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"Quem Deus convida para salvar o seu povo?”

No início de 2004, durante uma palestra onde eu abordava o tema da "construção da cidadania", um episódio envolvendo uma indagação de um jovem muito me marcou. Ele me perguntou se eu não achava que Deus era muito perverso ao permitir que o seu povo sofresse tanto com a fome e a miséria no mundo.

Logo em seguida a pergunta do jovem, veio em minha mente um ensinamento de um grande professor de Física que tive:
Respondi, sem vacilar, que Deus fazia isso porque, conforme havíamos aprendido na física, o som não se propaga no vácuo.
Algumas pessoas que também participavam da palestra riram, outras me olharam com estranhamento e a grande maioria, provavelmente, achou que eu tinha ficado louco. Depois da confusão inicial que a minha resposta provocou, eu fiz questão de aprofundar o tema, seguindo fielmente os ensinamentos daquele grande professor que tive em minha vida secundarista.

Ao analisarmos a forma como a Graça de Deus se manifesta em nossas vidas, perceberemos que ela, assim como o som, precisa de um "meio" para se difundir. Sem as moléculas do ar, o som não teria como se propagar. De maneira análoga, o meio de propagação da Graça Divina somos todos nós. Cabe lembrar aqui a forma como Deus resgatou o seu povo da escravidão do antigo Egito: Ele enviou Moisés para essa importante missão. E hoje?
Quem Deus manda para resgatar o seu povo da miséria e do sofrimento? Nós. Somos, sem sombra de dúvida, um dos meios de propagação e manifestação da Graça de Deus ao próximo.

Quantas vezes não somos surpreendidos ao sermos "anjos" na vida de alguém? Uma palavra ou um pequeno gesto que praticamos acabam se tornando de grande valor para quem se beneficia dele. Entretanto, todos estes gestos e atitudes, por menor que possam vir a ser, são frutos de uma escolha. De uma decisão. Decisão de servir ao próximo.

Como a própria palavra sugere, decisão pressupõe a ruptura com uma escolha para abraçar outra. E essa ruptura para o nosso exemplo é abrir mão, muitas das vezes, de alguma coisa pessoal. Romper com o individualismo e com o egoísmo para nos dedicarmos um pouco a esse próximo.

Essa ruptura é mais do que necessária. É essencial. É ela que faz com que nós, membros de uma sociedade consumista e individualista, transformemos a realidade que está em nossa volta. E essa transformação passa pela decisão de servir.

Um bom exemplo onde podemos exercitar essa escolha pelo próximo é a política. Quais os critérios que utilizamos para escolher um determinado candidato? Pessoais ou coletivos? Um excelente exemplo neste contexto é a própria educação. Todos nós sabemos muito bem que a educação é a chave para a transformação da nossa sociedade. Porém, quando escolhemos os nossos políticos, muitas das vezes valorizamos mais a nossa rua asfaltada do que aqueles mandatários que se dedicaram de corpo e alma pela boa remuneração dos professores. Ao fazermos essa escolha pautada única e exclusivamente no nosso benefício pessoal interrompemos esse canal de propagação da graça divina. Fazemos, conforme vimos acima, a decisão pelo individual. E isso, definitivamente, não é a opção que o próprio Cristo nos deixou nos Evangelhos.

É claro que, conforme já refletimos em outras colunas, o voto é apenas a ponta do iceberg. A participação ativa do cidadão através dos grupos de cidadania ativa (pastorais sociais, movimentos sociais, sindicatos, conselhos municipais e até mesmo os partidos políticos) são elementos-chave para a propagação desta graça divina e, consequentemente, tornam-se instrumentos de transformação da nossa realidade. Mas, o voto também é importante. E mais importante ainda é pautarmos sempre os nossos critérios de escolha no coletivo, ou melhor ainda, no próximo, principalmente naquele que mais precisa e que é a opção preferencial de Cristo nos Evangelhos: O pobre marginalizado e excluído. Somente assim é que conseguiremos trazer o Reino do Pai até nós.

Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

Robson Campos Leite
Email : feepolitica@terra.com.br


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