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Carta aos Efésios (2)
Estrutura
Como todas as cartas de Paulo, também esta começa
com uma saudação e bênção. Segue-se
o corpo da carta, onde se pode distinguir com clareza duas partes:
A primeira centra-se no mistério da obra salvadora de Cristo
e da Igreja. Em um caráter eminentemente expositivo, pelo
que se costuma chamar parte dogmática. Está enquadrada
entre um amplo hino de bênção a Deus pelo projeto
de salvação, e uma doxologia, ou louvor breve, pelo
modo como Deus realizou os seus projetos (cf. 1,3-3,21). A segunda
parte, pelo contrário, consiste numa série de exortações
para progredir na vida cristã, de acordo com a doutrina exposta
na primeira parte. Considera-se, por isso, a parte moral da Epístola
(cf. 4,1-6,22).
1,1-2 Saudação inicial e bênção.
1a parte: 1,3-3,21 - O mistério da salvação
e da Igreja. Vocação dos hebreus e dos pagãos
ao Corpo de Cristo.
1,3-14 - Contemplação do plano divino da salvação.
A celebração da graça ilimitada de Deus.
1,15-23 - Triunfo e supremacia de Cristo: Senhor do universo e Cabeça
da Igreja.
2,1-10- Da morte à vida. Evoca a grande viravolta operada
em Jesus: o que estava morto está vivo.
2,11-23 - Unidade por Cristo. A reconciliação dos
judeus e dos pagãos entre si e com Deus, em um só
Corpo. O que estava dividido e alienado acha-se reconciliado.
3,1-13 - Revelação da posição de Paulo
no desígnio de Deus. Paulo, ministro do mistério de
Cristo.
3,14-21 - O amor de Cristo. Oração de adoração
e que canta o amor incomensurável de Cristo.
2a parte: 4,1-6,20 - Exortação a um comportamento
virtuoso. A vida cristã na pratica e a militância;
exortação que decorre da celebração.
4,1-16 - Apelo à unidade do Corpo chamada a viver em comunidade,
evocando a edificação e o crescimento do Corpo de
Cristo graças aos mistérios que lhe são dados.
4,17-5,5 - Conduta cristã; a vida nova em Cristo. Moralidade
individual; convite a abandonar a antiga maneira de viver para abraçar
a nova.
5,6-20 - Passagem das trevas para a luz no reino da luz. Relações
sociais.
5,21-33 - Exposição sobre a união conjugal
de Cristo com sua Igreja. Moral doméstica: marido e mulher.
6,1-9 - Filhos e escravos.
6,10-20 - O combate espiritual; a luta contra o mal. Apelo a envergar
a armadura do cristão para sustentar o combate contra as
potencias celestes.
6,21-24 - Bênção, notícias pessoais e
saudação final. Despedida e conclusão.
Doutrina
O tema central da Epístola aos Efésios é o
desígnio de Deus (o mistério), fixado desde toda a
eternidade, oculto durante séculos, realizado em Jesus Cristo
revelado ao apóstolo, desenvolvido na Igreja. Integrados
pelo batismo no Corpo, no qual estão reunidos Israel e as
nações pagãs, os cristãos se tornam
criaturas novas, pelo louvor, o conhecimento e a obediência.
Eles figuram como núcleo central da reunificação
do universo.
A carta é uma mensagem didática que desenvolve uma
cristo-logia semelhante à de Colossenses. Cristo é
o chefe da huma-nidade remida que reuniu gentios e judeus dentro
da mesma Igreja, o Corpo de Cristo. Sob este ponto de vista o autor
compõe uma profunda eclesiologia, com novos aspectos.
Cristo não vive só em cada um dos cristãos;
Ele é cabeça da Igreja de hebreus e pagãos
(1,3-3,21), mais ainda, cabeça de toda a humanidade, Senhor
da história e da todas as dimensões do cosmo. Na doutrina
de Efésios se destacam o magnífico plano de Deus em
Cristo e a união de todos os redimidos na Igreja.
A doutrina sobre a Igreja está no centro da carta. A Igreja
é apresentada como universal, tendente a abranger todos os
homens, sem distinção de judeus e gentios (2, 11;3,5s).
