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O Mal |MARÇO


Após as tristes notícias de horror contra uma criança, ouvimos uma pergunta: “Por que permite que isto aconteça?”. Pensando em nossos leitores, publicamos o artigo abaixo que vai nos ajudar em nossa reflexão sobre o mal.

Falando sobre a vontade de Deus, mais especificamente, em relação à morte de Jesus. De modo semelhante, podemos analisar o problema do mal, pois também este, como a vontade de Deus, muitas vezes, é concebido em termos fatalistas, não em termos de liberdade.

Antes de distinguir entre o mal físico (morte, desastre, sofrimento) e o mal moral (pecado), quero dizer que a linguagem do "mal" é, no fundo, um sistema simbólico, ou seja: através daquilo que aparece na superfície, aponta para uma coisa mais longínqua, que não conseguimos captar em conceitos. No dizer dos lingüistas: o que chamamos de mal é antes um "significante" do que o "significado" em si, pois este é sempre indizível.
Chamamos de mal não a coisa em si, mas um fenômeno que aponta para algo que escapa à nossa linguagem.

Se o mal aponta para algo inexprimível, ele é e não é o conteúdo que ele evoca. Vemos sinais daquilo que não é como deve ser, sinais de graus diversos: o mal físico - catástrofe, doença, morte -, o mal moral - crime causado por um psicopata sem senso moral, terrorismo, abuso de menores etc. Em tudo isso, aquilo que vemos são significantes daquilo que não é como deve ser.
Lemos no jornal que um adolescente matou, cruelmente, um casal de namorados. Chamamos isso de "mal", mas, no fundo, estamos querendo apontar algo que não conseguimos expressar.
É a ponta de um iceberg. Daí a reação de pânico diante de tais fatos - a ponto de alguns quererem diminuir a idade penal, restabelecer a pena de morte etc., em vez de melhorar o acompanhamento psiquiátrico de jovens patológicos e adequar as instituições para acolhê-los.

O mal está para o bem como a sombra para a luz dizia Santo Agostinho. A percepção do mal, embora não o consigamos explicar nem julgar definitivamente (pois o juízo pertence a Deus), nos lembra negativamente aquilo que Deus deseja de nós: "Isso não é o que Deus quer! Que vamos então fazer?".

Se nos relacionamos com Deus em base de liberdade, o mal não é uma fatalidade que Deus faz cair sobre nós ou sobre o nosso próximo, mas algo que nos faz refletir sobre o que Deus deseja de nós. Que combatamos o que o mal visível significa. Uma judia, antes de morrer no campo de concentração, dizia a Deus: "Preciso te ajudar!" (Etty Hillesum).

O mal visível faz-nos refletir sobre como reagir, como melhorar.
Então, o mal pode mudar de significado. A morte não é necessariamente um mal; por isso, rezamos a Deus por uma "boa morte". O martírio infligido a um justo não é, em última análise, um mal para esse justo, pois ele é acolhido no amor de Deus Pai, mas é sinal do ódio que existe no mundo, um mal para os que restam, uma injustiça que continua presente - um mal, sobretudo, para quem comete a injustiça (cf. Sabedoria 1,16 -3,10). Um dia em Jerusalém, diante do memorial da Shoah (o "Holocausto" ou extermínio dos judeus por Hitler), um ex-prisioneiro dos campos de concentração me disse: "Nós sofremos isso para que nunca mais se repita no mundo". Segundo Isaías 52,13 - 53,12, o justo reconcilia o mundo por seu sofrimento injusto.

Sobretudo não atribuamos a Deus o mal que acontece. O que chamamos de mal acontece porque a natureza é uma luta, uma luta pela sobrevivência; ou porque o ser humano não usa sua capacidade para o que é racional e bom para todos. Mas o Deus que conhecemos em Jesus de Nazaré é o Deus que vence o mal, que transforma a morte em vida e confirma o bem para sempre.

Padre Johan Konings, SJ

 
 
 

VEJA NO MÊS DE MARÇO/2007:


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