"Flores sobre as correntes"
No
meio do ano passado, ao final de uma aula de cultura e cidadania em um pré
vestibular comunitário, um aluno me questionou sobre a famosa afirmação
de Karl Marx onde ele dizia que a religião é o "ópio
do povo". Esse aluno fez essa indagação baseado em uma colocação
minha de que é impossível ser Cristão sem se preocupar com
as questões ligadas à injustiça social no nosso país,
suas causas e suas conseqüências. A nossa rápida conversa foi
um momento muito especial para mim e, exatamente por isso, faço questão
de trazê-la para a reflexão da nossa coluna de Fé e Política
deste mês.
Essa frase, muito conhecida no mundo político e
principalmente na Sociologia, está associada em uma tese de Karl Marx onde
ele faz uma crítica bastante contundente à atuação
da religião, em especial da igreja Católica e do Cristianismo no
combate às desigualdades sociais. Essa sua colocação toma
por base que a Igreja, neste caso a instituição e por conseqüência
disso a Igreja "povo", funcionariam como uma espécie de instrumento
perpetuador da opressão e da exploração da elite burguesa
no final do século XVIII e início do XIX. Essa característica,
de acordo com Marx, acabaria se tornando fruto de uma visão alienadora
e pautada na resignação onde a atuação da Igreja se
restringiria a uma espécie de "Flores sobre as correntes", ou
seja, bálsamo aliviador para suportar os sofrimentos causados com a opressão
e a exploração das classes e elites dominantes daquele século.
Era como se Deus fosse apenas senhor dos céus enquanto as elites da época
dominavam e exploravam a terra.
Pode até ser que a Alemanha do início
do século XIX vivesse uma realidade onde as idéias de Marx sobre
a atuação da Igreja fossem verdadeiras. Entretanto, o grande erro
do pensamento Marxista é achar que esta idéia pode ser generalizada
para todas as épocas e sociedades. A Igreja pós-conciliar é
um excelente exemplo para contradizer isso. A ação do Papa João
XXIII, iluminado pelo Espírito Santo ao convocar o Concílio Vaticano
II, resgatou a visão e a atuação da Igreja para um mundo
socialmente doente e excludente e não apenas para o céu. Jesus Cristo
veio para os pecadores, para os homens do mundo e para resgatar e libertar o seu
povo da opressão. Cabe aqui recordar as diversas passagens bíblicas
que fundamentam a visão e a atitude de João XXIII, como o capítulo
25 do Evangelho de São Mateus, quando perguntam a Jesus quem se salvará
e ele responde que não serão os ricos, os afortunados, os Sacerdotes
e Doutores da lei que compunham as elites do seu tempo, mas sim aqueles que amam
verdadeiramente aos seus irmãos menores. Aqueles que vêem o rosto
de Deus no rosto do irmão excluído são os que ganharão
o "Reino dos Céus". Aliás, não é apenas
o Concílio Vaticano II que busca esse resgate, mas todos os documentos
que compõem a Doutrina Social da Igreja como as encíclicas Rerum
novarum (Leão XIII), Populorum progressio (Paulo VI), Centesimus annus
(João Paulo II) entre outras.
A grande reflexão que fica
para nós é que são as elites políticas que tentam
fazer, inclusive nos dias atuais, da religião o ópio do povo, pregando,
conforme dissemos anteriormente, um deus apenas senhor dos céus enquanto
ela se apodera da terra através da opressão e da exploração
neo-liberal que causa tanta fome e miséria, principalmente na África,
na Ásia e na América Latina. O Deus da nossa fé é
aquele que se encarna em Jesus Cristo e assume a libertação dos
oprimidos. Cabe a nós, cristãos, provar com a nossa atitude que
a afirmação de Marx, talvez válida para a Alemanha do seu
tempo, não é verdadeira para o Cristão de hoje. Somente assim,
através da nossa atitude reveladora da Palavra de Salvação
do nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, colocando em prática o seu
mandamento do amor, é que conseguiremos definitivamente trazer o Reino
de Justiça e Paz prometido por Ele para nós.
Um forte abraço
a todos e a Paz de Cristo!
Robson Campos Leite Email
: feepolitica@terra.com.br
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