- Apocalipse 2 (2)
Interpretação
No decorrer dos vários séculos foram apresentadas diversas maneiras diferentes de interpretar o livro do Apocalipse.
Transcrevo a seguir os textos da Bíblia Sagrada da Universidade de Navarra e em seguida a explicação de D. Estevão Bettencourt na Apostila Curso Bíblico do Mater Ecclesiae.
“Pelo seu caráter especialmente simbólico, recebeu diversas interpretações ao longo dos séculos. Podemos distinguir quatro mais espalhadas:
a) O livro seria a descrição da História da Igreja. Através das suas páginas ir-se-iam anunciando os momentos mais importantes pelos quais passou ou tem que passar ainda a Igreja. São sete períodos, o último dos quais coincidiria com o reino de mil anos que Cristo e os Seus seguidores hão de instaurar antes do fim do mundo, segundo se anuncia em Ap 20,1-7 entendido ao pé da letra. Esta interpretação teve a sua vigência nos primeiros séculos e na Idade Média, e hoje também nalgumas seitas que mediante diversos cálculos deram, falhadamente, as datas do fim do mundo.
b) No Apocalipse conter-se-ia exclusivamente a história contemporânea de São João, que ofereceria um quadro de perseguições e dificuldades da Igreja no seu tempo, provenientes sobretudo do paganismo e do judaísmo. É uma interpretação que se inicia no século XVI, e que hoje tem os seus seguidores na crítica racionalista. Segundo esta corrente, o Apocalipse não é mais que uma descrição simbólica de quanto estava a acontecer no século I.
c) O conteúdo do Apocalipse seria só um anuncio e premonição para os últimos tempos, para a época escatológica. Esta interpretação esteve em vigor a partir do século XVIII e atualmente é seguida por alguns autores.
d) O Apocalipse constituiria uma visão teológica de toda a História, sublinhando o seu aspecto transcendente e religioso.
Com grande parte dos Santos Padres esta interpretação entende que São João nos apresenta certamente a situação da Igreja naquele momento, e uma ampla panorâmica dos últimos tempos; mas com a particularidade de que esses tempos definitivos foram já inaugurados com a vinda de Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem. É uma concepção muito de acordo com o IV Evangelho, onde também se apresenta a época definitiva, assim como a vida eterna, já iniciada agora de alguma forma e em marcha para a plenitude total. Deste modo dá-se-nos uma certa perspectiva dos acontecimentos e a esperança do triunfo final. Por um lado, apresenta-se a luta cósmica entre o bem e o mal, mas, por outro, dá-se por assente o triunfo definitivo de Cristo. Este sistema de interpretação é o mais aceitável e o que seguimos nos nossos comentários”.
“O Apocalipse, com suas múltiplas imagens, tem suscitado a curiosidade dos cristãos através dos séculos. As numerosas interpretações que se tem dado ao livro, podem reduzir-se a quatro sistemas:
1) Sistema escatológico: os mais antigos intérpretes julgavam que o Apocalipse se referia aos acontecimentos do fim dos tempos e da consumação do mundo (perseguições, apostasia, Anticristo, ressurreição dos mortos e juízo final). O livro mostraria como a histórias acabará com o triunfo do Reino de Deus sobre o pecado. Sendo assim, não tinham a preocupação de relacionar os quadros do Apocalipse com episódios e personalidades dos primeiros tempos da era cristã. Este sistema esteve mais ou menos abandonado durante a Idade Média. É, porém, de novo prestigiado do século XVI aos nossos dias: há quem julgue que as calamidades anunciadas pelo Apocalipse se cumprirão ao pé da letra na última quadra da história.
Reconhecemos que o autor sagrado tem em vista levar aos seus leitores uma mensagem de grande esperança referente ao fim dos tempos. Contudo ele não perdeu o contato com a história da sua época (Nero, Roma, as invasões dos bárbaros no Império...) Por isto o sistema meramente escatológico é insuficiente.
2) Sistema da história antiga: supõe que São João descreva os acontecimentos não do fim, mas do início da história da Igreja: apresentaria a luta do judaísmo e do paganismo contra os cristãos, luta que terminou com a queda da Roma pagã e do triunfo do Cristianismo em 313; assim o ciclo da história considerada pelo Apocalipse se encerraria no século IV, o que também é insuficiente.
3) Sistema da história universal: o Apocalipse apresentaria, sob a forma de símbolos, uma visão completa de toda a história do Cristianismo: descreveria sucessivamente os principais episódios de cada época e do fim do mundo.
