Eles não me deixam mentir. O número de gente que escreve
e canta sobre família, de religiões que se ocupam da
família, de emissoras de rádio e televisão que
se intitulam "a rádio da família", de igrejas
que se proclamam "igreja da família", de cantores
que se apresentam como o cantor, a cantora das família e de
álbuns, revistas e livros que adotam o título "da
família", mostram que a família está em
alta.
Numa só semana notei três restaurantes com o sub-título:
"O restaurante da sua família". Lojas, oficinas,
bares, praças, até pipoqueiros da família mostram
que existe hoje uma necessidade de falar desta comunidade tão
agredida que é a família. O mundo acordou para esta
necessidade. Quando compus a música "Oração
pela família" em 1990 não imaginei que seria tão
cantada no mundo inteiro. Achei-a comprida demais e pensei que seria
boa apenas para ouvir, o povo não a decoraria. Pois, decorou
e canta! Quem melhor sintetizou a questão foi uma professora
aposentada que trabalhou mais de 50 anos com crianças e jovens:
- Sua canção veio no tempo certo e do jeito certo. O
que o mundo está precisando ouvir é que família
é um bem que não se joga fora.
Uma das razões pelas quais vejo tanta gente assumindo a pregação
sobre a família é mais do que óbvia. Não
dá para elogiar a beleza ou segurança de uma cidade,
onde metade das casas foi mal construída ou já ruiu.
Hoje em dia, em alguns países ricos e de belíssimas
casas, de cada três lares um não deu certo. Se temos
que ter uma família e um lar, então que seja algo bem
planejado, bem amado, bem estruturado, bem perdoado e bem protegido.
Família é para ser uma só. O que vem depois é
sempre correção e rumo, ou substituição
para o que começou mal, ou não deu certo. É como
erguer a casa dos sonhos e, meses ou anos depois, ter que abandoná-la,
porque houve um erro de construção. Pior ainda, quando
alguém namora um mês ou vinte dias e se casa, sob os
aplausos da mídia, que, às vezes, preza mais o espetáculo
do que o conteúdo moral de um ato. Uma casa, às vezes,
leva mais tempo para ser erguida do que certos casamentos. O certo
seria ir mais devagar com os sentimentos e mais depressa com os tijolos.
No geral, porém, família é como obra de arte.
Não se improvisa. Escolhe-se cuidadosamente o material e grava-se
ou talha-se com o maior cuidado. Se é para durar, não
pode ser feita na base do "gostei e quer você pra mim ainda
esta semana".
Fico feliz por ver este surto de cuidado pela família no Brasil
de hoje. Em alguns casos, como o da lojinha de objetos eróticos
que curiosamente se intitula "da família" é
puro marketing. Na maioria dos casos, é coisa séria
e desejo de que as coisas mudem! É bonito e deve ser elogiado!
Pe Zezinho |