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Loreto JMJ
“O anjo disse” Lc 1,30 |MARÇO

“Não tenhais medo!” Estas palavras ressoam forte no coração humano. Ela abre uma nova perspectiva para quem vive na obscuridade de horizontes que só o medo configura na vida de cada dia. O medo é uma escuridão. É terrível viver com medo. O medo desestabiliza tudo. Ele move tempestades e furacões nos corações. As fantasias presidem, por isto, o caminho de quem vive com medo.. A vida é insegura. Não se vê com clareza o caminho a seguir. A confiança fica comprometida. O medo é real. Há ciladas e armadilhas. Não são poucas as maldades e perversidades. O medo é o resultado das armas e princípios usados pelos covardes e perversos, por aqueles que se elegem como centro e razão única de tudo. Vale tudo. Não se tem sentido de limites. Não há quem não tenha algum medo. No seu reverso, estão as incertezas do caminho, a falta de clareza para o rumo certo, e apego a evidências sem apostas no discernimento. É incômodo viver com medo. É grande aposta na vida ouvir dizer: “Não tenhais medo”.

De onde vem a garantia?

Essa voz ressoa no coração dizendo para não ter medo, é preciso saber quem a pronuncia. Qual é o coração que pode dar esta garantia? Vale seguir o diálogo que se deu naquela casa simples, na cidade de Nazaré, da Galiléia. Esse diálogo revela o segredo e as raízes da condição para se vencer todo medo. Lá em Nazaré dialogaram Maria, a Virgem, prometida em casamento a José, e o anjo Gabriel, enviado por Deus. O diálogo foi estabelecido entre a criatura e o enviado do Criador. Sua era a palavra. Do seu coração nascia toda garantia. Essa garantia desafia o humano a compreender suas dimensões. Não, porém, outra resposta e nenhuma outra direção. Só a inserção nesse coração divino é a condição e a garantia para vencer o medo.
Nele não há ciladas ou falácias. Tudo é transparente, porque tudo nasce do amor. Nada se sobrepõe. Não tem sentido nenhuma disputa. Passa longe qualquer mecanismo de disputa.
Tudo é amor. Um amor que alcança seu ápice amando os amados e neles realizando maravilhas grandes e admiráveis. Foi assim o convite-desafio posto a Virgem de Nazaré.

“Alegra-te, cheia de graça”

A alegria verdadeira é a direção contrária ao medo. O medo faz mover pela insegurança. Ela gera os fantasmas do apego e das disputas ferrenhas. O outro é sempre um adversário. A guerra é permanente. A vida é presidida pela dinâmica das disputas por lugares e por honrarias, mandos e ajuntamentos de bens. O importante passa a ser o que está do lado de fora. O medo faz da vida um verdadeiro inferno. Não se respeita, vive-se de ameaças incontáveis. As artimanhas e ciladas enchem os corações de preconceitos. Não há sossego. Não há sossego porque não se está enraizado, a não ser em si e nos próprios interesses e cálculos. Não há amor. Cada qual se torna apenas peças nos mecanismos que vão garantindo a subsistência, movidos todos por ilusões e miragens.. A alegria verdadeira, gerando doação de si, abertura e alianças que sustentam a vida, nasce da graça. Só a graça de Deus pode dar a verdadeira alegria. Alegria que vence o medo. Medo que não existe no coração de quem é íntimo de Deus pela força de sua graça. Medo que não existe mesmo quando existem ameaças e perigos concretos. Os ganhos todos estão para além daquilo que se ajunta e se possui. O estar com o Senhor e a certeza de que “o Senhor está comigo” é a verdadeira alegria e a vitória sobre todo medo e todo ódio. A alegria verdadeira será sempre ação da graça amorosa de Deus.

“Maria ficou perturbada”

As dimensões incalculáveis da ação amorosa da graça de Deus desafiam o humano de toda criatura. A perturbação no coração de Maria indica o caminho de procura que a condição humana há de seguir para alargar o coração até a medida que só a graça de Deus pode edificar. As palavras do anjo abrem um horizonte novo e infinito para a criatura na largueza incalculável do coração amoroso de Deus. A perturbação não é inconsistência de sentimentos e desafetos. Afetos e sentimentos se vêem à luz diáfana do amor verdadeiro, único e eterno, o amor de Deus. Ao pensar o significado da saudação, Maria aceitava o desafio, amorosamente posto por Deus, na sua predileção por ela, de enraizar-se nas garantias de Deus e viver tão somente da obediência a Ele. O sentido único é passar a viver a vida, em tudo e não em todos os momentos, a partir do horizonte Deus, o amor. Essa é uma possibilidade que só a graça de Deus pode configurar nas estreitezas do humano e da condição de criatura diante do amor criador. O pensar de Maria indica a dinâmica única que cria a condição da procura. A procura permanente do coração de Deus, dos seus sentimentos e da sua vontade. Nada, absolutamente nada, senão à luz do que Deus quer, pela força da confiança nele depositada, a força transformadora do seu amor e a inteligência de sua condução em todas as pessoas.

“Como acontecerá isso”

Essa pergunta salutar e reveladora do coração predileto de Deus e a ele totalmente aberto dá a oportunidade para compreender o segredo para vencer todo medo e viver, ainda que em meio aos medos, suas causas e raízes, presidindo o mundo, da alegria verdadeira, espalhando-a por todos os cantos e em todos os corações. O coração de Deus, na voz do anjo Gabriel, faz ecoar na condição humana de Maria, preservada de todo pecado por essa mesma graça, para entendimento de toda criatura, o que faz não ter medo. Não tem medo quem encontra graça diante de Deus, assegurou o anjo à virgem. Encontrá-la é o desafio humano e existencial, de cada dia, na abertura total a Deus, pelo cultivo de uma compreensão e, sobretudo, pela atitude incondicional de confiança nele depositada. Um desafio de compreensão que se reponde a partir das circunstâncias concretas da própria vida entrelaçada na vida dos outros todos.
Nessas circunstâncias, a ação de Deus, pela força de sua graça amorosa, realiza as transformações e constrói para além de toda lógica e de toda expectativa meramente humana. A criatura apresenta a vida que é sua, dom de Deus. Ele, Pai amoroso, pela ação do espírito, realiza o que o que a força do seu amor pode realizar. Não há esterilidade sem transformação. Não há o que o amor, acima de todo medo, não possa realizar. Vale tão-somente viver para dizer, como Maria: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra .” O resultado é experimentar e convencer-se que é verdade: “Para Deus, nada é impossível.”

Dom Walmor Oliveira da Silva
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte
 
 
 

VEJA NO MÊS DE MARÇO/2009:


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