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Introdução às Cartas Pastorais

As duas Epístolas a Timóteo e a Epístola a Tito são conhecidas comumente como Cartas Pastorais. Foram assim chamadas no século XVIII, não só por seu conteúdo, mas também por serem dirigidas a pessoas em vez de comunidades como nas outras cartas. Os destinatários são dois colaboradores de Paulo, que estão à frente das comunidades locais de Éfeso e Creta.

O seu conteúdo é eminentemente pastoral, pois se dão normas e conselhos para o bom andamento daquelas comunidades, ameaçadas pelo influxo de falsos mestres. Contém também orientações sobre a organização das igrejas e a função dos ministros. As três, além disso, coincidem no estilo simples e no tom familiar, que denota a preocupação de formar aqueles que desempenham uma missão pastoral.

Paulo enumera as qualidades que devem ter os futuros chefes das Igrejas. Dá conselhos sobre a conduta pessoal que se deve ter e pede aos dois, Tito e Timóteo, que se concentrem nas coisas essenciais e não se deixem extraviar diante de tantas doutrinas errôneas postas em circulação. O melhor modo de contra-atacar as idéias erradas é ensinar a verdade.

A preocupação central das três cartas é garantir as igrejas como instituição, conservar o ensinamento tradicional e defender-se das ameaças do desvio doutrinal. Para isso é preciso nomear chefes competentes e fidedignos, manter a ordem e a concórdia, regular o culto.

Paulo encarrega seus discípulos de dirigir e governar as igrejas fundadas por ele, e de nomear, para esse efeito, supervisores, anciãos e diáconos. Significativamente, a primeira responsabilidade dos líderes é ensinar: devem ensinar doutrina sólida e, sobretudo, de interesse moral pratico - oração, boas obras, relações familiares. Essa doutrina, firmemente alicerçada no Antigo Testamento, em Cristo e nos Apóstolos, é algo que foi recebido e que cumpre salvaguardar. As linhas de transmissão são claramente marcadas: de Cristo a Paulo, que confiou a doutrina aos seus discípulos; estes, por sua vez, devem passá-la àqueles que estabelecem como mestres e guias das igrejas.
A verdadeira doutrina é reconhecida pela sua origem apostólica e pela sólida piedade que engendra. Nessas cartas os carismas recuaram para um segundo plano assim como a preocupação com a parusia.

Paulo se preocupa com o perigo que ocorre na própria comunidade. Há cristãos que não respeitam a sólida doutrina tradicional e propagam novas teorias; essas cartas têm algumas coisas duras a dizer sobre eles. São mestres, que se recomendam a si próprios e de opiniões próprias, que assumem posturas de homens profundamente religiosos e que sem muita dificuldade, conquistam para suas idéias alguns dos fiéis menos esclarecidos. Esses falsos mestres são jactanciosos, controversistas que não se cansam de discutir vãos problemas (1 Tm 1,4), mentalmente indisciplinados, superficiais, ocupados apenas com coisas fúteis ( 1 Tm 6,4; Tt 3,9; 2 Tm 2,23), com fábulas e genealogias ( 1 Tm 1,4; 4,7; Tt 1,14; 3,9). São, além disso, interesseiros e venais ( Tt 1,11), supondo que a piedade seja fonte de lucro (1 Tm 6,5). Hipercríticos, desobedientes, pode-se dizer que naufragaram na fé ( 1Tm 1,19).

A idéia básica das Pastorais, e que, portanto, aparece mais frequentemente, é a salvação: designa-se Deus como "o Salvador" (1 Tm 1,1; 2,3; 4,10; Tt 1,3; 2,10; 3,4), que com infinito amor " quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade"( 1 Tm 2,4). Este plano divino foi manifestado e levado a cabo por Jesus Cristo, o único Mediador (1 Tm 2,5), que "veio ao mundo para salvar os pecados"( 1 Tm 2,5-6); a Igreja prolonga e atualiza a ação salvadora de Cristo, visto que é o povo resgatado da iniqüidade e purificado com o sacrifício ( cf.Tt 2,14); os cristãos alcançam a sua própria salvação mediante uma vida rica em boas obras ( Cf. Tt 3,14), reflexo da sua piedade. Assim, pois, o conteúdo fundamental das Cartas Pastorais gira à volta de Jesus Cristo, da Igreja e do exercício da vida cristã.

Ainda que Paulo não pretenda nestas cartas explicar um tratado de Cristologia, não obstante, deixou-nos expressões lapidares, muitas delas tomadas de hinos litúrgicos, que refletem uma penetração profunda em Jesus Cristo e na Sua obra salvífiva.

Em conexão com os outros escritos paulinos, onde o mistério alude ao plano divino de salvação realizado em Cristo (cf. Rm16,25; Cl 1,26; Ef 1,9; 3,3-5), também aqui se faz menção do "mistério da fé " e do "mistério da piedade" (1 Tm 3,9.16), ao falar do nosso Salvador. Com efeito, um só é "o mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo homem, que Se entregou a Si mesmo em redenção por todos" (1 Tm 2,5-6); aqui e noutros lugares sublinha-se a Sua humanidade e a Sua encarnação (cf. Tm 1,10; Tt 2,11;3,4); mas também se confessa abertamente a Sua divindade, ao denominá-Lo "o grande Deus e Salvador nosso" (Tt 2,13; cf. 1 Tm 1,1.12; 6,3.14; 2 Tm 1,2.8). Cristo, portanto, por ser Deus e homem, une os homens todos com Deus. A salvação que Jesus nos consegue não termina com a sua Ascensão ao céu, mas continua a realizar-se na Igreja, até que culmine definitivamente com a Sua vinda gloriosa no fim dos tempos.

