Cristologia (19) - A figura de Cristo na Carta aos Hebreus
Num contexto escatológico e no o intuito de exortar os fiéis a perseverar no fervor da caridade, o autor da Carta aos Hebreus apresenta a figura de Jesus Cristo na condição de Caminho "novo e vivo" (10,20) que o fiel deve percorrer. Ele é o nosso irmão, na condição de adão verdadeiro que Deus Pai coroou "de honra e de glória" (2,9), depois de tê-lo levado à perfeição, pelo sofrimento.
No momento da ressurreição, o consagrou Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, quando respondeu aos seus clamores e súplicas, e a ele disse: "Tu és meu Filho, eu hoje te gerei" (5,5). Um sacerdócio do qual o da Antiga Aliança era figura, porque Jesus entrou uma vez por todas no Santuário do Céu, com o seu Sangue, onde intercede por nós. Não era assim do antigo sumo sacerdote que, no Santo, devia oferecer sacrifícios, primeiro, para os seus pecados, para entrar, depois, a cada ano, no Santo dos Santos, com o sangue dos animais, que, contudo, não é capaz de tirar os pecados. Coroado de honra e glória, Jesus, realizada a redenção "sentou-se à direita da Majestade, no mais alto dos céus" (1,3). Ele é o Filho que se tornou herdeiro de todas as coisas. Com ele herdaremos os bens futuros se tornarmos a nossa vida um sacrifício semelhante àquele que Cristo ofereceu sobre a Cruz. Para isso, não devemos "desertar as nossas assembléias, com alguns costumam fazer" (10,25). Pelo contrário, é pela contemplação de Jesus Cristo na sua glória, merecida pelos seus sofrimentos, que evitamos de nos tornar lentos na compreensão e, conseqüentemente, nos tornamos capazes de evitar o desânimo.
Se existia no ânimo dos seus interlocutores, de origem judaica, um saudosismo pela grandiosidade dos ritos do templo de Jerusalém, o Autor da Carta os exorta a abandoná-lo e a considerar que é exatamente fora da Cidade que se encontram as carnes do sacrifício do qual devemos nos alimentar (13,10-13). Em Jesus se realizam as profecias porque ele é de condição divina, o "Resplendor da Glória de Deus, a Expressão do seu Ser", a Providência que sustenta o universo do qual é o Criador (1,3). É nessa condição que leva à perfeição a humanidade assumida e que a efusão do seu sangue obtém a remissão dos pecados, e nos purifica, enquanto, respondendo à ação do Espírito Santo, cultivamos em nós os seus dons até uma esperança que não será confundida. A dignidade do sacerdócio de Cristo e a sua eficácia nos motivam profundamente a viver na perseverança, à semelhança de muitos homens de fé que aceitaram até derramar o seu sangue, certos de chegar à posse definitiva de bens superiores. Devemos ter o cuidado de escutar Aquele que nos fala pelo Filho. Os que saíram do Egito, não obstante tivessem visto as obras que Iahweh realizou em seu favor, por ter endurecido o seu coração, não entraram no repouso prometido.
Devemos evitar que isso aconteça para nós. Herdeiros de um Reino inabalável, não podemos negligenciar tão grande graça, anunciada, primeiramente pelo mesmo Jesus Cristo e, depois, a nós transmitida pelos Apóstolos. Iluminados pelo Espírito, depois de ter pressentido os bens futuros, enquanto degustávamos a Palavra de Deus, nossos olhos fixos em Jesus que deu o seu testemunho até o derramamento do sangue, corramos para o combate contra o pecado (12,1s), procurando nos purificar sempre mais no Sangue de Cristo, a partir da celebração da sua Morte, pelo louvor dos nossos lábios (13,15). Pela perseverança, chegaremos à esperança que não será confundida, porque será como uma âncora lançada além do véu, "onde Jesus entrou por nós, como precursor, feito sumo sacerdote para a eternidade, segundo a ordem de Melquisedec" (6,20).
Perguntas para uma reflexão:
1. De que maneira o cristão percorre o "Caminho novo e vivo" que Jesus traçou com a sua vida?
2. De que forma Jesus Cristo levou a sua humanidade à perfeição?
3. Por que o sacerdócio de Cristo é superior ao da Antiga Aliança?
Pe. Fernando Capra/CRSP |