Com a chegada da noite, entramos no coração de nossas
celebrações da semana santa. É a hora da grande
vigília, a vigília pascal, "a mãe de todas
as vigílias" (St. Agostinho). A vigília pascal
é o ponto alto de todo o ano litúrgico, a celebração
mais importante na vida do cristão. Nela celebramos o mistério
da redenção humana.
A celebração da Páscoa começava com uma
vigília bastante extensa. "Permaneçam vigilantes
toda a noite com orações, súplicas, leitura dos
profetas, do Evangelho e dos salmos, com temor e tremor, em contínua
prece até o amanhecer... (Didascalia, 21)
Ao longo do tempo a vigília, especialmente no Ocidente, desenvolveu-se
três feições novas: o batismo dos catecúmenos,
a iluminação e bênção do círio
pascal e a bênção do fogo novo. Por ocasião
da revisão dos ritos romanos da Semana Santa (1955) incluíram
a renovação das promessas do batismo.
A bênção da luz vem de origem da bênção
judaica da lâmpada na véspera do Sábado, retomada
pelos cristãos.
A bênção do círio pascal era popular no
Ocidente desde os sécs. IV e V. Aos poucos o círio único
foi recebendo maior importância; certos cantos de louvor ao
círio, laus cerei, já apareciam no final do séc.
IV, sendo o atual Exultet, a sua versão galicana; deve-se inscrever
no círio uma cruz, com cinco grãos de incenso para representar
as cinco chagas de Cristo, segundo o Sacramentário Gelasiano,
um documento dos sécs. VII-VIII.
A bênção do fogo novo e a procissão da
luz distinguiam-se originalmente da bênção do
círio pascal, segundo afirmações de Egéria,
ao mencionar a procissão que carregava o fogo a partir do Santo
Sepulcro até a Igreja, no começo da vigília semanal
do Sábado ( 24,4).
A bênção cerimonial do fogo novo na Vigília
da Páscoa é de origem irlandesa. No séc. VIII,
entrou na Alemanha. No séc. XII encontramos atestado esse rito,
com predominância folclórico-religiosa nos países
do norte.
Estrutura teológica da vigília: memória - presença
- expectativa
A memória - presença do mistério de Cristo, que
vence a morte com a própria ressurreição, torna-se,
conforme a exortação evangélica, expectativa.
(cf. Lc 12,35-36). Este retorno do esposo está previsto para
acontecer no coração da noite: "á meia-noite"
(Mt 25,6)
O conteúdo litúrgico e teológico da Páscoa
é de caráter comemorativo: "nela a comunidade recorda
e revive o evento salvífico da morte-ressurreição
de Cristo e o revive em clima de expectativa da páscoa eterna."
Cristo é a nossa Páscoa.( cf. 1Cor 5,7)
A vigília pascal é festa batismal. Pelo batismo morremos
e ressuscitamos como Cristo. A Igreja dá à luz novos
filhos pela fé e pelo Batismo e, após a penitência
quaresmal, renova a própria Aliança batismal.
Etapas da vigília
O Missal de Paulo VI desenvolve a celebração da Vigília
Pascal inteiramente num clima de alegria, que desemboca na liturgia
eucarística. Os ritos, embora separados em várias partes,
formam um todo único em torno do núcleo essencial da
proclamação da palavra de Deus e da celebração
dos sacramentos do batismo e da eucaristia.
A saber, os quatro momentos da liturgia da Vigília pascal:
1. Celebração do fogo novo e da luz, é a primeira
parte da vigília que celebra a luz do mundo que é Jesus
na glória de sua ressurreição (cf Jo 1,9; 9,12;12,35-36).
Também os cristãos, que participam do seu mistério,
por nossa vez, somos "luz no Senhor" (Ef 5,8). Esse rito
deve criar um clima de júbilo que invada a celebração
inteira, fixando a atenção no significado pascal da
luz que surge nas trevas. E o sinal principal, é o círio
da páscoa. Benze-se o fogo fora da Igreja e se acende o círio
pascal que evoca a luz de Jesus que ressuscita em sua glória.
Em seguida dá-se a procissão até ao altar, é
evidente o sentido pascal desta procissão: somos o novo povo
de Deus nascido da páscoa; peregrinos, seguimos Jesus ressuscitado
através do deserto da vida presente até a pátria
definitiva. A proclamação da páscoa recebeu o
novo nome de "pregão pascal", é um retorno
da Antiguidade. O pregão pascal anuncia tematicamente a mensagem
da ressurreição e celebra as maravilhas operadas por
Deus nesta noite santa.
2. Celebração da Palavra, que torna presente a palavra
criadora de Deus na criação. São proclamadas
9 leituras; as 7 primeiras são tomadas do Antigo Testamento,
que enunciam figurativamente os mistérios pascais: a criação
do mundo e do homem : Gn 1,1-2,2 ou 1,1.26-31a; o sacrifício
de Abraão: Gn 22,1-18; ou 22,1-2.9ª10-13.15-18; a passagem
do Mar Vermelho: Êx 14,15-15,1; um texto escatológico
do profeta Isaias: a nova Jerusalém : Is 54,5-14; as três
leituras seguintes se dirigem mais diretamente à celebração
do batismo: a salvação oferecida a todos gratuitamente:
Is 55,1-11; a fonte da sabedoria: Bar 3,9-15.31; 4,4. e, um coração
novo e um espírito novo: Ez 36.16-28. Do Novo Testamento temos
duas leituras, a epístola de Paulo que também é
batismal: Rm 6,3-11, e o evangelho do descobrimento do túmulo
vazio e o anúncio do anjo: Jesus Ressuscitou!: Mt 28, 1-10;
Mc 16,1-17; Lc 24,1-12. Essas leituras são lidas segundo um
dos anos do ciclo trienal. Um ponto alto da celebração
da palavra é o canto solene do Aleluia com o salmo 117. O que
é que significa Aleluia? Louvai a Deus... É uma aclamação
que caracteriza o tempo pascal. "De fato, chegaram os dias em
que devemos cantar o Aleluia". (Sto. Agostinho)
3. Celebração da água ( batismo e renovação
das promessas batismais): Não existe testemunho de rito batismal
na noite da páscoa que nos leve além do séc.
