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Cartas de Paulo (6)

II - A Salvação em Cristo

Paulo pergunta em Rm 7,24 "Quem me libertará deste corpo de morte? E responde no versículo 25 "graças sejam dadas a Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor". "Deus enviando Seu Filho em carne semelhante à do pecado e para a expiação do pecado, condenou o pecado na carne". (Rm 8,3). Isto constitui a chave para compreender a obra da Redenção operada pelo Cristo: que Cristo é o Salvador do homem. Paulo vai desenvolver esses ensina-mentos acerca de Cristo, Deus e Homem, que torna possível a Redenção da humanidade. Com este horizonte salvífico revelará a altíssima missão da Igreja e a dignidade do homem redimido, chamado a ser filho de Deus por adoção, a participar da própria santidade de Deus em Cristo Jesus.

1- O "mistério" salvífico = o mistério salvífico é um plano divino de salvação em favor de todos os homens, sem distinção de povos nem raças, concebido por Deus desde a eternidade, só agora (no tempo apostólico) revelado, ainda que preanunciado no Antigo Testamento, e cuja plenitude de realização, ainda que já começada neste século, só será alcançada no vindouro.
O plano divino de salvação que Paulo prega é uma sabedoria de Deus, misteriosa.( 1 Cor 2,7) Não se trata de sabedoria enigmática, mas de sabedoria cujo objeto é o mistério, o sagrado desígnio de salvação realizado em Cristo. A relação entre o mistério e a sabedoria, aparecerá sobretudo em Colossenses e Efésios. Em Colossenses a concepção do mistério associa a Igreja a Cristo, que é o Seu Corpo e o instrumento para realizar a salvação. A revelação do mistério Paulino termina na carta aos Efésios, na qual adquire o seu último desenvolvimento conceptual. A doutrina paulina sobre a salvação, sobre Cristo e sobre a Igreja encontra em Efésios a mais alta explicação que encontramos nas Epístolas.

2 - A divindade de Jesus Cristo = Quando Paulo fala de Jesus costuma utilizar os nomes de "Senhor" ou de "Cristo". Em todas as Epístolas paulinas mostra-se com evidência que o Jesus que Paulo prega é o Filho de Deus, afirmação esta que lhe foi revelada no caminho de Damasco, no dia em que com uma luz ofuscante Deus lhe fez ver a sua vocação. Desde esse momento começou a ensinar que Jesus Cristo que ressuscitou dentre os mortos e nos redimiu é o Filho de Deus.
Em Colossenses 1,15-17 e 2,10 Jesus é Deus que existia antes de todos os seres,"primogênito de toda a criação, porque nEle foram criadas todas as coisas nos céus e na terra...Tudo foi criado por Ele e para Ele; e existe com anterioridade a tudo e tudo tem nEle a sua consistência", pois "nEle reside a plenitude da divindade corporalmente".

3- A Encarnação do Filho = o mistério salvífico é pura misericórdia de Deus e puro amor. ( Rm 15,8-9;11,32;5,8). Não é possível encontrar outras razões para a Encarnação do Filho único do Pai celestial. A Encarnação mostra que a salvação do homem não é feita por Deus como um ser benevolente mas estranho e distante, senão do modo mais íntimo ao homem: a partir do homem Jesus, que sem deixar de ser Deus assumiu realmente a existência humana, com todas as suas limitações exceto o pecado, aniquilando-Se a Si mesmo (Fl 2,7). Pela Encarnação, o Filho assumiu o nosso estado de não redimidos, de pecado (2 Cor 5,21), constituindo-Se livremente em vítima do pecado, venceu o pecado na própria carne de Cristo (Rm 8,3; Cl 1,22), revestido da natureza de escravo, humilhado e obediente até à morte (Fl 2,7-8), "nascido de mulher, nascido sujeito à Lei" (Gl 4,4). Deste modo, pela Encarnação, todos os elementos que escravizam o homem o pecado, a carne, a morte e a Lei puderam ser vencidos por Cristo.

4 - A Teologia da Morte de Cristo = São muitos os textos em que Paulo se refere ao poder e ao valor redentor da Morte de Cristo. Eis alguns exemplos: Cristo sofreu o castigo que nós merecíamos pelos nossos pecados: "o qual foi entregue pelas nossas faltas e ressuscitado para a nossa justificação" (Rm 4,25); " Quem não poupou o seu próprio Filho e o entregou por todos nós"(Rm 8,32). Com o Seu sangue derramado fomos redimidos (1Cor 6,20; 7,32; Rm 3,24; Cl 1,14). A Sua morte é a maior demonstração do amor de Deus pelo homem ( Rm 5,8); foi uma oferenda grata a Deus (Gl 2,20; 1 Cor 11,25; Ef 5,2.26); apaziguou a justa ira de Deus. (Rm 3,25).
Quando Cristo morre na cruz, todos morremos com Ele. "Cristo morreu por todos, a fim de que os vivos já não vivam para si mesmos, senão para Aquele que morreu e ressuscitou por eles"(2Cor 5,15) A morte de Cristo constituiu a reparação perfeita do pecado; mas, como conseqüência, é a introdução numa vida nova, na qual, precisamente pela reparação do pecado, mudam radicalmente as relações entre Deus e os homens. Deste modo se realiza o trânsito para a contemplação do valor redentor da Ressurreição de Cristo, que "foi entregue por causa das nossas faltas e ressuscitado por causa da nossa justificação" (Rm 4,25).

5- Teologia da Ressurreição de Cristo = Paulo desenvolve a prova da realidade histórica da Ressurreição de Jesus no capítulo 15 da Primeira carta aos Coríntios. E, além disso, inclui aí que a Ressurreição de Cristo é a prova da nossa futura ressurreição, também gloriosa.
Se pelo rito da imersão na água do Batismo se significa e se realiza a nossa morte com Cristo para o pecado, pelo rito da emersão da água do Batismo significa-se e realiza-se o nascimento da nova criatura para a vida da graça e esperança da futura ressurreição gloriosa.(Rm 6,5-11).
Com a Ressurreição de Cristo começou a glorificação e exaltação da Sua Humanidade sobre todos os seres criados: "Pois foi com este fim que Cristo morreu e reviveu: para ser Senhor dos mortos e dos vivos" (Rm 14,9).
Cristo, já desde a Sua Encarnação, mas ainda mais intensamente pelos méritos da Sua Paixão e Morte, assume em si e é o representante e cabeça autêntico de todos os homens: este é o princípio da solidariedade de Cristo com a humanidade.
Enquanto Cristo é a cabeça dos que crêem nEle, já ressuscitamos de alguma maneira- em esperança- e fomos glorificados com Ele, quando Ele ressuscitou. Como cabeça da Igreja, Cristo influi em todos os Seus membros e vivifica-os. Este ensinamento paulino, começado em Romanos, será desenvolvido em Colossenses e, sobretudo, em Efésios.
Além disso, Cristo glorificado vive nos cristãos por meio do Seu Espírito. Esta vida por meio do Espírito só se realizou depois da Ressurreição, depois da qual envia o Seu Espírito aos que aderem a Ele pela fé e pelo Batismo: "Vós, porém, não viveis na carne, mas no espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não lhe pertence. Se Cristo, porém, Se encontra em vós, embora o corpo esteja morto por cau-sa do pecado, o espírito é vida por causa da justiça" (Rm 8,9-10).

(Continua no próximo número)
Jane do Térsio

 
 
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