E MAIS UMA VEZ AMANHECERÁ. E a aurora vencerá a noite
de trevas que pareciam não ter mais fim. Mais uma vez o brilho
da luz prevalecerá sobre o lusco-fusco repelente e obnubilante
que não permitia distinguir contornos e limites e amalgamava
tudo e todos em indistinta confusão. Mais uma vez o espírito
dará movimento e agilidade à argila que sem ele se converteria
em lama desfeita e deteriorada, escorrendo em perpétuo declive.
No primeiro dia da semana novamente iremos, homens e mulheres, atemorizados
e traumatizados por tanta morte e tanta dor em busca do cadáver
daquilo que foram nossos sonhos e utopias, nossos anseios e mais caros
desejos. Novamente estaremos convencidos de que tudo que nos resta
é sepultar nossas esperanças. E de novo, e uma vez mais,
nossa desolação será defraudada pelo pasmo de
encontrar a pedra afastada, o túmulo aberto; e pela alegria
cheia de espanto de ouvir o anúncio embriagador: "Por
que buscar entre os mortos aquele que está vivo?".
Mais uma vez a passagem se terá dado, da morte para a vida.
E a Páscoa terá sido celebrada. E aqueles que crêem
terão dito amém e cantado aleluia. E os que não
crêem terão continuado a viver o mistério original
e irrepetível que foi sonhado para eles e para ninguém
mais. Novamente o fogo terá acendido o círio que acenderá
as velas uma a uma, iluminando a noite e os corações
e desatado as línguas para o canto de louvor que proclama a
vida que jamais tem fim.
O saldo que levamos sobre os ombros é carga de decepções
amargamente mastigadas, de promessas não cumpridas
A celebração da Páscoa terá acontecido,
uma vez mais, para lembrar-nos que nossas vidas são sustentadas
pelo tênue e sutil fio da esperança. E descobriremos
dentro de nós mesmos que essa virtude que parecia haver secado
e morrido por falta de condições de existência
ali está, intacta, inteira, dando-nos leve e discretamente
o alento sem o qual não poderíamos continuar respirando
e vivendo.
Os tempos que vivemos têm desfechado duros golpes sobre esta
virtude tão discreta quanto difícil de viver. As evidências
teimam em realizar diante de nossos olhos macabra dança que
vai derrubando nossas ilusões e convicções. E
o saldo que levamos sobre os ombros é uma insuportável
carga de decepções amargamente mastigadas e engolidas,
de promessas desavergonhadamente não cumpridas, de desenganos
assassinos que matam sem misericórdia toda a nossa capacidade
de ainda confiar e acreditar.
Na esfera pública e na privada, no nível macro e no
micro, a ordem parece ter se desordenado de uma vez por todas. Os
marginais fazem a lei e os que deviam salvaguardar a ética
e o bem comum são os primeiros a pisoteá-los. Os filhos
maquinam e executam o assassinato dos pais. As mães atiram
os bebés nascidos de seu ventre na lata do lixo ou nas águas
da lagoa ao encontro da morte. Os políticos usam o poder recebido
pelo voto para aumentar os próprios salários e fazer
conluios milionários que os enriqueçam à custa
do sangue e suor de milhões de honrados trabalhadores. Os anciãos
são desrespeitados, as crianças têm sua inocência
conspurcada, os jovens são aliciados e corrompidos pelo trafico
criminoso e degradante. Mulheres são agredidas e espancadas,
homens de bem perdem a dignidade por não conseguir ganhar seu
sustento com trabalho digno honesto.
Governantes declaram guerras unilaterais. Pessoas explodem o próprio
corpo e supermercados, lanchonetes, lojas, templos e santuários
voam pelos ares despedaçando corpos e vidas em chacinas inclementes
e inexplicáveis. Armas potentes destroem populações
inteiras, países inteiros, fazendo vítimas inocentes
mais numerosas que as areias da praia e as estrelas do céu.
Poluem-se rios e derrubam-se árvores; matam-se peixes e exterminam-se
espécies, ameaçando a sobrevivência do ecossistema
e, em conseqüência, de todo o universo, incluída
a humanidade.
E, no entanto, mais uma vez, será manhã de Páscoa.
Mais uma vez a esperança que o talento do poeta chamou de "equilibrista"
realizará seus malabarismos na corda bamba da vida humana.
E todos seremos chamados a sair de nosso cego desespero e abrir os
olhos para ver a poderosa ação do Deus da vida que uma
vez mais nos afirma, com a ressurreição de Jesus Cristo,
que vale a pena esperar.
Maria Clara L. Bingemer - Teóloga
(texto retirado do JB) |