1 Carta de Pedro (5)
Aspectos Doutrinais (continuação)
Muitas referências - sem citá-lo expressamente - recordam o êxodo dos israelitas da terra do Egito: como se aquela antiga libertação operada por Deus prefigurasse a que se opera no Batismo. Com efeito, Pedro ensina os cristãos que antes não eram Povo, mas agora são “Povo de Deus” (2,10); antes viviam na ignorância, mas agora estão chamados à santidade (1,14-15).
A menção ao “cordeiro sem defeito nem mancha” (1,19) recorda o cordeiro pascal (Ex 12,5), com cujo sangue ungiram os israelitas as ombreiras das suas portas.
Além disso, os cristãos são “linhagem escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido em propriedade” (2,9): o texto entrelaça uma citação do livro do Êxodo( Ex 19,5-6) onde se explicam as conseqüências da Aliança de Deus com o Seu Povo, e outra de Isaías (Is 43,20-21), em que recorda a epopéia da marcha dos israelitas pelo deserto. O novo Povo de Deus (2,10), gerado no Batismo, tem a obrigação - com mais razão que o antigo - de imitar a santidade de Deus (1,15-16; Lv 19,2; 20,7-8) e de abandonar as velhas concupiscências (1,14).
Menciona-se também a salvação de Noé como tipo do Batismo. A única vez que aparece na carta explicitamente a palavra Batismo (3,21), é ao comparar a salvação de Noé e sua família no dilúvio, com a dos fiéis cristãos que se salvam pela água do Batismo.
Exatamente como a família de Noé, graças à arca, passou incólume sobre as águas do dilúvio que sepultou a humanidade prevaricadora, assim também a pessoa batizada passa com segurança pelas águas do Batismo, que sepulta seus pecados, para encontrar nova vida com Cristo. Pedro não pretende um paralelismo exato entre ambos os acontecimentos, mas antes assinalar claramente a eficácia do sacramento do Batismo.
A epístola, talvez seguindo o estilo de uma catequese batismal, recolhe pontos doutrinais importantes para que os cristãos se mantenham firmes na fé (5,9). Recorda, ainda que não de modo sistemático, o dogma da Santíssima Trindade (1,2-12; 4,14). A divindade de Jesus Cristo com o título de Kyrios-Senhor (1,3; 2,3; 3,15), e a sua obra redentora: com a Sua Paixão, Morte e Ressurreição alcançou a salvação para todos os homens (1,17-21; 3,18-22); no Batismo, os fiéis incorporam-se a Ele de tal maneira que também participam dos Seus sofrimentos e da Sua glória (2,18-25; 3,13ss).
A mensagem da 1 Carta de Pedro tem um valor todo especial. Ora, este valor aparece com toda a clareza desde que se leve em conta a situação visada pela epístola. Para o autor não se tratava mais de lançar os fundamentos da fé, que já tinham sido ensinados aos leitores destinatários do escrito (1,12). Tratava-se bem pelo contrário, diante das crescentes dificuldades experimentadas pelas comunidades cristãs, de exortá-las à perseverança, em razão mesmo da esperança que lhes fora pregada. Para tal fim, o Apóstolo orienta as atenções de seus leitores em direção a Cristo, a fim de que eles tomem (ou retomem) consciência do poder da vida nova que nele está (1,3; 2,2): ademais, insiste sobre a natureza vitoriosa da esperança recebida, fonte de uma atividade perseverante e radiosa na vida de cada dia.
Embora a finalidade da carta seja exortativa e não doutrinária, podemos assinalar alguns temas teológicos para a vida cristã.
Isto se deve à natureza particular deste escrito, no qual as exortações vêm constantemente entremeadas de elementos doutrinários destinados a justificá-las e reforçá-las.
Fortalece os leitores para que, com paciência, suportem as tribulações, ensina-lhes a responder aos provocadores da fé com paciência e boa conduta.(1,6-9; 2,20-25; 4,13s; 5,6s). Lembra aos cristãos a sua condição de peregrinos neste mundo.
Continua no próximo número.
Jane do Tércio
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