Cristologia (4) Continuação
A
interpretação que São Paulo faz da figura do Adão
do Gênesis (Rm 5,12-21): Nosso Senhor Jesus Cristo é o Novo Adão.
Pela justificação nos faz reinar para a vida eterna.
Para
explicar de que forma os homens, justificados pela fé, participam da Glória
de Deus mediante Cristo Cabeça, em virtude da Redenção atuada
com plena sabedoria até à imolação, Paulo faz, da
figura do Adão, a profecia de Cristo, princípio da estirpe dos filhos
de Deus (5,14). Teologicamente, a figura de Adão de Gn 3 retrata o homem
que fracassa diante do plano de Deus. A moldura cronológica na qual a narrativa
é colocada só a ganha Abraão enquanto esse é princípio
da história da salvação, no tempo. É portanto, somente
por um artifício literário que a figura emblemática de Adão,
se torna princípio de uma História de pecado, da mesma forma que
a Descendência dos Patriarcas é um artifício literário
para que entendamos que Deus desde sempre pensou em resgatar o homem das suas
culpas enquanto queria configurá-lo ao seu Filho. Resulta de tudo isso
que a Bondade sempre age no amor, querendo sempre o máximo do nosso bem
possível. Diante da culpa, ele doa o Filho para que o homem receba a filiação
divina no máximo das condições para podê-la realizar,
sem que sejam preteridas as suas inalienáveis responsabilidades.
Paulo
sabe perfeitamente que a narrativa sapiencial de Gn 3 tem um sentido didático.
A assume, contudo, de forma cronológica, segundo o sentido que o redator
final das Escrituras sagradas quis que tivesse, na sua exposição
do Plano da Salvação, inspirado na vocação de Israel
para ser o povo de Deus que esperava um Redentor. Adão se torna a perfeita
figura de Cristo que é, de fato, em virtude da sua condição
divina, aquele que pode ser o Cabeça da estirpe humana, Aquele que transmite
realmente os valores da imortalidade e da Glória divina: Aquele que, de
fato, alcança uma remissão dos pecados em virtude da sua expiação
vicária e leva a reinar, em virtude de, único, ser capaz, diante
de Deus Pai, de perfeita obediência e imolação. Somente
Cristo Jesus é Vida plena.
O Evangelho prometido já ilustrava
a Pessoa de Cristo (Gn 1-3). A moldura cronológica, na qual a narrativa
sapiencial de Gn 1-3 é inserida, permite definir as prerrogativas de Cristo.
Essas, contudo, não podem ser por sua vez, aplicadas ao Adão de
Gn 1-3, como realmente existentes nele, porque ele é só figura (Rm
5,14). Cristo nos transmite a graça de Deus de forma eficaz, em virtude
da sua condição divina. É o verdadeiro Adão que justifica
, que nos constitui, individualmente, na condição de realeza, pelo
Espírito, possibilitando o domínio sobre os instintos e a conseqüente
mediação de louvação nossa entre o mundo e o seu Criador.
Cristo, enfim, nos dá a vida divina, sempre pelo seu Espírito, que
é penhor de imortalidade, ressurreição na carne, filiação
divina, herança eterna. Pela comparação vemos quanto Cristo
Jesus enriquece o homem ao se tornar um de nós. É esse enriquecimento
que ilustra o que falta a ser completado por Deus na obra da criação
do homem. Contudo isso acontece num contexto de pecado.
A narrativa sapiencial
surgiu exatamente para explicar esse mistério, diante da constatação
da infidelidade de Israel ao seu Deus. O homem se rebela contra o seu Criador
porque quer se constituir num deus. Essa ambição desmedida, o primeiro
dos sete vícios capitais, é fruto de uma omissão, a da procura
de Deus pela contemplação das obras da criação, pelas
quais o homem descobriria os atributos de Deus, o seu Poder e a sua Glória.
Todo homem está exposto a esse fracasso. De fato o vive. A história
da geração de Caim (Gn 4) o ilustra. Cristo Jesus redime o homem,
seja aquele que o precedeu como aquele que o segue, mediante a comunicação
do Espírito que, após tê-lo suscitado como criatura animada,
agora, se comunicando, nele se torna princípio de imortalidade gloriosa.
Enquanto redime a humanidade da sua condição de culpa, real nos
adultos, em potencial no recém-nascido, dizemos que tira o pecado original.
Enquanto comunica a vida divina, nos constitui na condição definitiva
contemplada pelo Plano da criação do Pai. A transmissão direta
de uma culpa que os ancestrais da humanidade teriam cometido é uma ilação.
Nos equivocamos diante de uma narrativa sapiencial que quer simplesmente ilustrar
o comportamento de todo e cada homem. Disso resulta que somente a Divindade, assumindo
a condição humana pode ser o Princípio da sua regeneração
e a força da atuação dos ideais que o Criador tem sobre a
criatura.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) De que forma
o Adão de Gn 1-3 é figura de Jesus? 2ª) De que forma Jesus
transcende a figura? 3ª) O que a figura de Adão retrata do homem?
Pe. Fernando Capra/CRSP
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