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Pelo Dia Internacional da Mulher - 08/mar | MARÇO


Duas mulheres, duas crianças: um encontro

Talvez poucas épocas na história da humanidade tenham sido tão controvertidas quanto a nossa, no que diz respeito à identidade e situação da mulher no mundo e na sociedade. Vivemos, por um lado, a libertação crescente da mulher; ascendendo ao mercado de trabalho, ao espaço público e até mesmo a cargos de chefia e governo. Por outro lado, porém, a violência contra a mulher cresce em números assustadores; as mulheres de hoje encontram-se divididas e exigidas, além de seus limites, entre a casa e o trabalho; os meios de comunicação oprimem a mulher com imposições sobre seu corpo e performance estética, ao mesmo tempo em que a amedrontam sobre o que é sua riqueza e mistério mais belo e maior: a maternidade. Enquanto encontramos nas classes média e alta moças que adiam incessantemente a maternidade, a fim de consolidar primeiramente a carreira, o patrimônio, e manter a liberdade da troca de parceiros e a independência de viajar e fazer o que querem, onde e quando querem, nos meios populares a idade de engravidar recua para mais cedo. Meninas iniciadas pelos próprios parentes (pais, irmãos etc.), devido à pobreza e promiscuidade onde vivem, ficam grávidas aos 15, 14,13,12 anos.

Se, no primeiro caso, o adiamento do filho muitas vezes é uma recusa, consumada quase sempre com anticoncepcionais, mas não raramente como recurso do aborto; do outro, o aborto se apresenta muitas vezes como solução cruel, fruto amargo de uma sociedade abortiva, porém ao mesmo tempo única solução ao alcance da mão. O terror do ventre prenhe, do aleitamento, das gravidez que se sucedem, em todo caso, é uma marca para a mulher do nosso tempo. E é isso que a faz muitas vezes infeliz, frustrada, pois malogra sua vocação e identidade, recusando o dom maior que lhe foi dado pelo Criador e aquilo para que foi feita.

O encontro de Maria e Isabel nos apresenta a figura de duas mulheres que podem consolar a todas nós, mulheres de hoje: tanto jovens como velhas. A jovem mulher Maria, recém fecundada pelo Espírito Santo e já mãe do Verbo Encarnado, se defronta com a velha e estéril Isabel, que já não esperava que de seu ventre murcho pudessem brotar novas crias e novos frutos. Lucas, o evangelista que nos narra o episódio, põe frente a frente as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação em suas vidas, e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria.

A criança se agitando no ventre de Isabel - e toda mulher que já carregou no ventre um filho teve essa emocionante experiência - dá testemunho de que João reconhece a presença do Senhor no menino que Maria tem em seu seio. E a velha Isabel, que já exulta de alegria e louvor ao Deus que finalmente fecundou seu ventre estéril, chama a jovem prima de Bendita. Bendita porque acreditou e não expulsou o filho que Deus lhe dera para a morte. Bendita porque acolheu, nas mais difíceis circunstâncias, a gravidez que daria à humanidade o Salvador. Bendita porque soube ser mulher, plenamente mulher, e plenamente filha de Deus.

O Evangelho quer dizer, com carinho e força, a todas as mulheres, que se alegrem porque são benditas. Benditas porque têm em seu corpo a marca da vida e são convidadas a carregá-la. Benditas porque Deus deseja dar-lhes a fecundidade que faz crescer seu povo e conta com elas para que não se neguem a isso. Benditas porque o mesmo Deus conhece seus sofrimentos e dificuldades e nunca deixará de ampará
-las no corajoso sim que disserem à vida de outros. Jovens ou velhas, benditas mulheres! Benditas aquelas que crêem que seu jovem corpo não serve apenas para malhar nas academias, mas é destinado a missões bem maiores. Benditas aquelas que crêem e proclamam que, apesar da maternidade biológica não lhes ser mais possível, maior é o Deus que faz brotar a vida mesmo ali onde esta pareceria impossível.

Maria Clara L. Bingemer
TEÓLOGA
Retirado do Jornal JB

 
 
VEJA NO MÊS DE MARÇO/2004:

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