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Hoje é dia de Penitência?|MARÇO

Este era o título de um belo artigo, publicado no "Testemunho da Fé", do então Padre Edson de Castro Homem em homenagem ao falecido Frei Antonio Garciandia, OAR, seu mestre no Seminário. A pergunta do título torna-se ainda mais oportuna ao nos aproximarmos da Quaresma, período penitencial por excelência, mas não o único.

A penitência (que tem claramente origens bíblicas - vide Davi, os ninivitas e João Batista) é um esforço pessoal que nos exercita a nos configurarmos cada vez mais ao Cristo, que sofreu e morreu por nossos pecados. Jesus mesmo nos alertou que depois que o "noivo" nos fosse tirado jejuaríamos (Mt 9, 15 b). Mostra que o sofrimento (mesmo aquele não procurado ou merecido) é enobrecedor e aponta para valores mais elevados. É um sinal da conversão que deve se realizar na vida cotidiana (CIC, 1435).
Apaga as manchas deixadas pelos nossos inúmeros pecados e alcança muitas graças, a conversão de pecadores e a libertação das almas do purgatório - não por nossos méritos, mas pela Divina Misericórdia. Por fim, une nossas pequeninas cruzes diárias à Cruz definitiva do Senhor.

Todos os santos praticaram penitência de um modo ou de outro.
São famosos os casos de Santa Catarina de Sena, São Pedro de Alcântara, Padre Pio e muitos outros. Mais importante é o espírito com que se deve fazer a penitência, que a Mãe-Igreja nos indica nas leituras da 4ª feira de Cinzas (Mt 6, 1-6. 16-18) sempre com discrição, alegria e boa-vontade. É sempre a rainha das virtudes - a Caridade (em companhia de sua irmãzinha, a Justiça afinal, o que temos que não devemos a Deus?) - quem comanda a penitência? São Josemaría Escrivá (Caminho, 179) escrevia que nossa mortificação não deve mortificar os outros.

Este conjunto de práticas ascéticas que a Mãe-Igreja vivamente recomenda e determina em certos períodos se reveste de várias formas, adaptadas às diversas condições pessoais do penitente.
As mais clássicas são a esmola, a abstinência (não tomar determinado alimento, em geral, carne) e o jejum (a tradição jurídica anterior segundo o Padre Jesus Hortal determinava que só se fizesse uma refeição completa por dia e se comesse algo nas outras duas refeições; apesar de hoje não haver mais uma definição exata; o mesmo autor entende que se deva manter a mesma tradição enquanto nova norma não tratar do tema diferentemente). Mais modernamente, foram muito valorizadas as obras de piedade e caridade, mas, ao contrário do que muitos pensam, as penitências corporais mais rígidas (o cilício e as disciplinas) não foram de modo algum abolidas, ainda que fossem mais comuns no passado. Devem ser exercitadas, porém, sob a orientação de um diretor espiritual de bom critério, para excluir qualquer possibilidade de degeneração patológica.

Nesse sentido, talvez seja bom aclarar alguns pontos da doutrina da Mãe-Igreja sobre o assunto. Todas as 6ª feiras do ano são penitenciais (CDC, Cân. 1250), sendo obrigatória, para maiores de 14 anos sem limite máximo de idade, a abstinência de carne, se não coincidir com alguma solenidade (o Natal por exemplo). Na 4ª feira de Cinzas e na 6ª feira Santa, também é obrigação grave o jejum para maiores de 18 anos até os 59 completos. A CNBB, com a devida autorização, comutou a obrigação grave de abstinência nas 6ª feiras por alguma outra forma de penitência (exceto na 6ª feira Santa, em que a abstinência e o jejum continuam obrigatórios), principalmente atos de piedade ou obras de caridade. É de grande importância, portanto, que os fiéis que não praticam a abstinência nas 6ª feiras, procurem marcar o clima penitencial do dia da Paixão do Senhor com ajuda aos mais necessitados ou algum exercício espiritual, como a Via-Sacra ou peregrinação a um Santuário, por exemplo. A Igreja, como boa mãe que é, dá esta liberdade a seus filhos. Mais importante, porém, que um mero cumprimento farisaico do preceito, é armar-se de um verdadeiro espírito de penitência.

Tenhamos como modelos Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora que, não tendo pecados pessoais a expiar, levaram vida de perfeita penitência e também os santos, nossos amigos. É bom lembrarmos de Santa Teresinha; ela, de saúde muito precária, tinha como uma de suas pequenas penitências (que são valiosas não pelo ato em si, mas pelo espírito com que são praticadas) nunca se encostar no espaldar da cadeira. Como isso estava lhe prejudicando a saúde (ela tinha uma tendência à corcunda), num paradoxo para nós, a sua penitência passou a ser deixar de fazer penitência (História de uma alma, 211).

Daniel Maria Pêcego
 
 
VEJA NO MÊS DE MARÇO/2006:

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