Como estas epístolas vão dirigidas imediatamente àqueles que governam comunidades cristãs, o Apóstolo estende-se na doutrina sobre a Igreja. Não faz um estudo sistemático de Eclesiologia, mas descreve traços importantes da sua natureza e organização.

Em conexão com a idéia central das Pastorais Deus quer a salvação de todos os homens Paulo ensina que a Igreja é guarda e veículo desse depósito divino. Jesus com o Seu sangue estabelece a Nova Aliança, fazendo da Igreja "Seu povo, propriedade Sua" (Tt 2,14), ou seja, " o povo que lhe pertence, povo consagrado a Ele" . Deus atua na Igreja e através dela como um Pai na sua família; assim se depreende da denominação "casa de Deus" (1 Tm 3,15).

Portanto a Igreja não é uma sociedade meramente humana, onde os ministros podem exercer a sua função com critérios pessoais; mas pertence a Deus, pelo que os ministros tem deveres ineludíveis a cumprir: "que saibas como há de comportar-se na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e fundamento da verdade" ( 1Tm 3,15).

A estrutura da Igreja, tal como se reflete nestas epístolas, é especialmente importante, porque marca o começo da sucessão apostólica: junto à autoridade de Paulo, enumeram-se as funções de Timóteo e Tito à frente das comunidades cristãs de Éfeso e Creta, e dão-se as pautas a seguir pelos que continuarão a missão hierárquica.

Timóteo e Tito tinham recebido dele encargos concretos - como na coleta de Corinto (cf.2 Cor 8,6), ou as missões esporádicas em Tessalonica ( cf. 1 Ts 3,2) e em Corinto (cf. 1 Cor 4,17; 6,10)-, têm aqui uma função muito mais determinada e estável: hão de ocupar-se do ensino e da pregação ( cf. 1 Tm 4,13; 2 Tm 2,15; 4-5); do governo da comunidade (cf. 1 Tm 5,19); de ordenar a disciplina ( cf. 1 Tm 5,1-16; Tt 2,1-10; 3,1-2) e organizar o culto ( cf. 1 Tm 2,1-12). Ou seja, exercem o tríplice ofício de ensinar, governar e santificar. Mas, como a sua missão deve perdurar também depois da morte do Apóstolo (cf. 2 Tm 4,1-8) - , têm a obrigação de escolher os seus continuadores: diáconos, presbíteros e bispos.(cf. 1 Tm 3,1-13; 5,17-22; Tt 1,5-9).

Para a vida cristã essas cartas, pelo seu caráter eminentemente pastoral, indicam algumas virtudes que o cristão deve viver, tendo Jesus como modelo e praticar o exercício da piedade. O cristão há de esforçar-se por praticar obras boas, porque acreditou em Deus (Tt 3,8), porque se sabe redimido por Cristo (Tt 2,14) e porque a graça o fortalece no cumprimento do bem.

Com um profundo sentido teológico encontramos, unicamente nas 2 Pd 1,3.6; 3,11 e nas Pastorais: 1 Tm 2,2; 3,16; 4,7.8; 6,3.5.6; 2 Tm 3,5.12; Tt 1,1; 2,12, a piedade . Ela resume toda a atitude religiosa dos cristãos, ligada ao conhecimento da fé, cerne da sua vida comum em Cristo Jesus.A piedade expressa a relação íntima e familiar entre Deus e os homens. Antes de mais aplica-se a Deus que brinda ao homem o Seu amor, patente na Encarnação. Paulo denomina este acontecimento sublime "mistério da piedade" ( 1 Tm 3,16), indicando que nele se realiza a união mais extraordinária de Deus com a humanidade. Paulo exorta a conhecer a verdade que é conforme à piedade (Tt 1,1; cf. 1 Pd 1,3), e recorda os prejuízos que derivam de não se aderir à "doutrina que não é conforme à piedade"(1 Tm 6,3).

Canonicidade e Autenticidade

Nunca houve dúvidas na Igreja sobre o caráter inspirado destes três textos: dois de Timóteo e um de Tito. O Concilio de Trento os incluiu no Cânon dos livros sagrados, escritos sob inspiração do Espírito Santo.

Quanto à autenticidade paulina, a tradição cristã é constante desde o princípio e assim o confirmam testemunhos muito antigos: 2 Pd 3,15 e no princípio do século II estas cartas eram conhecidas e citadas por S. Clemente Romano, S. Policarpo, S. Inácio de Antioquia, o Fragmento Muratoriano menciona-as explicitamente, assim como S. Irineu e Tertuliano e o historiador Euzébio.

No século XIX, alguns protestantes liberais negaram a sua autenticidade paulina. No princípio do século XX a Pontifícia Comissão Bíblica manteve que não havia razões suficientes para negar que Paulo o fosse o autor. Hoje, ainda que haja críticos que duvidam da autenticidade, muitos outros encontram resposta para as dificuldades que se costumam aduzir. Destas, as mais importantes são o vocabulário e o estilo diferentes do resto do corpus Paulino. Convém assinalar, que a doutrina destas cartas está em estreita relação com o ensinado no resto do corpus Paulino.

A questão da autenticidade não afeta o valor permanente do conteúdo, nem são menos valiosas para a fé porque é improvável que Paulo as tenha escrito, nem menos valiosas se forem autenticas. Seu valor para os cristãos vem do fato de serem inspiradas por Deus (disso ninguém duvida) e importantes para a Igreja entender a si mesma.

As datas de escrita são o ano 65 para 1 Tm e Tt e 67 para 2 Tm, provavelmente.

Continua no próximo número

Jane do Térsio

 
 
 

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