Deus é amor, dirá a primeira carta de João, texto
mais belo do Novo Testamento
Por que Deus nos amou primeiro,
podemos então amar gratuita e oblativamente, pois sempre estará
disponível para nós a fonte divina jorrando incansavelmente Seu
infinito amor. "O mandamento do amor - coração do cristianismo
- só se torna possível porque não é mera exigência:
o amor pode ser um imperativo porque antes nos é dado.
Para
quem esperava uma encíclica disciplinar ou um texto que aprofundasse o
conteúdo de algum dogma, a primeira encíclica do papa Bento XVI
surpreende. Devo dizer que a mim, como católica, surpreende agradavelmente.
Trata-se de um texto bem escrito e profundo, que deixa patente o grande teólogo
que continua sendo Joseph Ratzinger, mesmo como papa. O pastor supremo que se
dirige à Igreja universal é suportado em sua reflexão e discurso
de maneira consistente e feliz pelo sólido teólogo que sempre foi
o atual papa. O tema da encíclica não pode ser mais nuclear e fundamental.
Trata-se do coração do cristianismo. Mais: trata-se da grande originalidade
que o cristianismo trouxe para o mundo religioso e que encontrou, para explicitar
quem é o Deus em que crê, a experiência humana mais importante
e constitutíva dos seres humanos: o amor. Deus é amor, dirá
a primeira Carta de João, texto mais belo do Novo Testamento. E é
essa definição que inspirará o pontífice na carta
que entrega aos fiéis do mundo inteiro.
A motivação
de Bento XVI para escrever sua primeira encíclica com este visceral tema
é, parece-nos extremamente oportuna. Como diz o próprio texto
em sua introdução, "dado que Deus foi o primeiro a amar-nos
(cf. l Jo 4,10), agora o amor já não é apenas um 'mandamento',
mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro. Num
mundo em que ao nome de Deus se associa às vezes a vingança, ou
mesmo o dever do ódio e da violência, esta é uma mensagem
de grande atualidade e de significado muito concreto. Por isso, afirma: "na
minha primeira encíclica, desejo falar do amor com que Deus nos cumula
e que deve ser comunicado aos outros por nós".
Na primeira
parte de sua encíclica, Bento XVI se propõe esclarecer o campo semântico
da palavra "amor", assim como expor sua trajetória no mundo judaico
e greco-romano, a fim de delimitar bem qual a compreensão cristã
na Bíblia e na tradição da Igreja. Ao fundo, evidentemente,
encontra-se a preocupação do papa desde o tempo em que ainda era
cardeal, à frente do Santo Ofício, sobre os rumos do mundo atual,
tomado pela "ditadura do relativismo".
Ao longo de toda esta
primeira parte procura conceituar com precisão a diferença e a interface
entre "eros" e "ágape". Trata-se de tema que tem sido
objeto de alentados estudos de filosofia e teologia em todos os tempos. Entretanto,
o tratamento dado por Bento XVI é reconhecidamente preciso e adequado,
trazendo à tona toda a cultura filosófica, filológica e teológica
daquele que escreve. A antropologia que aparece ao fundo da reflexão é
integrada, não separando espírito de carne e sobretudo não
desprezando este em benefício daquele.
De certa maneira, portanto,
o papa resgata toda a positividade do eros, reconhecendo a inelidibilidade de
sua presença como componente constitutivo da dinâmica do amor humano.
Porém acrescenta que "embora o eros seja inicialmente sobretudo ambicioso,
ascendente - fascinação pela grande promessa de felicidade - depois,
à medida que se aproxima do outro, fará cada vez menos perguntas
sobre si próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á
cada vez mais dele, doar-se-á e desejará existir para o outro".
Assim se insere nele o momento da ágape; caso contrário, o eros
decai e perde mesmo a sua própria natureza.
A primeira parte da
encíclica destina-se, portanto, a derrubar alguns preconceitos que viam
o cristianismo como destruidor do eros. Situar a correta perspectiva na concepção
da ágape como amor que sai de si na entrega e na doação para
fazer o outro feliz. Numa época em que as relações amorosas
caminham sobretudo na direção da busca da própria felicidade
antes de qualquer outra coisa, a fé cristã proclama que amar é
justamente sair de si e buscar a felicidade do OUTRO. Só assim existe amor
verdadeiro e felicidade possível.
Entretanto, continua o papa, o
ser humano não poderia dar-se, sair de si, sacrificar-se abnegadameme no
exercício de amar se não recebesse, também, amor. O amor
só pode acontecer em sua forma agápica se existe uma fonte de onde
bebe incessantemente. Essa fonte é Deus. Por que Deus nos amou primeiro,
podemos então amar gratuita e oblativamente, pois sempre estará
disponível para nós a fonte divina jorrando incansavelmente Seu
infinito amor. "O mandamento do amor - coração do cristianismo
- só se torna possível porque não é mera exigência:
o amor pode ser um imperativo porque antes nos é dado." Portanto,
só ele é digno de fé, porque é o próprio conteúdo
da fé.
Maria Clara L. Bingemer, Teóloga
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