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O PECADO (III)

O que agrava a condição do fiel é o fato de que, depois do Batismo, recai no pecado, embora esteja na condição de superar as tentações. A falta de bom exemplo e a instrução defeituosa na religião impedem o pleno desenvolvimento das suas convicções e a utilização plena dos sacramentos como meio de santificação. Em Cristo Jesus, contudo, o fiel ainda tem esperança de reconciliação (1Jo 2,1).

O pecado, que sempre tem como raiz a ambição desmedida do homem de ser igual a Deus e que por isso é um ato de rebeldia ao Criador, nos lança, a partir da insensatez, num redemoinho de concupiscências. É rompida a relação harmoniosa entre a criatura e o Criador numa insensatez desmedida de criar atalhos para se tornar igual a Deus. A divinização é o que, de fato, o próprio Deus quer para o homem, mas segundo o processo conatural de dependência e obediência. O homem não pensa que, quando rompe com Deus, Deus poderia romper com ele. E é o que, de fato, dar-se-á no julgamento definitivo (Ap 18,20). A rebeldia ao Criador é tão grave que desencadeia tremendos castigos cujas conseqüências presenciamos: sofrimentos, processos degenerativos ao longo das gerações, mortes causadas pela cupidez do ouro, concupiscência da carne, ambição da vida (1Jo 2,16). Mas é, sobretudo, no homem, em si, que se processa uma degeneração moral que o desfigura totalmente.

Pela iluminação da Revelação, através da ampla descrição da ação criadora para preparar para o homem o reino no qual habitar, que contrasta com a leviandade do homem, entendemos a insensatez da soberba que o leva a pensar de ser Deus, ao ponto de rebelar-se contra ele. De fato, a extrema liberalidade divina dotou o homem de tal forma que o fez "pouco menos do que um deus" (Sl 8,6). Em lugar de viver plenamente agradecido ao seu Criador, o homem é vítima da visão mais equivocada.

Iniciamos a reflexão sobre o pecado afirmando que a análise filosófica é insuficiente para detectar sua origem e sua natureza, e que somente Deus, por revelação, nos esclarece sobre o mesmo. Contudo, depois de ter analisado o que a Revelação nos diz do pecado, achamos que é possível um aprofundamento, quanto ao entendimento da sua natureza, se somarmos as contribuições que, seja a filosofia como a doutrina revelada nos dão.

A filosofia, de fato, nesse caso, é de grande valia pelo fato de que descobriu a maneira pela qual o homem chega ao conhecimento. O homem parte da experiência sensorial para formar as idéias. Pela ligação inteligente das mesmas entre si formula as hipóteses, que testadas em cima da realidade física, com a qual interage, chega a um conhecimento científico da realidade. Quando confrontamos esta descoberta filosófica com as reflexões didático-sapienciais de Gn 2-3, que tratam do pecado, Gn 2 definindo as leis de comportamento do homem, Gn 3 narrando a desobediência, notamos que o homem acaba errando porque pensa de ter chegado ao conhecimento do que é bom para ele e do que é mal, pelo fato que, olhando à árvore do bem e do mal vê que ela é bela e que os seus frutos são bons para serem consumidos. Isto significa que o homem parou, na sua reflexão, no primeiro estágio do conhecimento e tirou conclusões em cima da imagem que a sua interação com a árvore produziu, e criou para si ídolos em lugar de proceder na análise e chegar ao serviço do Criador, prestando obediência a Ele, abstendo-se do fruto da árvore. Com isto resulta que o homem peca porque não aplica, no conhecimento de Deus, o seu coração e a sua mente com todas as suas forças. É facilmente induzido ao erro pelo aliciamento das aparências, que são os primeiros objetos de contato, no processo de conhecimento, quando interage com o mundo. Constatamos que isto se repete seja quando se trata de luxúria, com quando se trata de avareza ou gula e, praticamente, em todas as situações de pecado. Se o homem não se deixasse levar pelos instintos, implementando de imediato o que eles sugerem, chegaria a tirar as conclusões da forma correta da utilização dos instintos à luz daquilo que realmente as leis do Criador indicam e, dessa forma, promoveria o seu verdadeiro crescimento.

Essa reflexão, por sua vez aponta para a contemplação das obras do Criador como antídoto ao pecado. Por ela o homem pode descobrir a Beleza, a Sabedoria, o Poder e a Bondade de Deus, que o motivariam ao culto de adoração, evitando o pernicioso equívoco de acabar servindo às criaturas em lugar de servir ao Criador.

Perguntas para uma reflexão:
1a) Qual é a responsabilidade do batizado diante do seu Criador?
2a) De que forma a filosofia nos ajuda a definir a natureza do pecado?
3a) Como evitar o pecado?

Pe. Fernando Capra - CRSP

 
 
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