Caríssimos irmãos, neste mês a Igreja celebra com júbilo a grande festa de Pentecostes. Para os judeus era uma festa de grande alegria, pois era a festa das colheitas. Vinham pessoas de toda a parte: judeus saudosos que voltavam a Jerusalém, trazendo também pagãos amigos e prosélitos, e no templo eram oferecidas as primícias das colheitas. Era também chamada “festa das sete semanas” por ser celebrada sete semanas depois da festa da Páscoa, no qüinquagésimo dia. Daí o nome Pentecostes, que significa "qüinquagésimo dia". No primeiro Pentecostes, depois da morte de Jesus, cinqüenta dias depois da Páscoa, a promessa se cumpriu e desceu sobre a Comunidade cristã de Jerusalém o Espírito Santo na forma de línguas de fogo; onde todos ficaram plenos, cheios, tomados pelo poder de Deus e começaram a falar em outras línguas conforme narram as Escrituras em At 2,1-4: “Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceram-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e repousaram sobre cada um deles.
Ficaram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem”. As primícias da colheita aconteceram naquele dia, pois foram muitos os que se converteram e foram recolhidos para o Reino.
Observemos que a descida do Espírito Santo foi acompanhada por quatro manifestações sobrenaturais, parecidas com fenômenos naturais. A experiência pentecostal, narrada pelo doutor Lucas, pode, assim, ser pensada como uma sucessão de três verbos e três substantivos, indicando três manifestações, com significados próprios. Os verbos são ouvir, ver e falar, complementados pelos substantivos vento, fogo e língua.
Manifestação espetacular, sublinhada com muito cuidado pelo escritor, fazendo-nos compreender o batismo de fogo prenunciado por João Batista: “Eu vos batizo com água, em sinal de penitência, mas Aquele que virá depois de mim, é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar seus calçados.
Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo” (Mt 3, 11). Os presentes viram o Espírito Santo chegar, como fogo a purificá-los de todos os pecados e Lucas é categórico ao dizer que, quando foram cheios do Espírito Santo, aqueles seguidores de Jesus ali reunidos começaram a falar em línguas que não eram os seus idiomas maternos (aramaico, grego ou latim, as línguas falados na Palestina de então), de modo que, sem que houvesse tradução simultânea, os "visitantes" ouviam acerca das "grandezas de Deus" em suas próprias línguas. Se é verdade que o Espírito Santo é criativo, também sabemos, pela Bíblia e pela história, que a íntegra do que aconteceu em Pentecostes nunca se repetiu e jamais se repetirá, nem na forma nem no conteúdo. Os propósitos da ação do Espírito Santo em Atos 2 eram específicas, como o foram nos demais episódios. Nós não podemos, nem devemos clonar o Pentecostes. Devemos ter saudade do Espírito Santo se não estamos cheios dele, mas não saudade da experiência dos outros. Obviamente podemos e devemos aprender acerca do modo como o Espírito Santo age e orar para que aja conosco. Queridos, o mais importante é que a promessa se estende a todas as gerações e é atual. Jesus ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem aí o cumprimento da promessa de seu Pai, que ouvistes, disse Ele, da minha boca: Porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui a poucos dias (At 1, 4-5). E nós queremos acolher, receber esse batismo de fogo, essa efusão do Espírito, para vivermos uma vida nova? Como e onde estamos aguardando o derramamento do Espírito? Na Casa do Pai, congregando com os irmãos em oração ou dispersos como se nada acontecerá? Diante dessa situação precisamos estar de prontidão, alertas, convictos de que a promessa se cumprirá, e ter postura, atitude, e a primeira é querer, desejar ardentemente, esperar pela ação de Deus que gera a mudança interior em cada um de nós, abrindo as portas do coração e do entendimento. Talvez estejamos acomodados, com a nossa casa interior ajeitada, tudo tranqüilo, ou quem sabe a nossa casa esteja empoeirada, há muito tempo descuidada, isso não é problema, o vento impetuoso que o Senhor quer soprar em nós vem exatamente para desarrumar tudo, revirar de ponta cabeça a nossa vida, desprogramar os nossos planos e projetos, mostrando-nos o novo sentido, o verdadeiro plano e projeto de Deus para a nossa santificação. Tudo o que a Igreja fez ao longo destes anos ela o fez pelo poder capacitador do Espírito Santo.
Se mais não fez ou mais não faz, foi ou é porque nós os cristãos temos permitido que este Espírito se apague. Ele está conosco para sempre (Jo 14, 16). Cabe-nos permitir que Ele nos encha, cabe-nos não resistir ao Seu vento; cabe-nos obedecê-Lo, para que nos molde o caráter e nos leve para o que seja necessário.
Deus quer que estejamos prontos para ouvir, ver e falar, sem nos fechar no território isolado da razão. E que assim seja!
Ricardo da Liturgia das 10h
ricardomoyses@globo.com
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