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Para que sofrer? Para que amar? | MAIO

"O amor não é amado", um dia falou São Francisco. E por que deveria ser, pergunto eu? Já foi dito por muitos como doença, como pode tratar-se de algo bom? Muitos se desgraçaram por sua causa, chegando mesmo ao extremo da morte. Outros perderam tudo que possuíam, sofrendo tudo o que podiam suportar e até mesmo além disso. Portanto, não pode ser algo bom, volto a pensar. Mas algum fascínio tem de ter, se a tantos pôde seduzir.

Do que se trata? Não oferece nada, muito pelo contrário, faz com que esqueçamos de nós mesmos para lutar por outros. Se ainda garantisse algum reconhecimento por parte dos beneficiados, ainda poderia nos trazer alguma satisfação. Mas temos visto o que já há tempos acontece, por mais puro e sincero que seja, raramente é reconhecido e recompensado de forma condizente. Pelo contrário, o reconhecimento e retribuição não fazem parte da sua lógica. Só pode ser considerado puro e verdadeiro se nada pede ou espera em retribuição, de outra forma é uma busca de prazer pessoal e não entrega amorosa. De que vale então? Por que deveríamos amá-lo? Que proveito tira o homem do amor que dedica ao seu próximo? Nenhum. Só perde aquilo que poderia conquistar se estivesse com sua atenção voltada para si e não para o outro.

Sim, estou convencido. É pura lógica, confirmada por diversos exemplos reais. O maior e mais enfático, talvez, seja o do próprio Cristo. A opção mais radical foi a sua. Não há seguidor e expressão maior do amor do que ele. Deixou sua familia para servir aos outros no anúncio de uma boa nova de salvação. Curou doentes, perdoou pecados e levou esperança aos que já não a tinham. Viveu uma vida de miséria por amor daqueles que o cercavam, e, apesar disto, foi perseguido, aprisionado, torturado e, finalmente, morto. Destino semelhante têm todos os que se dedicam a seguir o amor, em menor grau sim, já que sua entrega também é parcial e não total como a do Cristo. Não tenho dúvida, humanamente falando não há quem possa provar que o amor não resulta em sofrimento.

Porém, não há como ignorar uma outra realidade. Por mais sofrimento que o amor possa ter causado, não há um só homem que tenha se entregue a ele de todo coração e se arrependido. Tomemos por exemplo o próprio Francisco de Assis, ou mesmo, Madre Teresa de Calcutá. Se analisarmos friamente a vida que levavam após sua entrega completa ao amor, ao serviço do próximo, veremos uma realidade de miséria, desamparo e privação, um verdadeiro calvário. E, apesar disso, quem de nós pode afirmar viver constantemente em alegria e paz sequer semelhantes a deles? Fico imaginando que estranho vício é
este que ~z com que tudo que poderia haver de bom na vida de um homem se perca, e, ainda assim, ele se sinta feliz? E mais, como ele pode transformar tudo o que antes parecia ser desgraça em motivo de paz e felicidade? Que estranho poder é
este que atravessa a realidade de um ser humano e muda por completo sua forma de ver e aceitar o mundo? E certo que o sofrimento, ou a cruz, como preferirem, acompanha sempre uma entrega verdadeira ao amor. Mas também é fato, que este sofrimento já não é percebido da mesma forma.

Voltar a declaração inicial de São Francisco pode ajudar a prosseguir em busca de uma conclusão. Não sei se ao falar do amor ele se referia ao sentimento ou ao próprio Deus. Sim, pois Deus é a própria essência do amor. Então se o amor não é amado, é Deus que não é amado. Se não tem valor, Deus também não. Se causa sofrimento, é Deus que o causa. Mas se altera a percepção da realidade e fez com que o homem veja com alegria o que era sofrimento, também é Deus o responsável.
Se por amor, buscamos o melhor para o outro, ao invés de para nós, é o Pai que nos motiva. Se por amor tivermos que dar nossas vidas, então será pelo Pai que as daremos. Esse é o grande segredo. O que faz com que tantos sofram, percam tudo ou morram sem olhar para trás. A realidade do Pai é maior do que tudo, transforma tudo, marca nossas vidas. Como viver da mesma forma depois de conhecer o verdadeiro amor, depois de conhecer o Pai? Tudo muda, tudo é novo e tudo passa a ser relativo diante do absoluto que é Deus, que é o amor.

Portanto, humanamente falando, lhes afirmo que amar é uma loucura, uma perda de tempo e caminho certo para a desilusão. Porém, como Cristo já se esforçava para nos mostrar, diante da do amor do Pai, toda a sabedoria humana desaparece. O próprio ser humano muda; se transforma em entrega, em serviço, em desprendimento, em sacrifício de vida pelo irmão. Tudo isso, movido pelo pulsar de um coração tomado pelo amor. Tomado de todo pelo próprio Deus.

Fábio Miranda

 
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