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Carta aos Hebreus (4)

Teologia

A doutrina teológica da Carta aos Hebreus é fundamentalmente cristológica. A consideração da figura de Cristo, Deus e Homem e Grande Sacerdote da Nova Lei, é como a coluna vertebral de todo o documento, aglutinando as suas diversas seções e imprimindo ao conjunto uma extraordinária unidade.

O autor da carta quer demonstrar a superioridade do cristianismo sobre o judaísmo: Jesus é superior a Moisés. E exorta seus leitores a permanecerem firmes na fé. A originalidade do autor reside em conferir a Jesus o título de Sumo Sacerdote, que não encontramos em nenhum outro texto do Novo Testamento.

É evidente que Jesus não foi sacerdote segundo a Lei judaica.
Não pertencia à tribo de Levi, mas à de Judá, nem a uma família sacerdotal. Durante sua vida não exerceu nenhuma das funções próprias dos sacerdotes judeus. A atividade de Jesus se parecia mais à dos profetas.

O autor de Hebreus nos demonstra que Jesus Cristo é o Sumo Sacerdote, superior ao sacerdócio da antiga Aliança; e mais, Ele é o único e eterno Sacerdote.

A função do sacerdote era servir de intermediário entre Deus e o homem, assegurar as boas relações entre Deus e o povo.
Sabemos como essa função sagrada se deteriorou até chegar a converter-se em meros ritos externos, como podemos ver em tantos textos proféticos.

Nosso autor dirige sua atenção aos dois elementos que constituem a essência do sacerdócio: uma pessoa que tenha crédito para as relações com Deus e seja solidária com os homens. Se falta um desses elementos, não há sacerdócio, porque falta “intermediário”. Jesus tem direito ao título de Sumo Sacerdote porque é Filho de Deus e irmão nosso “provado em tudo, sem todavia pecar” (4,15).

Cristo superou os limites em sua obediência ao Pai e em sua solidariedade com os homens. Embora fosse Filho, Jesus aprendeu a obediência pelo sofrimento; há, pois, uma correlação entre sofrer e aprender, correlação que já os gregos exprimiam no trocadilho páthos-máthos, sofrimento é escola.

A teologia de Hebreus pede ser resumida em uma declaração tríplice da atuação de Cristo, que corresponde às três divisões principais do sermão:

Primeiro: Cristo é visto como a nova palavra de Deus, a comunicação de Deus à humanidade em um novo estilo pessoal. É palavra expressa na vida e morte de um ser humano que é também Filho de Deus.

Segundo: Cristo atua como o sumo sacerdote único e eterno cujo sacrifício na morte expia o pecado para sempre, estabelece uma nova aliança e proporciona um novo acesso a Deus.

Terceiro: o discernimento que Cristo tem do mundo celeste de Deus é o modelo de fé que os cristãos precisam para perseverar na esperança. É um notável perfil da fé cristã que se concentra na pessoa e no papel do próprio Cristo.

Da Bíblia Sagrada da Universidade de Navarra tiramos as seguintes reflexões:

Dentro do motivo cristológico da carta, se sobressaem especialmente importantes observações sobre a relação entre judaísmo e cristianismo, a fé e a revelação, a doutrina das realidades últimas e a vida cristã no mundo, caminho para a eternidade.

Judaísmo e Cristianismo

A relação ente as duas religiões positivas - judaísmo e cristianismo -, ou sejam entre as duas que contêm a Revelação sobrenatural, como preparação e culminação do desígnio salvador de Deus, respectivamente, não é considerada só do ponto de vista da defesa da fé cristã. A argumentação da carta não aponta para uma desqualificação religiosa do judaísmo, mas unicamente para lhe designar o lugar preparatório que lhe corresponde no plano divino de salvação.

