida corretamente moral, mas não consegue porque seu coração é corrupto. Assim como o leopardo não pode apagar as manchas da sua pele, o ser humano que nasceu em estado pecaminoso, não poderá nunca fazer as coisas certas estando habituado a fazer o mal. Pode fingir, aparentar, simular, disfarçar, mas lá no fundo de seu coração, ele é um ser humano corrupto. Diante das pessoas pode portar-se aparentemente bem, mas quando está sozinho, seu coração é um ninho de sentimentos horríveis e pecaminosos. O que é a conversão? A conversão é o trabalho divino através do qual Deus implanta no ser humano corrupto a natureza divina. Em outras palavras, não é o desejo de aparentar ser bom, mas é o desejo de ser bom, realmente. O próprio Deus realiza esse trabalho maravilhoso num grande processo que pode durar uma vida inteira, mas que é preciso começar hoje. Basta o ser humano dizer: "Senhor, preciso de Ti, reconheço que sozinho não posso mais, eu quero começar uma vida nova!". Assim o primeiro passo foi dado e o resto o Senhor fará. Começa-se assim um novo ciclo de vida, onde estaremos constantemente “em conversão”, isto é, o processo da conversão se realizando dia após dia.

Muitos indagarão, se eu me converter, será que não vou mudar a minha personalidade, o meu jeito de ser? Será que não vou ficar diferente? É um questionamento natural, porque abrange um compromisso novo, mas Deus quer sempre o nosso melhor, nos criou para a sua glória, para que façamos parte do seu eterno projeto de amor. A conversão é o momento, a experiência, é um milagre através do qual Deus coloca em nosso coração, a Natureza Divina. A partir daí, essa natureza de Cristo, essa mente de Cristo, é um bebê recém nascido que começa a crescer dentro de nós. Esta natureza se desenvolve, se a alimentamos e cuidamos, através da oração, do estudo da Bíblia, da vivência dos sacramentos e mandamentos, sendo assíduo às santas missas, cantando louvores, ouvindo as homilias e colocando-as em prática, agradecendo a Deus. À medida que essa natureza é alimentada e vai crescendo, vai dominando a velha natureza, aquela que nos impulsionava a viver como outrora vivíamos, sendo apagada progressivamente. No momento da conversão, Deus dá um golpe tão duro que essa velha natureza sucumbe, mas não desaparece de dentro de nós, razão pela qual mesmo depois de estarmos vivendo uma vida nova, continuamos sentindo vontade de pecar, isto é, porque a velha natureza está aí, sempre querendo retomar o espaço que lhe pertencia.
Queridos, atentemos a esse detalhe, a natureza velha está como um cadáver dentro de nós, molestando, atrapalhando, incomodando. Só que à medida que a alimentamos a nova natureza, ela vai sufocando completamente a velha, e um dia, lhe controlará totalmente. A vida vai mudar, não para pior e sim para melhor. O caráter vai mudar, transformando-se no ideal maravilhoso que é semelhante ao caráter de Jesus Cristo.
Portanto, aquele que coloca Deus em primeiro lugar, consegue superar todas as dificuldades que encontra cotidianamente, não se limitando às coisas temporais, materiais ou humanas.
Tenhamos força e perseverança para seguirmos a nossa atitude de conversão, assumindo em primeiro lugar as coisas de Deus. A partir desta nova mudança de atitude, somos convidados a sermos anunciadores da Boa Nova. Somos convidados a levar àqueles que ainda não conhecem ou que estejam vivendo uma condição de pecado, de morte a perceberem e descobrirem o verdadeiro tesouro, e assim se libertarem para que tenham uma vida nova e uma vida em abundancia. Finalizando, como nos diz o Santo Padre o Papa Bento XVI: “A conversão a que somos chamados não deve ser entendida como um simples ajustamento na nossa vida, mas como uma autêntica inversão de marcha.
Converter-se significa precisamente ir à contra corrente, entendendo por corrente um estilo de vida superficial e incoerente que muitas vezes nos arrasta, nos domina e nos torna prisioneiros do mal e da mediocridade. Converter-se significa mudar direção no caminho da vida”.
Abraços fraternos de uma Santa Quaresma e uma Feliz Conversão!
Ricardo da Liturgia das 10h
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