Carta aos Gálatas (3)Doutrina
O
tema principal é a doutrina da liberdade dos cristãos relativamente
ao cumprimento das complexas prescrições da Lei mosaica e dos seus
complementos acrescentados pela tradição dos Escribas. Tratava-se
da controvérsia com um setor de cristãos procedentes do judaísmo,
que pensavam que era necessária tal observância para a salvação,
e que fazia pressão sobre os fiéis da Galácia. Paulo expõe
com absoluta firmeza a liberdade cristã a esse respeito, doutrina, por
outro lado, já estabelecida a instâncias suas pelo Concilio Apostólico
de Jerusalém uns cinco anos antes.
A controvérsia com os
judaizantes oferece ocasião ao Apóstolo para explicar o valor redentor
da Paixão de Cristo, em cuja obra salvífica nos inserimos, nós
os cristãos, pela fé e pelo Batismo, com absoluta independência
da Antiga Lei, já caducada na nova etapa da Salvação.
Nos
capítulos 3 e 4 é abordado, pela primeira vez, o tema central da
luta contra os judaizantes: a justificação pela fé em Jesus
Cristo e não pelas obras da Lei mosaica, Paulo enuncia esta verdade reconduzindo-a
às promessas divinas feitas a Abraão, recordando que o Patriarca
foi justificado pela sua fé e citando a maldição que a Lei
pronuncia contra os transgressores. A justificação apóia-se
nas promessas feitas a Abraão, não na Lei promulgada 430 anos depois:
a Lei só foi dada para que fosse o "pedagogo" que preparasse
a recepção da Nova Lei de liberdade pregada por Cristo (3,15-29).
Para
esclarecer a natureza da condição do cristão, o Apóstolo
recorre a duas comparações: uma tirada da vida ordinária,
outra da Sagrada Escritura. Os cristãos são filhos de Deus: antes
de Cristo, eram como filhos pequenos, que necessitam de estar sob tutores, agora
são filhos livres e em condição de herdar e podem tratar
Deus como um pai (4,1-11). Por outra parte esta oposição entre escravidão
e liberdade recorda os dois filhos de Abraão: Ismael, filho de Agar, a
escrava, e Isaac, filho de Sara, a livre. Ismael representa o Antigo Testamento,
Isaac, o Novo (4,21-31). Entre as duas comparações Paulo abre o
seu coração, desafogando-se em sentimentos paternais pelos Gálatas
(4,12-20)
Terminada a exposição da doutrina, o Apóstolo
tira as conseqüências que derivam dela para a vida. É a parte
moral da carta (5,1-6,10). Começa por recordar que a Lei de Cristo é
lei de liberdade, que se opõe à Lei da circuncisão, que leva
consigo uma série de obrigações externas (5,1-12). Desenvolve
logo um tema fundamental: a oposição entre as obras que a Nova Lei
pede, que são as obras do Espírito, e as obras que produz a carne
e o pecado (5,13-26). Termina por último comentando que o preceito fundamental
da Lei de Cristo é a caridade, cuja natureza ilustra mediante os efeitos
e as aplicações concretas no terreno da fraternidade (6,1-10).
Os
eixos doutrinários da carta são lei ou fé, lei ou Espírito,
lei ou promessa, liberdade e filiação, instinto ou Espírito.
Esses eixos se entrecruzam sem confundir-se. Atendendo à oposição,
podemos assinalar: à lei não se opõe libertinagem, e sim
Espírito; não é a lei e sim o Espírito que vence o
instinto; a promessa funda a lei, a lei não anula a promessa; a lei escraviza,
a fé emancipa.
Atendendo ao processo, podemos resumir: para obter
no principio o dom da justiça, não valem as obras (cumprimento)
da lei, vale só a fé em Jesus; uma vez obtida a justiça e
com ela a filiação de Deus e o dom do Espírito, o cristão
deve ordenar sua conduta para alcançar a salvação plena.
Em forma mais breve: as boas obras não são requisito para a justiça
inicial, as boas obras são efeito do dinamismo do Espírito.
A
graça é o conceito chave desta carta. Deus não teve nenhuma
obrigação para conosco, e não lhe podemos pagar aquilo que
Ele fez em Jesus Cristo. Só podemos observar sua palavra, que irrompe em
nossa vida como irrompeu na de Paulo. E esta palavra é a palavra da caridade,
que somos chamados a praticar não por obrigação, mas livremente,
como herdeiros da promessa de Deus, que agora passou para todos os povos.
São
outros temas da carta:
O único evangelho: para quem entendeu o que
Jesus veio fazer, Ele é um marco no caminho para trás do qual não
se pode retroceder. Se Ele superou certas coisas (como a exclusividade da salvação
pela Lei de Moisés), nenhuma outra mensagem pode invalidar isso. Também
hoje a loucura da Cruz de Cristo é o marco do único evangelho: toda
a salvação passa por aí.
Os frutos do Espírito:
em vez de um código moral extrínseco, a pratica cristã é
o fruto da inspiração de Deus que se recebe quando se vive a fé
em Cristo; quem realmente crê em Jesus e vive de seu Espírito, abrindo-se
na oração e comprometendo-se na prática, viverá como
descreve 5,22-23 "Mas o fruto do Espírito é amor, alegria,
paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio.
Contra estas coisas não existe lei".
Apesar do tom polêmico,
Gálatas é um documento de alta mística. O Apóstolo
elabora aí uma preciosa "Teologia da Cruz" (1,4; 2,19s; 3,13s;
6,14), acompanhada da profissão de filiação divina: 3,26-28;
4,4-7. Textos Seletos
1,11-24 vocação de Paulo 1,16-
A missão de Paulo aos pagãos 2,1-10- Reconhecimento da missão
de Paulo pelos outros apóstolos: Tiago, Pedro e João. 2,19-21-
sacrifício de Jesus. 3,6-14 Exemplo de Abraão. 3,24- A lei
se tornou nosso pedagogo até Cristo 4,4-6- Deus envia seu Filho nascido
de mulher e aos nossos corações o Espírito do seu Filho. 5,16-
Guiados pelo Espírito 5,19.26- Os frutos da carne e os frutos do Espírito. Que
ao lermos esses versículos da Carta aos Gálatas: "Deus não
faz acepção de pessoas" (2,6), "Já não sou
que vivo é Cristo que vive em mim" (2,20), "Colocai-vos a serviço
uns dos outros" (5,13) e "Não desanimemos na pratica do bem,
pois, se não desfalecermos, a seu tempo colheremos"(6,9) possamos
mudar nosso modo de agir, não só no Natal como no decorrer de 2006.
Jane do Térsio
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