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Gênesis 18 (I) | MAIO

A forma abrupta com que é introduzido, bem no início desse capítulo, o verdadeiro protagonista da aparição de Mambré, nos esclarece sobre a personagem tão misteriosa que se apresenta, de repente, a Abraão que descansa na entrada da sua tenda. Iahweh, mais uma vez se revela a Abraão. A forma com que é descrita essa visão é um conto didático que os ouvintes da sinagoga sabem perfeitamente interpretar. A personagem representada por três peregrinos, que ao longo da narrativa se tornam um só (v. 3.10), pode ser somente Iahweh porque o quadro da narrativa é o lugar sagrado do Carvalho de Mambré "que está em Hebron, onde Abraão construiu um altar a Iahweh" (Gn 13,18). A forma trina nas pessoas diz respeito à numerologia bíblica que utiliza o número três como número perfeito aplicado a Deus. Nesse caso, o Autor sagrado quer apresentar uma manifestação que deve ser, inconfundivelmente, atribuída a Deus. A feliz narrativa tem o intuito de preparar o anúncio tão esperado, no qual, devido à sua fragilidade humana, seja Abraão como Sara deixaram de crer (17,17; 18,12). Iahweh se apresenta como o Deus Forte (o Gabri-El), para quem nada é impossível (18,14). Os homens são meros instrumentos para Ele. A expectativa exasperada pela qual tiveram que passar Abraão e Sara, e na qual sucumbiram, tinha a finalidade clara de provar que a Descendência seria fruto exclusivo da iniciativa de Deus. Abraão, tanto quanto Noé, é chamado por Deus, simplesmente porque achou graça aos olhos de Iahweh (v. 3; Gn 6,8). Isso deve ser claro para o povo de Deus. É Deus que suscita a Descendência para realizar uma restauração em favor da humanidade que dele se afastou e que, por si, não tem mais condições de voltar: "Porei inimizade entre ti e a Mulher" (Gn 3,15). Uma grande esperança é suscitada no povo de Deus mediante essa narrativa didática. Deus está agindo na história, nunca deixou de agir e nem deixará de fazê-lo. O nascimento de Isaac é a garantia dessa esperança. A Anunciação de Lucas (Lc 1,26-38) se inspira nos termos do diálogo dessa narrativa e o completa com a paráfrase do diálogo entre Iahweh e Agar (Gn 15,11). A esterilidade é, antes de mais nada, um artifício literário para sublinhar a gratuidade do evento que tem sua única origem em Deus. Nunca o homem poderia dar a si mesmo a Descendência que daria origem a um povo novo, regenerado na graça. Essa forma literária prepara a maneira pela qual é descrito o nascimento de Jesus. De forma eminente, a sua origem é uma intervenção gratuita de Deus na história do homem onde o maravilhoso divino é apresentado na pessoa do próprio Verbo que se encarna pela ação onipotente do seu Espírito que suscita no seio de uma virgem o novo Adão. Ele nada tem a ver, quanto à sua origem, com o velho adão. Dele somente assume a natureza e, segundo a potência criadora que lhe é própria, prepara para si a Mulher, "preremindo-a", para que seja sua digna habitação. Maria é da descendência de Adão, mas o Filho, no seu infinito poder, a preserva imune da mancha do pecado que tanto estrago transmite à geração do homem velho.

Não devemos estranhar a forma familiar com que é descrita a relação de Abraão com Deus, sobretudo porque esta aparição dá-se depois de muitas outras. Em todas Deus é apresentado numa grande determinação de realizar o seu Plano. Nessa última ele revela a grande familiaridade que tem com o seu servo porque quer anunciar-lhe a boa nova da vinda do Descendente. A forma atordoada com que Abraão e Sara recebem a notícia está a indicar que de fato é somente Deus que entende o seu próprio Plano, que todavia leva em frente no seu amor à humanidade enquanto tenta, de todas as formas, tornar consciente o homem acerca daquilo que ele está realizando.

Procuremos ver, portanto, no quadro da Anunciação de Lucas, o maravilhoso que Deus atuou pela Encarnação, conscientes de que Deus pode muito bem realizar o que é impossível, e inconcebível para o homem: "O que transcende a potência de Iahweh?" (Gn 18,14). A resposta de Maria se inspira na narrativa desse capítulo do Gênesis e revela que ela tinha apreendido a crer em Deus acima de toda e qualquer expectativa humana.

Pe. Fernando Capra
 
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