FRATERNIDADE E AS PESSOAS IDOSAS
No Brasil, o tempo de Quaresma, que nos prepara para a Páscoa
de Cristo e a nossa páscoa, está profundamente ligado
à Campanha da Fraternidade, que este ano tem como tema Fraternidade
e Pessoas Idosas e como lema Vida, Dignidade e Esperança.
Segundo o último censo do IBGE, em 2000, o número de
idosos, no Brasil, atingiu cerca de 8,6% da população,
o que equivale a 15 milhões de pessoas. Para os próximos
vinte anos, a previsão é de que esse número aumente
para 15% do total da população. É uma estatística
que não pode ser mais ignorada.
O aumento da expectativa de vida do brasileiro se deve, entre outros
fatores, ao progresso da medicina, às melhores condições
sociais e econômicas e é também preciso
acentuar - ao rígido controle demográfico e a uma mentalidade
antivida, que têm levado à diminuição da
taxa de fecundidade nos últimos anos. Daí, uma expressão
usada para definir o Brasil de hoje: Um país jovem de
cabelos brancos.
Seria desejável que a longevidade fosse acompanhada de melhor
qualidade de vida para os que alcançam idade mais avançada.
No Brasil, porém, enquanto a média de vida é
de cerca de 68 anos, a média de idade com qualidade de vida
é de mais ou menos 60 anos. O abandono de nossos idosos se
evidencia na precariedade dos serviços e programas sociais
e de saúde para as pessoas dessa faixa etária, particularmente
para os de baixa renda.
No modelo econômico neoliberal, que atribui importância
exacerbada ao lucro, à produtividade, ao consumo, à
eficiência, o jovem é supervalorizado, enquanto o idoso
é, freqüentemente, considerado um inútil, um peso
morto para a família e a sociedade, e um improdutivo para o
Estado. Daí, o desprezo por ele e o desrespeito à sua
dignidade.
Para superar a situação de inferioridade em que se encontram
os anciãos, o Papa, na mensagem de abertura da Campanha da
Fraternidade de 2003, enviada ao Presidente da CNBB, considera a necessidade
de uma mudança de mentalidade. Segundo João Paulo II,
é urgente substituir a cultura utilitarista e materialista,
que mede o valor do homem por aquilo que ele produz e consome
(...) por uma cultura que reconheça o valor ´absoluto`
de cada pessoa, seja qual for o grau de capacidade e eficiência
de que disponha.
A situação do idoso entre nós é um desafio
para todos e para cada um em particular. Exige políticas adequadas
às novas exigências geradas pelo crescimento do número
de pessoas que se encontram em idade mais avançada, requer
novas maneiras de pensar e novos critérios de análise
da realidade. Papel importante na resposta a essas exigências
cabe ao Conselho Nacional dos Idosos, que, antes de trabalhar de forma
centrada na assistência social, deve ser um instrumento de transformação.
O Conselho deve gerar novas estruturas e formas de participação
que possibilitem aos idosos o exercício da cidadania e a construção
de um novo Brasil, tornando-o país que acolhe também
as pessoas idosas. Se isso não for feito, há o risco
de se tornar realidade o que alguém disse com certa ironia:
No Brasil, os anciãos de amanhã serão os
meninos de rua de hoje.
A Quaresma pede de nós renovação pessoal e comunitária,
a fim de construirmos uma civilização plenamente
humana, onde se respeitem, se amem e se valorizem os anciãos,
para que estes se sintam, apesar da diminuição das forças,
parte viva da sociedade (Cf. Carta aos Anciãos, João
Paulo II).
A Campanha da Fraternidade, neste período de Quaresma, tempo
de conversão, convida-nos a descobrir, no rosto de nossos irmãos
e irmãs envelhecidos pelo tempo e pelo trabalho, o rosto de
Jesus Cristo, a beleza de Deus.
O idoso se sentirá parte viva da sociedade se for acolhido
- de preferência e se possível, em ambiente onde ele
é de casa-, entre os parentes, conhecidos e amigos
e pela sociedade, em cujo âmbito possa prestar algum serviço
voluntário, ao invés de ser jogado num asilo, onde raramente
poderá viver os dias que lhe restam com dignidade e na esperança
da vida em plenitude. (Cf. Carta aos Anciãos, João Paulo
II).
Que a Campanha da Fraternidade deste ano nos ajude a sermos mensageiros
de vida, dignidade, felicidade e esperança para todas as pessoas
idosas do nosso Brasil.
Dom Raymundo Damasceno Assis
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB |