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A realidade da Amazônia pode ser apresentada de muitas maneiras. Ora se privilegia a natureza, destacando sua riqueza e diversidade. Em outros estudos, foca-se o desenvolvimento, quase sempre centrado apenas no econômico, procurando destacar as riquezas naturais e as formas de transformá-las em mercadorias. A reflexão a seguir procura ter presente essas dimensões, mas, para estar a serviço dos objetivos desta Campanha, o destaque será dado aos povos da região amazônica, sua longa presença nesse território imenso, sua maneira de conviver com os diferentes e complexos elementos que fazem da Amazônia um lugar diferente, com características que a tornam um bioma, um berço de vida que não se repete em outras regiões da Terra. No exame crítico dos caminhos de ocupação, das formas de exploração econômica, do destino dado à riqueza produzida, das opções tecnológicas assumidas, a análise será feita a partir dos povos da região, suas resistências, iniciativas e propostas, pois assim é possível pensar a Amazônia para e com todas as pessoas, comunidades e povos que nela vivem.

A Amazônia e um patrimônio do povo brasileiro, em particular, e da humanidade, em geral; como patrimônio, não pode ser reduzida apenas ao aspecto econômico, uma vez que agrega uma série de outros valores, como o cultural, o medicinal, o paisagístico, o ecológico, o social, o simbólico, o religioso e outros. Por outro lado, é muito importante que as pessoas e comunidades que vivem fora da Amazônia não se limitem a acolher as informações e análises dessa região e procurem compreendê-las. O processo será mais rico quando os dados e as análises forem oportunidade de refletir sobre sua própria região.
Com isso, o estudo da realidade servirá de base tanto para aprofundar a solidariedade em relação aos povos da Amazônia como para desenvolver iniciativas locais que visem promover uma adequada convivência de todas as pessoas com as condições de vida próprias de cada região.

A Amazônia é um dos maiores, diversos, complexos e ricos biomas do mundo. Vista a partir do cosmo, a Amazônia pan-americana ocupa uma área de 7,01 milhões de km² e corresponde a 5% da superfície da Terra, 40% da América do Sul, 59% do Brasil. Contém 20%) da disponibilidade mundial de água doce não-congelada e 80% da água disponível no território brasileiro.
Abriga 34% das reservas mundiais de florestas e uma gigantesca reserva de minérios. Sua diversidade biológica de ecossistemas, espécies e germoplasma é a mais intensa e rica do planeta: cerca de 30% de todas as espécies de fauna e flora do mundo encontram-se nessa região. O sistema fluvial Amazonas-Solimões-Ucayalli representa o mais extenso no do mundo, com 6.671 km; a bacia hidrográfica do rio Amazonas é constituída por cerca de 1.100 rios, e o rio Amazonas joga no Oceano Atlântico entre 200 e 220 mil m³ de água por segundo, o que representa 15,5% de toda a água doce que entra diariamente nos oceanos.
Ele leva para o Oceano uma gigantesca quantidade de sedimentos, calculada cm l bilhão de toneladas por ano. As correntes do Atlântico Norte distribuem esses sedimentos férteis ao longo da costa até a Venezuela e algumas ilhas do Caribe.

A Amazônia Legal brasileira está formada por dez Estados: Acre, Amapá, Amazonas, Goiás, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso. O território compreende 5.030.730 km2, 59% do território nacional e 65% de toda a bacia amazônica. Tem 11.248 km de fronteiras internacionais, 1.482 km de costa atlântica, 22 mil km de rios navegáveis; com 23 milhões de habitantes, dentre os quais 163 povos indígenas, que totalizam 208 mil pessoas, ou 60% da população indígena brasileira.

Esta realidade geográfica e social nos convida a pensar a Amazônia como um todo: uma Pan-Amazônia que supera as dimensões da Amazônia brasileira e com ela interage. Tudo está interligado e o que acontece num lugar tem reflexos imediatos no outro. Os problemas são semelhantes e precisam ser resolvidos em seu conjunto. A defesa dos direitos dos povos indígenas, a preservação do meio ambiente, o serviço pastoral, a luta contra o crime organizado, por exemplo, exigem atitudes e soluções conjuntas para que possam ter a devida eficiência.

O que a Palavra de Deus e a da Igreja nos dizem sobre as questões da realidade amazônica? Sensíveis ao chamado de Deus e comprometidos com as propostas da Igreja, seremos motivados a pensar e a agir solidariamente e a educar gerações para a solidariedade, como muitos de nossos irmãos da Amazônia.

Pensar na Amazônia à luz da fraternidade requer começar pelos povos da Amazônia, que há séculos vivem e convivem nesse mundo de águas, florestas, cerrados, lagos e campos inundáveis.
Pôr a Amazônia no centro de nossas atenções fraternas significa aceitar o desafio de nos deixar questionar, surpreender e envolver numa outra maneira de enxergar a natureza, a vida e nossas relações com elas e entre nós.

É verdade que a Amazônia precisa de todos nós. Também é verdade que todos nós precisamos, e muito, da Amazônia, não só por , ser ela um dos maiores filtros purificadores de ar necessários para a sobrevivência do planeta, mas, sobretudo, porque seus povos podem nos ensinar os segredos da vida para as futuras gerações. A Amazônia, em sua complexa biodiversidade, em sua pluralidade étnico-cultural em sua fascinante história, com seus desafios e possibilidades, eleva-se como um grande poema de louvor ao Deus que tudo criou. E o mesmo Deus que salvou o povo de Israel da escravidão do Egito e congrega todos os povos e culturas num dinamismo contínuo de criatividade e busca do "novo céu e nova terra" (cf. Is 65,17-25; Ap 21,1) - a"tern sem males" do povo Guarani -, para a grande festa da vida em seu Filho Jesus Cristo, no dom da alegria do Espírito Santo.

Problemas como os que encontramos na Amazônia geram apelos que necessitam ser atendidos pelos seguidores do Evangelho, Fraternidade e amor ao próximo não são idéias a serem discutida teoricamente. São sinais concretos do Reino anunciado por Jesus Cristo que declarou: "Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!" (Mt 25,40).

A situação da Amazônia pode tornar-se fonte inspiradora para um novo modelo de vida, não só lá, mas também em outras partes.

As questões amazônicas têm algo a dizer para qualquer lugar; a proteção da terra e da natureza, o direito dos pequenos, a justiça sem corrupção, a preservação das culturas, a superação da idolatria do capital, a partilha sensata das conquistas da humanidade,a vida como valor fundamental tudo isso deve ser vivido em todo lugar,porque se trata de exigências básicas do projeto de Deus para o mundo.

Retirado do texto base de CF 2007

 
 
 

VEJA NO MÊS DE MARÇO/2007:


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