Soberba II
Novamente lá estava eu loretando pelos corredores da paróquia.
Por precaução, contratei o Homero da Jú como
meu segurança; a ordem era não permitir a aproximação
de ninguém e isso incluía a Glorinha.
Não sei se vocês já estiveram no Loreto fora dos
horários dos agitos, àquelas horas em que tudo está
mais calmo, vazio e tranqüilo. O silêncio habita com abundância
e é nessas horas que encontramos nossos pedaços caídos
no chão, é nessas horas que oferecemos nossa outra face,
a verdadeira.
Não pude deixar de pensar nas palavras daquela mulher, foram
duras, mas tenho que reconhecer que foram também verdadeiras.
Refleti muito sobre isso e foi muito doloroso reconhecer minhas falhas
e principalmente que não sou unanimidade. Eu tinha absoluta
certeza de que todos me adoravam, todos elogiavam meu trabalho, que
até poderia não ser o melhor dos melhores, mas também
não era o pior dos piores, estava ali bem juntinho. Não
era apenas soberba, era assim como uma coisa natural. O pensamento
clássico; se não faço mal a ninguém, porque
não gostar de mim?
Aquelas palavras doeram muito, mas foram necessárias para que
eu acordasse pra vida e entendesse mais de mim. Nem todos gostam do
que escrevo, falo e penso, é natural, mas juro que pensava
ser mais pra mais do que pra menos. Depois disso passei a notar que
já não tinha a mesma circulação fácil
em todas as rodas de amigos, notei que já não era lembrado
com facilidade pelos outros, que não fazia muita diferença
estar ou não estar.
Neste momento uma pessoa senta ao meu lado, era ela, aquela senhora
de novo. Vou demitir o Homero. Dessa vez ela não disse muita
coisa, apenas apertou meu braço de leve, abriu um sorriso maroto
e piscou para mim. Terminamos nossas orações e fomos
para o corredor lateral. Ela ainda segurava meu braço quando
começou a falar. Além de metido a gostoso é fofoqueiro,
precisava contar pra todo mundo? Brincadeirinha meu filho, eu não
pensei que você fosse ficar tão abalado com as coisas
que te falei, não era essa a minha intenção,
queria apenas alertá-lo, te acordá-lo pra vida. Volto
a repetir; você não é má pessoa, muito
pelo contrário, você é uma pessoa muito boa, mas
se perdeu no tempo. E como se ela adivinhasse meus pensamentos, continuou.
Você não é unanimidade, ninguém é
nem Cristo conseguiu isso, tanto é que O mataram na cruz. Você
é uma cara normal como todos aqui na paróquia e cada
um tem seu valor, não existe aquele que pesa mais ou menos,
tirando o Lula é claro. Todos somos um só, juntos somos
fortes e é até normal que um ou outro se ache mais especial
que todos, mas nada que o torne má pessoa. Pense bem, se fazendo
tudo legalzinho as pessoas já encontram motivos para fazer
comentários, imagine com esse teu nariz empinado.
Tentei reverter a situação, mas ela não deu chance
e continuou. -Pense sempre no quanto você é importante
para o seu grupo, não se importe com todos os grupos, a unanimidade
até incomoda. Seja você mesmo, faça o que é
certo, o que é correto e não se esqueça de olhar
para traz e recolher os pedacinhos que caem pelo chão. Recoloque-os
nos seus devidos lugares. Todos se machucam quando põem a cara
pra bater, destacar-se à frente de um trabalho significa estar
sujeito a tudo, até ao fracasso. Não pense em agradar
a todos, pense sempre em agradar a Deus e, por favor, não invente
coisas para provar ao Pai o quanto você O ama, isso é
coisa de malucos que fazem sacrifícios achando que isso os
tornará mais santos. Deus não quer isso, Ele quer apenas
que vivamos nossas vidas com retidão, numa boa.
Consegui tomar a palavra já meio cabisbaixo. -Eu me senti muito
estranho com suas palavras, não foi fácil administrar
e ainda estou um pouco tonto, mas não posso deixar de lhe dar
razão. Muita coisa eu fiz sem pensar, sem analisar se iria
ferir alguém, fazia o que eu achava certo e pude per-ceber
que não é bem assim que a "banda toca".
-Meu filho, disse ela, você é um filho querido de Deus,
Ele o ama tanto quanto ama a todos os outros filhos, independente
da quantidade ou da qualidade do que fazem. A cada um Ele deu um dom
e cobra o retorno de acordo com isso, continue seu trabalho, você
é muito importante, apenas vigie-se mais.
Meus olhos marejados caíram nos dela, sua sinceridade era facilmente
entendida, pois falava com amor. Minha vontade era deitar em seu colo
e chorar e ela me deu um abraço daqueles inesquecíveis,
parecia uma eternidade. Aquele corpinho miúdo aquecia o meu
e falava-me das outras verdades naquele instante. Minhas lágrimas
molhavam seu ombro. Tentei segurar o soluço, tentei fingir-me
forte, mas ela me venceu, me apertou ainda mais como que querendo
me proteger. Mãe é assim mesmo. Mãe é
tudo igual, só muda o endereço. Era isso que eu queria
naquele momento, o carinho da minha mãe e ela estava ali, na
pessoa daquela senhora.
Meu coração batia acelerado, eu ofegava, minhas mãos
suadas acariciavam sua costas. Eu era amado por aquela senhora que
mal me conhecia.
-Meus filhos ficariam com ciúmes se me visse assim com você,
meus netos então nem se fala, disse ela sorrindo. E assim deixou
meus braços e se despediu. Seguiu pelo corredor de onde veio
e desapareceu.
Novamente minha cabeça deu um giro e demorei pra acordar. Ainda
enxugando as lágrimas lembrei que nem sei seu nome e nem lhe
desejei feliz dia das mães. Então, desejo a todas as
mães, representadas por esta mãe, que, carregadas de
amor, aqueçam seus filhos, legítimos ou não.
E que o amor de Maria preencha os corações de todas
as mães do Loreto e que nunca lhes falte o amor de todos os
filhos, legítimos ou não.
Parabéns Mamães, muitas felicidades nesse seu dia!
P.S. D. Quita, eu te amo, a senhora é a melhor mãe do
mundo, junto com todas as outras é claro.
P.S. do P.S. D. Solange, você também é isso tudo
e mais alguma coisa.
PAULO SOBRINHO E SOLANGE >>> loretando@ig.com.br |