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A Paixão não está acabada|MARÇO

Lentamente caminho pelo corredor da Igreja. Nas paredes, as estações da via-sacra. São quadros de traços tradicionais, figuras familiares, de cores vivas que combinam com a arquitetura do templo.

Estou diante da lª estação. Jesus é levado pelos soldados de Pilatos. Acabou de ser condenado...

Paro e fico pensando no quadro, na frase sob ele: "Jesus é condenado à morte...".

Um outro quadro vem à minha lembrança...

Há pouco, na rua, parei num sinal em frente a um posto de saúde. A fila, longa, estendia-se pelo quarteirão, dobrava a esquina.

Mulheres de olhares tristes, velhos cansados, crianças chorosas.
Entre os carros parados, o habitual grupo de pedintes, mendigos, desempregados, malabaristas, oportunistas, todos em busca de uma improvável fresta nos vidros e corações fechados. Enfim, o sinal abriu-se e segui em frente, deixando para trás e levando comigo uma imensa falta de esperança.

Do rádio do carro, outras imagens vieram num turbilhão: o noticiário da guerra, os números das mortes anônimas, a brutalidade sem nome, a dor.

Políticos engravatados, com discursos que prometem liberdade e paz, semeiam desespero e terror.

As estatísticas do desemprego, da violência. As crianças sem escola, as escolas sem merenda, os sem-casa, os sem-terra, os sem-teto, os sem-futuro...

Angustiado, parei aqui, nesta Igreja, em busca de silêncio e, quem sabe, alguma paz.

E agora, estou diante da primeira estação da via-sacra que ganha outras cores e significados. No rosto de Jesus, vejo os rostos anônimos que vislumbrei na fila, que encarei no sinal, que imaginei nas notícias que vieram pelas ondas do rádio. Penso comigo: "Ele continua sendo condenado..."

A paixão continua acontecendo. Mudaram os nomes, os rostos, mas o enredo continua quase o mesmo. Pilatos e os fariseus hoje podem chamar-se George, Clarice, Fernando, Vilma...

No quadro, contemplo a multidão que passa pela fila, assiste a TV, ouve o rádio, lê os jornais, fecha o vidro do carro nos sinais, trava as portas e segue em frente, alienada, cega, insensível, impotente. Em meio às buzinas, posso ouvir um grito que atravessou os séculos e agride, agora, o silêncio dessa igreja vazia; "Crucifica-o!".

Olho mais uma vez o quadro. Há outras figuras ali, ao redor de Jesus. Percorro cada rosto em busca de algo ou alguém. No meu coração, a pergunta brota, espontânea: quem sou eu, hoje, no drama da Paixão? Que papel represento nessa história que continua sendo contada e vivida todos os dias?

Seria o de Judas, o amigo traidor que "topou tudo por dinheiro"...?

Pedro, o líder impetuoso que, diante do risco, preferiu negar e depois chorou escondido o seu arrependimento, a sua covardia...?

Os outros amigos que fugiram, abandonando Jesus à sanha dos seus algozes...?

Os sacerdotes que, para não perderem o poder, a influência, o controle, tramaram, mandaram prender, interrogaram, torturaram, mentiram e forjaram um julgamento de cartas marcadas...?

Pilatos, o juiz que declarou a inocência do réu, mas, por fraqueza pessoal e conveniências políticas, condenou-o, entregando sua vida nas mãos da turba que, insuflada e manipulada, pedia sangue...?

Herodes, que se divertiu e, entediado, resolveu passar a outro a responsabilidade...?

Os soldados que, cumprindo ordens, fizeram o serviço sujo...?

Os curiosos que estavam lá, para ver e comentar...?

Os que acharam um absurdo, uma brutalidade, mas permaneceram calados, omissos, assustados...?

Não consegui continuar a via-sacra. Parei na la. estação. Lá fora, outra via me esperava. O imenso calvário do cotidiano onde eu precisava encontrar, de alguma forma, sinais de ressurreição em meio a tanta presença da morte.

No coração, a pergunta insistia: onde eu estava naquela sexta-feira, em todas as sextas-feiras, em todos os dias de paixão e dor?

Eduardo Machado do Jornal Opinião
 
 
VEJA NO MÊS DE MARÇO/2006:

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