É bom perguntar-nos por que aquela ceia foi tão importante para Jesus. O fato de ter sido a última ceia supõe tantas outras nas quais ele se sentou e compartilhou o alimento com os amigos.
Mas a última teve um sabor diferente, um sentido novo. Ela estava marcada por um clima, uma expectativa, algo iria acontecer. "Desejei ardentemente comer esta ceia pascal com vocês..." (Lc 22,15), foi o que ele disse antes de iniciar o rito judaico. O que estava acontecendo com ele? Que relação tern aquela mesa com os acontecimentos da vida de Jesus?
Jesus estava sendo perseguido. O anúncio do Reino de Deus incomodou muita gente. Ele foi considerado subversivo, pois sua pregação ia diretamente contra o imperador romano e contra a religião da época, o judaísmo. Por isso, sua morte foi decretada pelos homens. Na ceia, Jesus sabia que ia morrer violentamente por causa desses motivos (Jo 19, 1-16).
Dentro do seu grupo, Jesus enfrentou um outro problema, a traição. Pelo menos dois dos seus discípulos, de modos diferentes, iriam traí-lo: Judas e Pedro (Jo 18, 1-12; Lc 22, 54-62). Os demais discípulos não permaneceriam junto de Jesus.
Todos o abandonariam com exceção das mulheres (Mc 15,40).
Jesus sabia disso, pois conhecia bem o seu grupo e suas fragilidades (Mc 14, 27).
Jesus estava diante de uma escolha fundamental. Fugir, abandonar tudo e ceder ao medo que sentia, ou assumir corajosamente as conseqüências da sua missão. Esse conflito interno iria pedir dele uma opção fundamental. Ele deveria fazer uma escolha livre - e fez! Decidiu amar-nos ate o fim (Jo 12, 27; Jo 13, 1).
Então, em vez de deixar-se levar pelo turbilhão dos acontecimentos, toma as rédeas de sua vida e transforma toda a situação em oferenda, em entrega pessoal, livre e amorosa da sua existência. "Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade" (Jo 10, 18). Tomando o pão e o vinho, Jesus antecipa sua morte e a transforma em entrega livre, oferenda de si próprio: "Recebam e comam, isto é meu corpo", "Recebam e bebam, isto é o meu sangue". Fazendo isso, Jesus quebra por dentro a maldade e a violência do mundo (Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo...). Faz da morte, que viveu com violência e crueldade, uma doação por amor: "Meu corpo dado por vocês", "meu sangue derramado por vocês e por todos". Essa é a grande transformação que se dá no seu coração e que ele deseja que se dê no coração da comunidade dos seus seguidores - "Façam isto em minha memória". "Transformem a vida de vocês em entrega amorosa pelo bem do mundo. Associem-se à minha entrega, compartilhando deste pão e vinho, meu corpo e sangue oferecidos. Ofereçam-se também! Sejam livres para amar nessa medida! Essa é a adoração que o Pai espera de nós".
Tudo isso comprova a fidelidade de Jesus ao projeto do Pai. Ele é fiel a ponto de entregar-se por causa do Reino. Condenado pelo tribunal humano, e inocentado diante do tribunal divino. Deus Pai diz ao Filho um grande SIM, acolhendo sua oferta e arrancando-o das garras da morte. Jesus, mergulhado na morte, e arrancado das águas profundas para a vida. A ressurreição e a aprovação do Pai à obra de seu Filho. A ceia passa ser, então, sinal de que vale a pena trilhar o caminho de Jesus. Vale a pena sermos fieis como ele, transformando tantas situações de morte em situações de vida e esperança para todos. Nas nossas Eucaristias, procuramos fazer o que Jesus fez. Pela oferta da nossa vida na própria vida dele, nos associamos à sua morte e ressurreição.
Do calvário ao sepulcro vazio
Hoje são tantos os climas que rodeiam o altar... Uma mulher idosa e indefesa e assassinada no Para por que ameaça os poderosos latifundiários. Em Belo Horizonte, uma menina que nasceu prematura é colocada num saco plástico e atirada nas águas de uma lagoa. Sua vida é resgatada milagrosamente das ondas da maldade humana. Um tratorista decide ir para a cadeia para não ter de derrubar a casa dos pobres, como ele, e fazer mais uma família de desabrigados. Uma esposa traz ao altar, dia após dia, o sofrimento do seu marido alcoólatra. Um irmão é assassinado a golpes de faca durante a oração com os jovens de todas as igrejas, de todas as nações, para os quais ele dedicou sua vida inteira. Jovens viciados em droga são marcados para morrer pelos traficantes. Alguns já foram assassinados porque não fugiram para longe dos que tramaram sua morte. Outros jovens encontram saída e sentido para sua vida no projeto de assistência ao adolescente que a comunidade promove.
Recuperam a auto-estima, o gosto pelos estudos, a alegria de viver. Aprendem a ficar longe do perigo das drogas e da violência que ronda suas vidas.
São tantas as expectativas, medos, tensões, incompreensões... tantas vitórias, certezas e alegrias que trazemos. Tudo é colocado no pão e no vinho, tudo transformado e incorporado na vida dele para ser oferecido ao Pai em adoração perfeita, na luta pelo Reino: "Por Cristo, com Cristo e em Cristo...". O clima da ceia de Jesus se mistura ao clima da nossa ceia. Somos transportados pelos "pés da fé", através do sinal do pão e do vinho, da palavra proclamada e da comunidade reunida, até o calvário e o sepulcro vazio. Levamos para lá nossa vida inteira: nossas mortes, tristezas e limites e também nossas superações, resistências, vitórias. Então, tudo começa a fazer sentido. A vida ganha o sabor e a luz da fé. A esperança se reacende no nosso coração: só o amor pode nos conduzir a vida! (1 Jo 3, 14).
Novos e velhos significados se escondem sob os sinais deixados por Jesus... Que sentido tem para nós celebrar a Eucaristia é uma questão que deve nos incomodar sempre, pois é fonte que não se esgota, e vinho sempre novo e surpreendente. É mistério que se revela e se esconde. Mas como toda fonte nasce para irrigar e como todo vinho para alegrar, a Eucaristia é para a nossa vida. Não podemos aprisioná-la e nem o conseguiríamos...
É ao encontro da vida dos discípulos de ontem e dc hoje que a celebração da Eucaristia se põe. O clima da ceia de Jesus se mistura aos tantos que a vida proporciona aos homens e mulheres de hoje. Tantas mortes, vidas, entregas e ressur-reições... Nada há que deva ficar em casa quando vamos à igreja. Só levando tudo e depositando tudo sobre o altar, é que haveremos de, corajosamente, nos associar a entrega de Jesus, fazendo cumprir em nós o que ele mesmo viveu. Em sua memória.
Padre Danilo César dos Santos Lima |