DESPERDÍCIOS
Era uma manhã de domingo como outra qualquer, ou melhor, seria
uma manhã qualquer se o fato que vos relato não tivesse
alterado a rotina daquela casa. Eram tempos difíceis, o desemprego
rondava toda a vizinhança e era inevitável não
encontrar um pai de família nesta situação ou
temente a ela.
Naquela casa o pior já havia acontecido, as coisas pareciam
cinzas, com pouca luz e um silêncio ensurdecedor que incomodava
mais que acalmava.
Pelo aroma na casa, o almoço já havia sido preparado.
Tinha no ar um cheiro de ensopadinho de batata com carne moída.
Por problemas outros, o fogão estava instalado do lado de fora
da casa e aquele senhor, que não era assim muito senhor, mas
os últimos acontecimentos o fizeram envelhecer muitos anos
em poucos dias, pois o desemprego o havia visitado e deixado poucas
esperanças de um novo caminho. Mas, como dizia, aquele senhor
foi até o lado de fora da casa e pegou a panela de ensopado
que havia preparado e a trouxe para dentro onde a mãe e sua
filha o aguardavam sentadas à mesa. No caminho ouviu-se um
forte ruído seguido de um grito junto a um palavrão
daqueles bem cabeludos e um silêncio profundo aportou de imediato
aquela casa.
A criança que estava à mesa correu ao encontro do ruído
e encontrou seu pai parado, assim meio que paralisado, olhando incrédulo
o chão esparramado de comida. A criança sabia que aquela
seria a refeição do dia, talvez a única. O pai,
ainda pouco refeito ao susto, tentava se autojustificar; olhava a
panela no chão e ao mesmo tempo também olha para o cabo
da panela que ficou em sua mão. Via-se nitidamente em seus
olhos um misto de dor e ódio e antes que um segundo palavrão
ecoasse pela casa a menina abaixou-se, desvirou a panela e meio sem
jeito dirigiu-se ao pai:
-paizinho, ficou ainda um pouco de comida no fundo da panela, dá
para o senhor e mamãe comerem, eu não me importo, já
tomei meu leitinho e não estou com fome, acho até que
ia comer só de olho grande.
O pai, que tentava entender o que havia acontecido, olhou nos olhos
daquela menina e caiu em prantos, tanto que ainda quando lavava o
chão, dava para ouvir seus soluços. A menina para não
incomodar foi chorar sozinha no quarto que dividia com os pais.
O tempo passou e eu ainda me vejo aquela menininha chorando escondida.
Sim, era eu ainda muito criança e até hoje esta cena
habita as entranhas da minha alma. Não carrego isso como trauma
de infância, mas como exemplo de vida. Hoje, vencendo os obstáculos
de minha adolescência, me transporto no tempo quando vou à
casa de um de meus amigos de grupo jovem e encontro o desperdício
co-habitando naquela casa. Vejo jovens que não sabem o valor
das coisas que possuem e tem em seus bens algo que vem de uma fonte
inesgotável, pois jamais seus pais deixaram de lhes dar o tanto
que sempre pedem. Aquela panela de comida ao chão me fez crescer
acelerado, me fez entender que nada pode ser desperdiçado.
Este ano de 2004 a Campanha da Fraternidade vêm mostrar o quanto
é preciso valorizar os bens naturais que temos e que achamos
ser infindáveis. A C.F. 2004 quer, "homenageando"
a água, trazer à baila o conceito de desperdício
e bom uso de nossos recursos naturais. A água, que nos parece
ser de graça e de fácil aquisição, nos
remete a uma pergunta crucial: até quando? Até quando
teremos água em abundância? Assim como outros bens que
possuímos e nem sempre damos o seu devido valor. Dói-me
o coração ver jovens que não respeitam o esforço
de seus pais em trazer comida para dentro de casa e jogam fora o que
poderia alimentar muitas famílias carentes. O abuso no consumo
de coisas fúteis e sem o menor valor nutricional me faz navegar
por aquele ensopadinho delicioso feito por meu pai e que se perdeu
pelo chão. É comum dizer que só damos o devido
valor as coisas quando as perdemos. Será mesmo necessário
perder?
Minha adolescência está se esvaindo feito areia entre
meus dedos e só me resta juntar as coisas que aprendi com meus
erros e acertos e tentar de alguma forma melhorar o pequeno mundo
que está à minha volta. Nós jovens precisamos
aprender muito rápido da vida se quisermos ter um futuro decente
para nós e nossos filhos. Não há bem com durabilidade
infinita, só o amor do Pai, e é em consideração
a Ele, o Criador, que precisamos saber respeitar tudo aquilo que nos
é dado com tanto amor. Respeite a natureza e deixe um bom legado
aos seus descendentes.
P.S. A cartilha com a novena da C. F. 2004 já está à
venda na secretaria.
P.S. do P.S. É com água que recebemos nosso batismo.
É ou não é um bem natural super especial?
PAULO SOBRINHO E SOLANGE (loretando@cybernet.com.br) |