Para nós cristãos, que temos nossa fé ancorada justa-mente na experiência da Ressurreição de Jesus, sinal da força infinita de vida que vem de Deus, parece uma contra-dição falar da procis-são de Jesus Morto. Até já ouvimos por vezes alguns irmãos de algumas igrejas nos chamarem de “adoradores do Deus Morto”.
Na verdade, quando nós vivenciamos a experiência da morte de Jesus na celebra-ção da Sexta-feira Santa, na veneração da cruz e na procissão do Senhor morto, sem perceber sua profunda relação com todo o conjunto da liturgia pascal, podemos perder, sim, o sentido mais profundo e verda-deiro da nossa fé.
Há alguns anos atrás, na minha cidade do interior, em Minas Gerias, me recordo da enorme e comovente procissão da Sexta-feira da Paixão. No entanto, não me lembro com a mesma força de sentimento, da celebração da Vigília Pascal de sábado à noite e menos ainda do Domingo da Ressurreição. Talvez por nos identificarmos mais com o sofrimento do que com a alegria ou por outros motivos que poderíamos levantar. O fato é que a ênfase na celebração da morte de Jesus era sempre mais forte do que a celebração de toda a sua vida, e de sua ressurreição.
Com a renovação litúrgica e aprofundamento bíblico teológico dos últimos anos, percebemos a necessidade de celebrar o mistério pascal dentro de seu conjunto, apontando sempre para a experiência fundante da nossa fé que foi a experiência da ressurreição de Jesus. Cada etapa da vida de Jesus, do nascimento até sua morte é iluminada pela experiência da ressurreição. Sem ela, tudo perde o sentido e, pior, dá origem a falsas interpretações da fé cristã.
1- O nosso Deus é o Deus da VIDA em plenitude. A morte não foi uma intenção de Jesus, mas conseqüência da sua missão assumida na radicalidade do amor e na fidelidade até o fim. Cada palavra, cada gesto, cada atitude de Jesus tomam uma outra dimensão diante da sua paixão e morte. Ele não estava brincando nem dando receitas para outros viverem. Assumiu o mistério da encarnação até as últimas conseqüências. Portanto, toda a vida, paixão e morte de Jesus deve ser contempladas e compreendidas a partir da experiência da ressurreição. A mensagem vibrante e transformadora da Ressurreição deve ser o ápice das nossas liturgias para que comuniquem a mesma força de graça vivenciada pelas comunidades dos primeiros sécu-los. Esse é o Cristo vitorioso da nossa fé.
2- Por outro lado, não podemos falar do Cristo Ressusci-tado nos esquecendo do homem Jesus de Nazaré, de cada etapa da sua vida que constituíram um caminho para todos nós. Portanto, tem sentido também contemplar o homem Jesus, sofrido, torturado e morto injustamente. A morte como o último ato de doação de Jesus que passou toda a sua vida fazendo o bem.
Perceber a morte como um caminho de doação, como sinal da mais verdadeira fidelidade, como um testemunho de que os que lutam pela vida podem também sofrer, mas sentirão conforto no Senhor dos Passos. Serão encorajados porque acreditarão que a vitória da vida sobre a morte é certa! Contemplar Jesus morto nos ajuda a perceber a fragilidade de todos nós. E dessa fragilidade quis Deus participar para se fazer solidário com todos os sofredores e pecadores para daí nos resgatar na sua vitória da ressurreição.
O Crucificado é o Ressuscitado. E só tem sentido celebrar a morte de Jesus dentro da luz da ressurreição. Por isso, a morte exalta a vida de doação, realça o testemunho de amor maior que é dar a vida pelos seus e nos aponta um horizonte de esperança.
Diante dos caminhos fáceis que encontramos para resolver nossos problemas políticos e sociais, como penas de morte, grupos de extermínios, dentre outros, Jesus morto, a caminho da Ressurreição, nos aponta que o horizonte final não é a morte; que por detrás das nuvens densas do medo, existe um sol que não demorará em ressurgir. É a vida e o amor verdadeiro e solidário que podem construir uma felicidade verdadeira e para todos.
E optar pela vida nem sempre é fácil!
Anderson Augusto, msc
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