O Deus que Jesus Cristo nos revelou na plenitude da sua vida trinitária
e que Gn 1 já anuncia trinitário foi, gradativamente,
se revelando ao longo da História da Salvação,
que começa com a vocação de Abraão. O
primeiro título que Deus dá a si mesmo é o de
El Shaddai. Embora, mais tarde, esse título assuma, praticamente,
a significação que tem o nome de Iahweh, quando é
lembrado nos inícios da história do povo hebraico assume
a significação específica que deriva da sua etimologia.
Shaddai é um plural de uma palavra hebraica cuja significação
é peito, seio, úbere, mama, teta (hbr.: shad). Seus
termos correlativos são ventre, regaço. É segundo
esse sentido específico que é utilizado por Jacó
quando, no fim de sua vida, abençoa o seu filho Judá.
Ao invocar a Deus o chama de "El Shaddai" (Gn 49,25), capaz
de efundir "bênçãos das mamas e do seio".
Foi sob esse título que Deus se revelou aos Patriarcas, como
aliás faz notar o Autor do livro do Êxodo, antes de comentar
um segundo nome de Deus, Iahweh: "...Apareci a Abraão,
a Isaac e a Jacó como El Shaddai; mas pelo meu nome, Iahweh,
não lhes fui conhecido"(Ex 6,3). É o salmista que
nos explica o significado de El Shaddai ao evocar a forma com que
Deus, no início da História de Israel, se relacionava
com os Patriarcas: "Ele se lembra da sua aliança para
sempre,...aliança que ele fez com Abraão, e juramento
confirmado a Isaac... Quando se podia contá-los, eram pouco
numerosos, estrangeiros na terra... ele não deixou que ninguém
os oprimisse... Não toqueis nos meus ungidos..."(Sl 105,
8-15). Vemos dessa forma que o Deus trinitário, que São
Paulo define, no fim da sua revelação, como a Bondade
que se manifesta no Amor pela ação salvadora do Filho
que nos vivifica no Espírito (Tt 3,4-6), desde as suas primeiras
manifestações na História da Salvação,
se revelava segundo a sua mais profunda essência.
O título de El Shaddai, contudo é acompanhado, também,
por descrições que relembram o aspecto de poder e santidade
em Deus, de forma que podemos dizer que El Shaddai quer ser a maneira
pela qual Deus é apresentado, sobretudo, numa relação
de cunho paternal com o seu povo. Isso aparece no livro de Jó.
À lamentação de Jó que não entende
o por que das terríveis provações, Deus se apresenta
em toda a sua transcendência, enquanto, pedagogicamente, através
da dor, quer conduzir o seu servo até entender o que é
a verdadeira justiça: "Shaddai, nós não
o atingimos. Mas ele, na sublimidade de seu poder e retidão,
na grandeza de sua justiça, sem oprimir, impõe-se ao
temor dos homens; a ele a veneração de todos os corações
sensatos" (Jó 37, 22-24). El Shaddai é o Deus cuja
voz é "a voz de muitas águas" (Ez 1,24), que
no seu poder é capaz de punir as transgressões do seu
povo: "Sim, está próximo o Dia de Iahweh, ele chega
como uma devastação de El Shaddai" (Jl 1,15). Em
resumo, El Shaddai é o Deus verdadeiro, que ao revelar-se ao
povo de sua escolha, por uma necessidade até histórica,
devido a fragilidade do seu protegido, se revela acentuando, sobretudo,
o aspecto fundamental do seu Ser: a Bondade. Ela é, todavia,
acompanhada pelo Poder, não tanto em vista de obras portentosas,
e sim, como escudo que defende e ampara a condição frágil
dos Patriarcas. Quando age em vista de educar, ele corrige, todavia,
sem ira, porque, sempre age com sabedoria, no amor.
Perguntas para uma reflexão:
1a) Qual é a etimologia de Shaddai?
2a) Qual é o significado específico desse título?
3a) Em que, esse título divino nos aprofunda no conhecimento
do Deus trinitário?
Pe. Fernando Capra - CRSP |