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Páscoa: sair do próprio túmulo |MARÇO


"Quando o túmulo fica em minha história como o casulo fica na historia de uma borboleta: uma fase, um tempo duro e difícil que passou, foi vencido e superado. Rompida a casca, a terra, a pedra, temos diante de nós os desafios da vida. Páscoa é construir caminhando e caminhar construindo..."

RESSUSCITAR É ROMPER O PRÓPRIO TÚMULO. Foi o que Jesus fez. Afinal, aquele que "passou pela vida fazendo o bem" não podia permanecer prisioneiro da Morte. Ele rompe o túmulo, afasta a pedra que impedia a manifestação da vida. É o que somos convidados a fazer... sair do "túmulo".

Mas o que e túmulo em minha vida? O que é, em mim, sinal de morte? Rancor? Angústia? Medo? Alienação? Indiferença?
Consumismo? Insegurança? Solidão?

Cobrimo-nos de pedras e rodeamos nosso coração de muros...
Jesus afastou as pedras e derrubou o muro. Superou a imensa solidão da morte e desfez todo e qualquer isolamento. Rompeu as trevas e inundou o próprio túmulo com a luz da vida. Um corpo, antes destroçado e dilacerado, surge glorioso de um túmulo de morte.

Em Jesus, o túmulo é "passagem". Ele passa pelo túmulo. Nós também. O Senhor passa pelo túmulo e liberta a humanidade do fantasma da morte. Para os que crêem em Jesus, a morte não é mais o fim definitivo e terrível, a ausência completa, a saudade sem remédio, a ruptura sem esperança, o desespero total. Em Jesus, a vida não é tirada, mas transformada...

Mesmo aqui e agora, há pessoas encerradas em seus próprios túmulos. Pessoas fechadas em si mesmas, em seus interesses, construindo a sua volta um universo de egoísmo e exclusão.
Vivem afetivamente separadas dos outros e, quando encontram seus iguais, criam verdadeiros cemitérios ambulantes...

Não nascemos para o cemitério, o sofrimento, a dor, a tristeza, a morte. Não nascemos para o "túmulo". E, mesmo quando ele acontece, é preciso ver além, enxergar na esperança. "Sentir saudades do que ainda há de vir."

Como acontece com a semente. Quando ela é sepultada sob a terra e desaparece, parece que tudo acabou e, no entanto, tudo está apenas começando... Primeiro, ela quebra a própria casca, depois, rompe a terra e busca a luz fecunda, que faz brotar a vida. A vida que há, sempre, em cada um de nós.

Todo ser humano é dotado de riquezas especiais e únicas, dons pessoais insubstituíveis e um jeito de ser irrepetível. Somos únicos e em nós há uma vida que só a cada um cabe viver em sua plenitude! Há em nós uma força interior que quer romper as cascas e transbordar numa explosão vital multiplicadora. Vida que quer gerar mais e mais vida.

Mas, muitas vezes, há pedras (grandes e pequenas) que impedem que a Vida se revele em todo o seu potencial. Às vezes, nem são pedras. Há tanta gente com o coração empoeirado de tédio, de vazio, de falta de sentido...

Soterrado ou empoeirado, sufocado ou sem brilho, nosso coração se faz menor, nos mediocrizamos e chegamos a achar que o "túmulo" é normal, que a vida é assim mesmo e não há saída ou remédio, a não ser se conformar...

Construir Páscoa é não se conformar e ressuscitar todos os dias.
É não ignorar, fugir e se alienar dos problemas do cotidiano. Ao invés de fechar-se, Páscoa é comunicar-se. É buscar a Deus que está em tudo e em todos. Tudo está envolvido em Deus. Seu olhar de amor marca toda a obra da Criação. Em tudo há um sentido, um brilho e uma semente de eternidade.

Ressuscitar é experimentar, acolher e viver a presença de Deus no cotidiano. Viver a ressurreição de Jesus hoje é deixar-se expandir e transbordar tudo o que é vida dentro de nós.

Onde há rancor, tecer o perdão.
Onde há angústia, construir serenidade.
Onde há medo, fazer brotar a coragem.
Onde ha alienação, fazer crescer a consciência.
Onde há indiferença, fazer brilhar a sensibilidade.
Onde há consumismo, fazer nascer a simplicidade.
Onde há insegurança, afirmar nossas poucas e preciosas certezas.
Onde há solidão, fazer acontecer a solidariedade.

Assim, contaminar de luz as trevas que criamos e que sufocam a alegria plantada em nós desde sempre.

Nascemos para a felicidade. Para ela fomos criados. O nosso Deus revela-se um poeta inspirado ao criar o Universo e Pai amoroso ao colocar nele o homem. Ele envia seu Filho a nós, para que a sua alegria habite o nosso coração e, assim, a nossa alegria se faça completa.

É preciso sair do próprio túmulo.

Ir removendo uma a uma as pedras que foram soterrando a vida que vive em nós. Deixar que a luz ilumine e dê brilho aos cantinhos mais obscuros e empoeirados da nossa historia pessoal e social. Superar nossos medos, reconstruir nossos laços com a esperança. Minha Páscoa, nossa Páscoa não pode ser reduzida a um "ovo de chocolate" (ainda por cima, oco!)... Ela se realiza quando o túmulo fica no passado, esquecido e abandonado.
Quando o túmulo fica em minha história como o casulo fica na historia de uma borboleta: uma fase, um tempo duro e difícil que passou, foi vencido e superado.

Rompida a casca, a terra, a pedra, temos diante de nós os desafios da vida. Páscoa é construir caminhando e caminhar construindo...

Eduardo Machado, BH/MG

 
 
 

VEJA NO MÊS DE MARÇO/2008:


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