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Carta aos Hebreus (2)

Autoria e Data

Há muitas dúvidas em relação à autoria da carta. Os cristãos orientais a tinham como paulina, ao passo que os ocidentais não.
Citam-se como possíveis redatores S. Barnabé, São Lucas, São Clemente Romano e Apolo, mas isto são apenas hipóteses e conjecturas não demonstradas.

A Carta supõe um escritor de origem judaica, um cristão culto e de formação helenística que conhece profundamente a versão grega dos LXX, a vida religiosa dos hebreus e o culto do Templo e o ritual do Antigo Testamento, com suas solenidades. É um bom conhecedor da Sagrada Escritura e de questões teológicas.

O autor literário deve ter sido uma pessoa muito próxima de São Paulo, em pensamento e atividade, pois as idéias da epístola são paulinas, mas o estilo é bem diferente. Não se encontra nela o entusiasmo do apóstolo nem suas preocupações habituais, nem sua maneira própria de exprimir. Supõe-se apenas que ela foi escrita sob sua influência. Parece que ele quis recordar o pensamento paulino, como quem escreve as palavras do Mestre.

Até 50/60 anos atrás era comum dizer-se que Hebreus era carta de São Paulo. Em nossos dias já não se afirma isso. Fato é que o autor sagrado e a sua personalidade permanecem obscuros.

Quanto à data de escrita há muitas opiniões: elas variam entre os anos 63 e 90. Por sua citação por São Clemente Romano do ano 95, temos a data mais recente, mas por não fazer comentários quanto à queda da cidade de Jerusalém no ano 70, temos a data mais antiga. Alguns estudiosos a colocam por volta de ano 66/67.

Paralelo entre escritos paulinos e a Carta aos Hebreus
Transcrevo a seguir a comparação entre os textos que se encontra na Apostila do Curso Bíblico por correspondência da Escola Mater Ecclesiae:

Em Hb 2,3 o autor distingue: primeiramente o Senhor, que começou a pregar a Boa-Nova, depois os Apóstolos e discípulos, que imediatamente a ouviram, e finalmente nós, isto é, uma segunda geração, que é discípula dos Apóstolos e dos primeiros ouvintes da Palavra. Ora S. Paulo nunca se incluiria entre os discípulos, como se inclui o autor de Hb; fazia questão absoluta de afirmar que ele recebera o Evangelho diretamente de Cristo; cf. Gl 1,1s.12.16s.

Em Hb falta a introdução que é habitual nas cartas paulinas; começa sem o nome do remetente e sem as costumeiras saudações. Comparem-se entre si o início de 1 Cor, por exemplo, com o início de Hb. Esta carta parece, antes, um tratado teológico ou uma homilia, à qual se acrescentou um fecho de carta; cf. 13,18-25.

Hb apresenta 168 palavras que não se encontram no Novo Testamento, e outras 124 que faltam nas cartas paulinas.
Algumas destas se derivam da filosofia grega do século I: demiourgos, em Hb 11,10; metriopathein, ter compreensão, em 5,2. O autor prefere falar de Jesus Cristo ou simplesmente de Jesus ou de Cristo, em vez da habitual fórmula paulina Cristo Jesus; cf. Hb 2,9; 3,1; 13,8 e Fl 2,5; Gl 5,6. De modo geral, o estilo de Hb revela escritor que conhecia muito bem o vocabulário e a sintaxe gregos, ao passo que as cartas paulinas são muito menos buriladas.

O modo de citar a Bíblia também é diferente: S. Paulo usa as fórmulas “está escrito..., como está escrito..., diz a Escritura..., Moisés diz..., Davi diz...”. ao contrário , conforme Hb, Deus diz diretamente: cf. 1,5.6.7.13; 4,3; 7,21; 8,5.8; 10,30.37.38; 11,18; 12,15; 13,5.6 ou o Espírito Santo diz: cf. 3,7; 9,8; 10,15.

O Antigo Testamento é interpretado como tipo ou imagem do Novo Testamento. Assim a Lei é a sombra ou o esboço dos bens da nova Aliança (10,1); Melquisedec, rei e sacerdote, é figura de Cristo (7,1-28); o tabernáculo terreno é vislumbre pálido do celeste (8,1-13); os sacrifícios do Antigo Testamento são prefigurações do sacrifício de Cristo (9,1-19).

O conteúdo doutrinário de Hb é, sem dúvida, em sua essência, o das cartas paulinas. Todavia há diferenças de ênfase, que não constituem contradições.

Para S. Paulo, Cristo é sobretudo a cabeça de um grande corpo; comunica vida e movimento aos membros desse corpo, que são os fiéis. (cf. principalmente Cl e Ef). Ora, para Hb, Cristo vem a ser, antes do mais, o Guia que dirige os fiéis (2,10; 12,2) ou o precursor que os precedeu atravessando o véu do tabernáculo celeste, onde Ele é Pontífice para sempre (cf. 6,19).

S. Paulo põe em relevo os aspectos precários da Lei de Moisés: esta tinha a função de mostrar aos judeus a sua insuficiência e miséria morais (cf. Rm 4,15; 7,7-13; Gl 3,19). Ao contrário, o autor de Hb enfatiza a Lei de Moisés como prenúncio da dispensação da graça cristã (cf. Hb 8,13; 10,1)- o que é mais positivo e otimista do que o enfoque expresso em Rm e Gl.

Inegavelmente há traços comuns de doutrina e até idênticas expressões em Hb e nas epístolas paulinas. Assim a eminente dignidade de Cristo, Filho eterno de Deus (cf. Rm 1,3 e Hb 4,14); Cristo, imagem da substância do Pai e mediador na obra da criação (cf. Cl 1,15-17 e Hb 1,3s); a mesma teologia da cruz, ato de obediência, aparece em Fl 2,8 e Hb 5,7; Cristo oferece um sacrifício de expiação (cf. Rm 3,25 e Hb 10,12). Após a Paixão, Cristo é elevado à direita de Deus (cf. Rm 8,34 e Hb 10,12).

Notem-se ainda a referência a Timóteo, o caro discípulo de S. Paulo, em Hb 13,23, assim como os ecos do fraseado Paulino em Hb 13,18s (cf. 2 Cor 1,11s), Hb 13,19.23 (cf. Fm 22 e Fl 2,1.23s), Hb 13,14 ( cf. Fl 4,18,21s).

Continua no próximo número

Jane do Tércio

 
 

VEJA NO MÊS DE MARÇO/2008:


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