Queridos irmãos, a celebração anual da Páscoa nos obriga a olhar sempre, como se fosse a primeira vez, para o seu mistério, para a realidade divina que se encerra e que nos é oferecido no acontecimento pascal.
Páscoa começa por ser o nome de uma festa judaica, que, em cada ano, celebra o acontecimento fundamental da história do povo de Deus do Antigo Testamento: a sua libertação do Egito, onde os hebreus viviam como escravos, e a sua passagem para a Terra prometida, desde Abraão e à sua descendência. Páscoa chamou-se também ao Cordeiro pascal, como no texto de I Cor 5, 7 onde o Apóstolo Paulo cita: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado”; na verdade, o Sangue de Cristo é o penhor da libertação para todos os homens, como o sangue do cordeiro o tinha sido para os hebreus quando da saída do Egito. De fato, a oblação, até ao sangue, de Cristo na cruz realiza a passagem libertadora do pecado e da morte para a vida em Deus, como se lê no Evangelho de João, logo no início dos capítulos que consagrou à Paixão do Senhor: “Sabendo Jesus que era a chegada a hora de passar deste mundo para o Pai...” (Jo 13, 1).
Daí que Páscoa tenha vindo a significar, em última análise, no sentido real, passagem, qualquer que tenha sido na origem o seu sentido etimológico. A Páscoa, o Mistério Pascal, ou ainda por outras palavras, os acontecimentos pascais com a sua significação divina, centra-se na morte de Jesus sobre a Cruz, pela qual Ele passou para o Pai, onde vive na vida nova da Ressurreição. “Jesus de Nazaré, o Crucificado”, não está aqui, ressuscitou, disse o anjo às mulheres que procuravam o seu corpo no túmulo. Tomando a condição humana na Encarnação, o Filho de Deus tomou sobre Si o pecado da humanidade; mas oferecendo-se ao Pai sobre a Cruz por todos os homens, Ele tira o pecado do mundo e, “destruindo assim a morte, manifestou a vitória da ressurreição”, para dela tornar participantes todos os homens. Para isto Ele veio ao mundo, para levar em Si e consigo os homens ao Pai. “Saí do Pai e vim ao mundo. Agora deixo o mundo e volto para junto do Pai” (Jô 16, 28), disse Jesus, mas volta levando agora em Si o homem cuja condição assumiu.
Mistério inaudito, este da passagem pascal do homem para o Pai pela oblação do Cordeiro Pascal. É este mistério que, desde o princípio, foi o centro da liturgia cristã; aí a Igreja O recorda, aí O celebra, aí ela se torna participante, já desde a terra, da vida do Ressuscitado, antegozo da comunhão com o Pai na Glória Celeste.
A Páscoa não se limita apenas a celebração do Domingo da Ressurreição, mas no Tríduo Pascal, que se inaugura com a celebração da Missa da Ceia do Senhor, ao entardecer de Quinta-feira Santa, e se conclui com a Hora de Vésperas do Domingo da Ressurreição. Não se trata propriamente de um conjunto de celebrações. O Tríduo Pascal tem um ritmo e uma unidade interna indestrutível. A sua celebração principal, e na origem a única, é a Vigília na Noite Santa. Aí se celebra todo o Mistério Pascal, o mistério da passagem da morte à vida, da terra ao céu, deste mundo para o Pai. A liturgia da Palavra desta Vigília faz memória da história da salvação desde o princípio em que Deus criou o céu e a terra até à Ressurreição do Crucificado.
Na celebração da Vigília, o mistério que a Palavra anuncia os sacramentos logo o realizam. O Batismo, imitando na passagem pela água a morte e a sepultura com Cristo, torna os batizados realmente participantes na passagem pascal do Senhor; a Confirmação, que, em princípio, se segue ao Batismo dos adultos, comunica o Espírito Santo, dom pascal por excelência, fruto da Páscoa de Jesus; a Eucaristia, memorial máximo da Páscoa do Senhor Jesus, ao mesmo tempo que é memória do acontecimento passado, é presença sacramental do mesmo na assembléia da Igreja e anúncio da comunhão eterna na glória futura. A Sexta-feira e o Sábado Santo, os dois primeiros dias do Tríduo Pascal, são os dias do jejum pascal referido na Constituição conciliar sobre a Liturgia, os dias em que o Esposo foi tirado, como Jesus tinha anunciado, nos quais todo o Corpo da Igreja comunga diretamente, e como que fisicamente, na dor e na morte da sua Cabeça, Cristo crucificado, morto e sepultado. As celebrações destes dois dias são apenas Liturgias da Palavra, na celebração da Paixão do Senhor na tarde de Sexta-feira Santa e na Liturgia das Horas, nesse dia e no Sábado Santo. Não são dias vazios, pelo fato de neles não se celebrar a Eucaristia; são antes dois dias do grande silêncio, da grande paz, da profunda comunhão do espírito e do coração com Jesus, em que se manifesta a situação trágica do pecado dos homens, ao mesmo tempo em que o poder e a força do amor, que leva o Pai a entregar o Filho à morte por nós, e o Filho a oferecer a sua vida ao Pai pelos seus irmãos. A Igreja, no Sábado Santo, permanece junto do sepulcro do Senhor, meditando na sua paixão e morte, até o momento em que, depois da solene Vigília, se der lugar à alegria pascal, cuja riqueza se prolongará por cinqüenta dias.
Irmãos, como diz Santo Agostinho, a Páscoa é celebrada como um mistério tornado presente de maneira sacramental para nele se poder participar. Vivamos intensamente este mistério não apenas para cumprir preceitos, mas para que configurados a Cristo possamos viver a vida nova que nos é oferecida e possamos valorizar mais cada instante, em especial da Vigília, que ocupa lugar central na celebração dos sacramentos da iniciação cristã: Batismo, Confirmação e Eucaristia, os sacramentos da vida nova. Por meio desses sacramentos nascem os novos filhos de Deus. Nasce também da Vigília o Tempo Pascal, e aí se faz a passagem do luto à alegria, do jejum ao banquete, da tristeza à festa, da morte à vida. Tempo de alegria, de ação de graças, de aprofundamento do sentido do mistério cristão e da vida em Cristo, do mistério da Igreja e consequentemente do mistério da comunidade dos cristãos. O Tempo Pascal é o tempo espiritual, por excelência, do ano litúrgico. É o tempo em que o Ressuscitado dá o Espírito: “Recebei o Espírito Santo”, e que se conclui precisamente com a efusão do Espírito Santo sobre os discípulos, que, uma vez repletos da graça santificadora, que aparecem no mundo como a “Igreja de Deus da Nova Aliança”. Cristo Ressuscitado, “Primogênito dentre os mortos”, “Cabeça do Corpo Místico da Igreja” realiza na Páscoa a união entre o céu e a terra, entre o divino e o humano, entre os que caminham na esperança da vida eterna e os que ainda não conheciam o Senhor.
Redescubramos este mistério e tenhamos de verdade uma Santa e Feliz Páscoa do Senhor!
Ricardo da Liturgia das 10h
ricardomoyses@globo.com
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