A idéia central da epístola é que a Lei mosaica é impotente para salvar o homem caído em Adão. Proclama-se neste sentido a caducidade religiosa da Lei Antiga, abolida por Cristo e substituída pela Lei Evangélica, que é lei de graça, liberdade e exigência interior. Foi este precisamente o grande esclarecimento dogmático do Concilio de Jerusalém. Tal como se narra em At 15, estabelece-se nessa primeira assembléia que não é preciso cumprir os ritos da Lei mosaica para salvar-se, e que conseqüentemente os batizados procedentes da gentilidade não estão obrigados a observá-los para ser cristãos. A carta tem muito em conta estes pressupostos e de alguma maneira desenvolve-os.

A superioridade do Novo Testamento relativamente ao Antigo - que é patente, não só pela doutrina sobre Cristo, mas também pelo ensino sobre os sacramentos e o sacrifício e pelo constante testemunho dos Apóstolos - não afeta, contudo, a unidade de ambos. Sobretudo através da utilização de figuras ou tipos do A T. Todas as figuras da Antiga Aliança olham para Cristo e esperam nEle. Tanto Moisés como Melquisedec são “tipos” do Messias e Sacerdote da Nova Lei, respectivamente.

O cristianismo é, portanto, culminação do judaísmo, de modo que, isolada do Evangelho, a religião mosaica torna-se ininteligível.O princípio dogmático que aqui se enuncia encerra, como é lógico, múltiplas conseqüências, não só para entender a história da salvação e a compreensão teológica do judaísmo, mas também para a vida dos convertidos, aos quais a carta parece dirigir-se.

Fé e Revelação

A carta aos Hebreus é uma “palavra de exortação” (13,22) a perseverar na fé. Ainda que sejam numerosos os lugares em que se trata desta virtude, Hb 11,1, oferece uma concisa mas rica definição de fé: “ A fé é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem”.
Esta definição se tornou clássica nos comentários dos Padres e Doutores da Igreja. A fé, segundo se expõe na epístola, é entendida como hábito, como disposição que move a manter a fidelidade ao que Deus manifestou.

A fé, com efeito, assenta em Jesus, “iniciador e consumador da fé” (12,2). Ele é a causa da nossa fé e nEle cremos em primeiro lugar. Ele é quem, como autor da graça, infunde em nós essa virtude. Partimos da fé em Jesus e chagaremos à contemplação do Seu rosto na Pátria definitiva. No Céu a fé se transformará em glória. Daqui nasce a sua estreita vinculação com a esperança.
Fé em Cristo, no Seu sacrifício, na Sua Ressurreição e glorificação, são o ponto de apoio da esperança cristã. Cristo penetrou nos céus, abrindo assim o caminho a todos os homens.
Por isso, vale a pena sofrer, vale a pena resistir à tribulação.(10,19ss)

Mas a fé em Cristo é fé na Revelação, porque Cristo é a máxima Revelação do Pai. Deus manifestou-nos o Seu próprio Filho, a Palavra perfeita do Pai, que falou aos homens (1,1-2). A fé em Cristo exige, portanto, não só a fé na Sua pessoa, mas também fé nos Seus preceitos e ensinamentos. Daí que as numerosas exortações de caráter moral entrelaçadas com as de caráter dogmático sejam conseqüências que surgem da fé no Filho de Deus e no que Ele nos revelou.

Cristologia

A doutrina relativa a Jesus Cristo, que predomina na carta, apresenta uma grande riqueza e ao mesmo tempo uma marcada simplicidade. O autor sagrado expõe a doutrina sobre a Redenção universal operada por Jesus Cristo Mediador, mediante o Sacrifício da Cruz e o derramamento do Seu sangue. Cristo é ao mesmo tempo a vítima perfeita que expia todos os pecados dos homens e verdadeiro Sumo Sacerdote que oferece a Deus Pai o culto agradável, verdadeiro e eterno. Nos versículos iniciais a carta enuncia a preexistência do Verbo, Sua atividade criadora e a Sua igualdade com o Pai (1,1-3). Como pressuposto imprescindível da Sua atividade redentora temos a consideração de que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O divino e o humano nunca aparecem justapostos, mas como realidades inseparáveis do ser divino e humano do Senhor. Só aparece a única Pessoa do Verbo encarnado, do Filho de Deus, que em todas as ocasiões e em todas as ações cumpridas na terra manifesta a Sua única condição de Deus feito carne.

