Quando o espírito imundo sai de um homem, ei-lo errante por lugares áridos à procura de um repouso que não acha. Diz ele, então: 'Voltarei para a casa donde saí'. E, voltando, encontra-a vazia, limpa e enfeitada. Vai, então, buscar sete outros espíritos piores que ele, e entram nessa casa e se estabelecem aí; e o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro. (Mt 12,43-45)
Certamente, podemos comparar nossa vida com uma casa. Se você parar para pensar, cada cômodo de uma casa pode comparar-se com uma área de nossa vida.
A porta de entrada pode ser comparada com nosso corpo.
Quando chegamos a algum lugar, o primeiro que se apresenta é nosso corpo. A personalidade ainda não está totalmente manifesta, mas a porta de uma casa, de alguma forma, já fala do seu interior. Nossa postura física, o modo como nos apresentamos já falam do nosso modo de ser. O psicólogo Pierre Weil tem um livro que trata exatamente desse tema: "O corpo fala".
A sala, lugar onde recebemos as pessoas, aplica-se aos relacionamentos que travamos. Algumas pessoas, somente as recebemos da porta para fora, mas algumas são convidadas a entrar. A sala é também o lugar do convívio comum da família, tem a ver, portanto, com a área familiar.
Os quartos são espaços mais restritos e representam nossa intimidade, nossos sentimentos mais profundos e caros.
Normalmente, é no quarto onde nos desnudamos e choramos, algo próprio da intimidade. Há pessoas que só existem a partir da sala de suas vidas.
A cozinha representa o suprimento, o trabalho que possibilita colocar o pão à mesa e todos os recursos para levar uma vida digna.
O banheiro é o lugar da higiene como um todo. Também em nossa vida pessoal precisamos nos banhar e nos livrar dos expurgos emocionais e espirituais.
Há, ainda, aquele quartinho da bagunça, uma espécie de depósito de coisas velhas e novas que não são de uso imediato.
Quantas lembranças estão em nosso interior! Memórias de tantos momentos bons e ruins, até mesmo herança de nossos antepassados, que estão guardados em nós, consciente ou inconscientemente.
Uma casa tem ainda uma área de serviço ou quintal onde se lavam as roupas e onde elas possam secar. Podemos dizer que é um espaço de reciclagem. De alguma forma, reciclamos vivências e sentimentos em nossa vida. Não são dejetos ou lixo, são apenas realidades que precisam ser limpas e receber o vento da leveza e a luz do sol do amor para, novamente, ficarem como novas em nosso interior.
Mesmo muitos de nós morando em apartamentos, em nossa casa pessoal, precisamos plantar um jardim e dele cuidar. Ele é a celebração da vida que se expande de dentro para fora da casa: é o sorriso, a mão que se estende para ajudar, o perfume da presença amorosa, mesmo estando em silêncio. Há pessoas que, simplesmente, cimentam a frente da casa. Muitos acabam por fazer isso em suas vidas: estão secos, "acinzentados" em sua expressão. Não sorriem, não se solidarizam, não são amorosos.
Essa é a casa que precisa ser cuidada! De acordo com o texto do evangelho, ela deve estar limpa e enfeitada, mas não pode estar vazia. Esse "vazio", para mim, tem dois sentidos. O primeiro é que a pessoa precisa ter posse de si, precisa de se conhecer, conhecendo cada "cômodo" de sua casa pessoal. Perceber onde podem estar as brechas, onde o cupim pode atacar ou o ladrão penetrar e, assim, estar vigilante. Uma casa, por mais bem-cuidada que esteja, pode deteriorar-se, pois o cuidado deve ser algo diário. A isso chamamos de autoconhecimento! O segundo sentido é que mesmo uma pessoa se conhecendo bem, se ela não se entrega nas mãos de Deus e não convida Jesus para ser o Senhor de sua vida, o "ladrão" sempre encontrará um meio de entrar. Aí, o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro.
Quando abrimos nossa vida a Jesus, Ele vem e nos purifica de toda obra do mal. Entretanto, não podemos controlar por onde esses "espíritos" andam. O que devemos fazer, então, é manter a casa limpa, perfumada e cheia do amor de Deus. E não se preocupe com o resto, pois o Senhor designou seus anjos para que nos guardem.
Uma boa forma de manter a casa LIMPA é confessar-se (quando foi sua última confissão?); PERFUMADA é acender o "incenso" da adoração (você reserva tempo para adorar o Senhor?); CHEIA DE AMOR é acolher os mais sofridos (como anda sua caridade?).
Pense nisso!
Pe. Sérgio Luiz e Silva CSSR
Do Jornal Opinião |