4) Sistema da recapitulação. Parte da observação de que o corpo do livro do Apocalipse consta de três septenários: 7 selos, de 6,1 a 8,1; 7 trombetas, de 8,2 a 11,15; 7 taças, de 15,6 a 16,21. Ora sete é o símbolo de totalidade, para os antigos. Cada septenário, portanto, recapitula toda a história da Igreja; descreve não os acontecimentos sucessivos de cada século, mas o fio condutor que está por debaixo de todos esses acontecimentos, a saber: a luta entre Cristo e Satanás ou entre a linhagem da mulher e a da serpente (cf. Gn 3,15); em qualquer época, essa luta prossegue, tendo diversos protagonistas, sim, mas sempre o mesmo sentido básico; somente depois da terceira recapitulação ou do terceiro septenário, o livro se encaminha para o desfecho da história, que é descrito especialmente nos capítulos 21 e 22; dá-se então o triunfo definitivo do Reino de Cristo sobre o de Satanás, triunfo que implica em ressurreição dos corpos e renovação da natureza material.
Por conseguinte, as calamidades que o Apocalipse apresenta, não hão de ser interpretadas ao pé da letra; o seu sentido depreende-se à luz das cenas de paz e triunfo que o autor intercala entre as narrativas de flagelos; cf. Ap 7,9-12; 11,15-18; 12,10-12.; 15,3s; 19,1-8... Justapondo aflições (na terra) e a alegria (no céu), São João queria dizer aos seus leitores que as tribulações desta vida não surpreendem o Senhor e os justos; foram cuidadosamente previstas pela sabedoria divina, que as quis incluir num plano muito harmonioso, aos qual nada escapa.
Com outras palavras: os acontecimentos que nos afligem na terra, têm dupla face: uma exterior, visível, que tende a nos abater; outra, interior, só perceptível aos olhos da fé, que é grandiosa, pois faz parte da vitória do Bem sobre o mal; é mesmo a prolongação da obra do Cordeiro que foi imolado, mas atualmente reina sobre o mundo com as chagas glorificadas, como Senhor da história (cf. 5,5-14).
O sistema da recapitulação assim proposto merece francamente ser preferido aos demais, pois é o que mais leva em conta a mentalidade e o estilo (de repetição ou recapitulação) de São João”.
A leitura do livro de Apocalipse será menos desconcertante, se desde o começo for indicado o simbolismo de várias das imagens empregadas, por exemplo: o cordeiro simboliza o Cristo; a mulher, a Igreja cristã; o dragão, as forças hostis ao Reino de Deus; as duas feras (Ap 13), o império romano e o culto imperial; a fera (Ap 17) simboliza Nero; Babilônia, a Roma pagã; as vestes brancas, a vitória; o número 3 1/2, coisa nefasta ou caduca.
Entretanto, esses símbolos não são exclusivos: o Cristo é às vezes mostrado como o “Filho do Homem” ou um “cavaleiro”.
O Apocalipse não deve portanto ser tomado como uma história contemporânea escrita no “tempo futuro” (verbo); ele não é tampouco uma revelação clara e definitiva do futuro: é uma mensagem sobrenatural (velada em símbolos, representando tanto o passado como o presente e o futuro), concernente a um período indefinido que separa a ascensão de Jesus de sua volta gloriosa. Ele anuncia aos fiéis a impossibilidade de escapar à luta e ao sofrimento, às perseguições e ao fracasso aparente no plano terrestre, à realidade da salvação que lhe será concedida no meio de suas obrigações, e à vitória final, obra de Cristo ressuscitado que venceu a morte.
O fato de que São João não se preocupa em harmonizar os pormenores nos diz que o que importa é o significado geral de cada visão. Devemos tratar as visões como as parábolas, isto é, olhar em primeiro lugar o quadro inteiro e procurar descobrir a idéia central.
Apocalipse não é um livro para confundir nossa cabeça. É o livro que nos ensina a ver a história à luz daquilo que se cumpriu definitivamente na morte e ressurreição do Grande Mártir (“Testemunha”), Jesus, o Cordeiro imolado. É Ele que abre o livro da história, Ele tem a última palavra sobre a história.
O Apocalipse encerra as Escrituras. Quase todas as imagens de Apocalipse são tomadas do AT (sobretudo Gn, Ex e os profetas), pois em Cristo cumpriram-se as Escrituras, e elas continuam cumprindo-se em favor daqueles que O seguem com perseverança.
Este livro não é uma especulação futurológica, mas uma expressão de resistência e de esperança para a atualidade. As alusões à história são difíceis de decifrar e, às vezes, contraditórias. O importante não é saber se a Fera é Nero ou Domiciano, mas perceber que ela representa o Dragão, o poder do mal que é maior do que a história momentânea e que quer competir com o poder transcendente de Deus mesmo. Por isso, as imagens de Apocalipse são indefinidas, “surrealistas”, escapam de interpretações fechadas, e são, por isso, sempre atuais.
Apocalipse é, todavia, um dos mais fascinantes livros do Novo Testamento; e ainda que sua forma literária nos seja estranha e algumas partes dele permaneçam obscuras, o livro em si mesmo pode se tornar inteligível ao leitor moderno. Tentamos, portanto, romper os sete selos e devassar um escrito que é, efetivamente, um livro fechado a quem com ele depare sem nenhuma explicação de sua natureza, objetivo e significado.
Continua
Jane do Tércio
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