Na vida, caminhar é preciso... enxergar é preciso... alimentar-se é preciso...
Pergunta-se: onde encontrar força para andar, luz para não tropeçar, comida para não desmaiar?
Quando penso no Deus-amigo que proporcionou alimento ao povo no deserto, suscitando aquele grito de surpresa e de maravilha: “maná o que é isso?...” quando penso que a palavra de Deus se fez carne... Quando penso que Jesus de Nazaré se fez pão... dá vontade de arrancar aquela dureza que petrifica o coração.
Pensar é bom, mas não é tudo. É bom rezar, mas não basta.
Temos que ir um pouco mais longe
Há muitas fomes aguardando uma resposta. Há muito alimento sobrando sobre as nossas mesas.
É evidente que a palavra que não é comunicada, deixa de ser alimento e vai causar mais vazio. O pão que não é partilhado só pode servir de alimento para o egoísmo.
A eucaristia é alimento e a palavra também.
Esta nossa reflexão quer encontrar apoio nos textos de Vaticano II. O Concilio Ecumênico que despertou o mundo católico para uma visão mais profunda da vida cristã e de toda a realidade humana.
EUCARISTIA: PALAVRA E PÃO.
O texto mais explícito para o nosso tema o encontramos no documento sobre a Revelação.
“A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar, toma da mesa da Palavra de Deus quanto do Corpo de Cristo, O PÃO DA V IDA, e o distribui aos fiéis”. (DV21).
Percebemos que “o tesouro da Revelação” (DV26) é apresentado de modo a formar um “binário” iluminador juntamente com a mesa da eucaristia.
“Assim como a vida da Igreja se desenvolve pela assídua participação do mistério eucarístico, assim é lícito esperar um novo impulso de vida espiritual de uma acrescida veneração pela Palavra de Deus...” (DV26).
A constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia traz a significativa expressão: “mesa da Palavra de Deus” (SC51).
Aos que “professam os conselhos evangélicos”, é lembrado que devem sentir-se “revigorados `a mesa da divina lei e do Sagrado Altar” (DV6).
O decreto que contempla a vida dos presbíteros expressa claramente a idéia de alimento provindo da “dupla mesa da Sagrada Eucaristia e da eucaristia” (PO18).
Transformar, fortalecer, iluminar é algo que encontra sua fonte nas “duas mesas”.
O salmista nos lembra: “Tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (SL 118,105).
Desde nossos primeiros contatos com a catequese, ouvimos dizer que a própria eucaristia é como o sol, irradiando luz. É o mesmo sol presente na obra-prima de Francisco de Assis: “O Cântico das Criaturas”. Vamos deixar Francisco cantar:
Louvado seja, meu Senhor!
Com todas as criaturas
Especialmente o senhor irmão Sol
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor!
De Ti, Altíssimo, é a imagem.
Parece até acompanhar o Apóstolo na sua carta aos Colossenses quando escreve: “O Filho amado é a imagem do Deus invisível” (Cl 1,3-5).
Como é gostoso cantar:
“É Ele o pão que se vai repartir
O pão da palavra que vamos ouvir”.
As duas mesas lembram os dois preciosos alimentos. Cabe a cada um de nós perceber a urgência de acolher, valorizar e partilhar tudo isso, “para que o mundo tenha vida” (Jo 6, 51).
É tarefa nossa levar a sério “palavra e pão”. “Quando o dia da paz renascer'... desejamos pão em todas as mesas “. Sonhar é sempre possível.
Vamos cantar até o sonho se realizar.
Nesta era em que se fala de holística e de economia globalizada, vivendo numa sociedade em rede, poderemos seguir o conselho de Paulo “contemplar tudo e ficar com o que é bom”.
Cuidado para que ninguém seja instrumentalizado. Se a corrente atual visa o acúmulo e o desrespeito à pessoa, vamos formar a contracorrente, partilhando, acolhendo, fortalecidos pelo “pão da vida”. Valerá a pena!
Pe. André Agazzi |