Sendo o Sacerdócio de Cristo superior aos Anjos, ao legislador da Antiga Lei e ao sacerdócio levítico, isto lhe permite redimir com superabundância o gênero humano. A redenção operada por Cristo é um remédio universal para uma necessidade universal.

Só Cristo é o verdadeiro e Sumo Sacerdote e só o Seu é verdadeiro sacerdócio, ou seja, um sacerdócio cuja mediação tem a capacidade de apagar os pecados. A partir de então, todo o verdadeiro sacerdote o será apenas se tem o chamamento e a unção sacerdotal, que vem de Jesus. Não se chega ao sacerdócio pela herança ou pelo nascimento dentro de uma tribo, mas por vocação e chamamento livre do Senhor, único Sacerdote do Novo Testamento.

O Sacrifício de Cristo é irrepetível e produziu os seus efeitos salvadores de uma vez para sempre. Não pode já repetir-se, dada a sua eficácia infinita. Na Santa Missa atualiza-se incruentamente o mesmo Sacrifício da Cruz: Jesus Cristo “renova” o oferecimento ao Pai que fez “de uma vez para sempre”.

Além de apresentar a figura e obra de Jesus Cristo sob o ponto de vista do Seu Sacerdócio eterno e de desenvolver, portanto, as conseqüências dos títulos de Sacerdote e Mediador, a carta aplica a Cristo quatro títulos principais: Filho, Messias, Jesus e Senhor. Têm um sentido ontológico, ou seja, manifestam algum aspecto do ser de Cristo. Carta refere-se igualmente ao Senhor noutros lugares com as denominações de Santificador, Herdeiro, Mediador, Pastor e Apóstolo, esta última única em todo o Novo Testamento.

Escatologia

A doutrina sobre as últimas realidades ou novíssimos do homem ocupa na carta um lugar aparentemente secundário, porque as afirmações teológicas sobre estas verdades fazem-se a propósito de outros assuntos. Mas a escatologia penetra todo o escrito.

O cristianismo tem duas dimensões: é algo já iniciado aqui na terra, mas que encontrará a sua perfeita realização só no Céu. A terra prometida a Abraão era certamente a Palestina, mas não só isto. Era muito mais. Era a graça de Cristo, que é penhor de Glória futura. Portanto, a terra prometida, na qual todos somos chamados a entrar, é o Céu.

A tensão para as realidades do mais além está presente ao longo de toda a epístola. É um modo de apresentar a vida do cristão, como um caminho a partir da salvação já realizada, mas ainda não consumada, para o Reino da cidade futura, cujo construtor é Deus (11,10; 12,8) e cuja cabeça é Jesus. A carta fala com freqüência da segunda vinda de Cristo ou Parusia, como Juiz de vivos e mortos (10,25). Anuncia também o juízo futuro (10,27) e refere-se à renovação final do mundo(12,26-28).

A vida temporal do cristão

A existência cristã no mundo concebe-se e ensina-se como uma peregrinação para a Pátria celestial, até entrar no “repouso” de Deus. Fiel a esta perspectiva da vocação cristã, a carta acentua com freqüência as virtudes da fé e da esperança. O caminho para a Pátria, em que não faltarão dificuldades e obstáculos, leva-se a cabo com Cristo como guia.

Textos seletos

1,5-14 O Filho é superior aos anjos.
3,1-6 O Filho é superior a Moisés, que não era mais do que um servidor fiel, ao passo que Cristo é o Senhor da casa.
7,1-28 Melquisedec. O sacerdócio de Cristo é mais agradável a Deus e mais útil aos homens do que o levitico.
8,7-13 A primeira aliança, imperfeita e provisória.
9,1-18 O sacrifício de Cristo, eficaz e definitivo.
11,1 Definição de fé.
13,8 Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje; ele o será para a eternidade.

Assim como a carta aos Hebreus exorta seus leitores a serem firmes na fé, peçamos a Deus que também nós consigamos isto, apesar das dificuldades do mundo atual, lembrando que Jesus é o mesmo ontem, hoje e sempre.

Jane do Tércio

 
 
 

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