III. A atenção da assembléia desloca-se para
a fonte batismal como o lugar onde se faz nossa a páscoa de
Jesus no sinal da água e na profissão de fé.
A bênção da fonte significa que a graça
do batismo não sai da água como elemento material, mas
do Espírito Santo que a santifica; essa idéia se expressa
mediante o sinal da imersão do círio na fonte batismal.
4. Celebração do pão e do vinho (Liturgia eucarística):
o ponto alto da celebração é a Eucaristia, ação
de graças por excelência, celebração da
nova Páscoa de Cristo participada pela Igreja. A vida que nasce
no Batismo e é animada pelo Espírito alimenta-se na
mesa do Cordeiro pascal. "Este é o momento em que nasceu
a verdadeira eucaristia: a páscoa! Por isso o mistério
da noite pascal culmina na eucaristia, que já não oferece
Jesus sozinho, mas em companhia de sua ekklesia. Ela entra com ele
em sua eucaristia, e essa eucaristia inaugura a grande festa de pentecostes,
dos cinqüenta dias nos quais a ekklesia libertada dá graças
ininterruptas ao Pai com seu Filho". (Odo Casel)
O dia da ressurreição: o dia de Cristo, o Senhor
A liturgia desse dia de páscoa celebra o acontecimento pascal
como "dia de Cristo, o Senhor". A Páscoa é
a festa da vida; da vida de Cristo e da vida nova dos cristãos.
Na mensagem da Páscoa podemos realçar três aspectos:
a) O sepulcro vazio. Maria Madalena é uma das três mulheres
que estiveram junto à cruz. Esperou todo o Sábado e
a noite do dia seguinte, mas se levanta impaciente de madrugada e
vai ao sepulcro e vê que a pedra fora retirada do sepulcro (
Jo 20,1-9). O tempo escolhido por ela é uma resposta ao Sl
63,2; 119,147-148, "por ti madrugo"; "antecipo-me à
aurora"
b) Os gestos de amor. Jesus dá-se a conhecer ressuscitado sobretudo
lá onde se realizam gestos concretos de amor e de serviço.
As mulheres que vão ao sepulcro de Jesus para embalsamar o
cadáver (Mc 16,1); Maria Madalena e a outra Maria, ao raiar
do sol do primeiro dia, vão ver o sepulcro para fazerem uma
visita de afeto ou de inspeção (cf. Mt 28,1); os dois
discípulos que ao saberem da notícia do túmulo
vazio, correm quase numa competição em direção
ao túmulo. Impulsionado pelo amor, um é mais veloz ("correrei
pelo caminho de teus mandamentos quando me dilatares o coração",
Sl 119,32) e é o primeiro a crer. O amor é que faz reconhecer
a Jesus Cristo no mistério pascal. Os dois discípulos
de Emaús ( Lc 24,13-35), onde acontece no caminho de Emaús
uma aula de exegese pascal à luz da ressurreição,
feita por Jesus em pessoa. E o convite para que o "forasteiro"
fique com eles , nesta acolhida dá-se a descoberta e compreensão
do mistério ao partilhar Jesus o seu pão de vida.
c) O testemunho do Cristo ressuscitado. Maria Madalena torna-se a
primeira mensageira do sepulcro vazio e do Cristo ressuscitado, tendo
um encontro a sós com o Senhor (cf. Jo 20,11-18). Os discípulos
de Emaús voltam a Jerusalém, anunciando que Cristo ressuscitou.
Os discípulos, Pedro e João, encontraram o sepulcro
vazio e tornaram-se testemunhas do Cristo ressuscitado. Os discípulos
reunidos na tarde do primeiro dia da semana, o dia da nova páscoa,
com as portas bem fechadas, e Jesus ressuscitado se apresenta no meio
de todos.
Por sua ressurreição e vitória total, Jesus comunica
ao mundo o seu Espírito de vida que muda o coração
do homem. Faz-se Páscoa. Surge a vida, onde se antecipa a aurora,
onde as pedras são retiras dos sepulcros, onde se vive o amor
no serviço aos outros, onde a paz é cumprimento de alegria.
Estes são os sinais de que Jesus Cristo continua ressuscitado
hoje.
O Domingo da ressurreição inaugura um período
de cinqüenta dias, chamado de tempo pascal. Todos os dias deste
cinqüentenário, no dizer de Tertuliano, devem ser celebrados
"numa grande alegria".
Ressuscitei, ó Pai, e sempre estou contigo;
pousaste sobre mim a tua mão,
tua sabedoria é admirável, aleluia!
(Antífona da entrada do Domingo da Páscoa)
Pe. José Luiz Majella Delgado - CSsR |