Esta afirmação clara encontra os seus precedentes
nas grandes cartas (Rm 3,21ss.30; 10,12; 11,11-18; Gl 3,27ss; 1
Cor 12,12ss) embora, pelos objetivos diferentes dessas epístolas,
freqüentemente com fundo polêmico, a realidade se considere
sobre outro prisma e de maneira menos explícita do que em
Efésios. A Igreja, na qual gozam de iguais direitos judeus
e gentios, forma o Corpo de Cristo (Ef 1,23; 4, 12.16; 5,30); dela
é cabeça o próprio Cristo glorificado (1,22;
4,15; 5,23). A esta concepção Paulo chegou por várias
fases, se assim podemos falar, das quais existem traços nas
grandes cartas: os cristãos formam um único Corpo
em Cristo (Rm 12,5); os cristãos formam (o) Corpo de Cristo
(1 Cor 12,27).
A Igreja é definida ao mesmo tempo como sendo o povo de Deus
e o Corpo de Cristo. Aliás, Efésios não entra
em nenhuma especulação cosmológica: a revelação
divina é concedida, não sob forma de teoria ou sistema,
mas na e pela comunidade cristã, explicitação
do "mistério".
O Cristo glorioso, cósmico e eclesial. A morte e ressurreição
de Jesus não são mais entendidas como primeira etapa
de sua nova vinda para firmar seu reino messiânico (cf. At
1,6). Seu reino já existe, na sua glória que se expande
sobre o universo. Ele está no meio de nós, na vida
cristã que vivemos agora. Daí o caráter eclesial
deste Cristo: ele é a cabeça e nós somos o
corpo, através do qual ele está presente no mundo,
não como messias em poder, mas de outra maneira.
Embora partilhe com Colossenses o interesse na descrição
do Cristo universal, a Epístola aos Efésios destaca-se
entre os escritos neotestamentários, por sua descrição
da Igreja como uma, santa, católica e apostólica.
Este ensinamento sobre a natureza da Igreja é a principal
contribuição de Efésios.
No princípio, Paulo falava de "Igreja" em termos
da comunidade local, já em Efésios, escrevendo em
um período mais tardio, viu as igrejas se desenvolverem em
uma instituição que ele chama de "a Igreja",
que é o corpo universal (isto é, católico)
de Cristo, sendo sua cabeça o próprio Cristo. Á
maneira de exortação circular a carta propõe
ao cristão viver em unidade, aceitar o Cristo como cabeça
e fundamento da Igreja (Ef 2,11-17; 4,12-16) e difundir as mensagens
da reconciliação (Ef 1,9-10; 2,11-22; 3,3-10).
Apesar de não fazer distinção entre a cabeça
e o corpo quando falava do "corpo de Cristo", Paulo salientava
a unidade do todo, embora notasse a diversidade das partes. Efésios
aplica esses discernimentos aos conceitos da Igreja universal, mas
a ênfase está, claramente, na unidade. O autor realça,
em particular, a unicidade de judeu-cristãos e pagão-cristãos
no corpo de Cristo, a Igreja. Estão unidos pela paz reconciliadora
de Cristo obtida pelo derramamento redentor de seu sangue na cruz.
Purificada pela ação redentora de Cristo e participando
dessa redenção pela purificação do batismo,
a Igreja tornou-se santa, sem pecado, sem mancha e sem ruga. Isso
já aconteceu e, então, a idéia do fim iminente
do mundo ficou para trás e não é de interesse
nessa carta.
Os primeiros aos quais o mistério foi revelado foram os apóstolos.
Efésios destaca a missão e função apostólicas.
A Igreja é também apostólica. Efésios
relembra com reverência o tempo dos "santos apóstolos".
Empregando imagens edificantes, fala do papel deles como o fundamento
sobre o qual a Igreja foi construída, tendo Cristo como pedra
mestra. No tempo em que foi escrito, no fim do século I d.C.,
era importante salientar a continuidade com a tradição
apostólica e as origens da fé em face de algumas formas
esotéricas e apocalípticas de cristianismo que, em
pontos importantes, se afastavam do ensinamento tradicional.
O mais importante desta carta é sua riqueza temática.
Se a carta aos Colossenses é cristológica, esta é
eclesiológica. Ambas as coisas se implicam, mas muda o peso
relativo. Deus tinha um plano, escondido durante séculos
e revelado agora, executado em e por Jesus, desenvolvido na e pela
Igreja. Uma Igreja universal, nova criação e humanidade
unificadas, edifício compacto e corpo em crescimento. Mais
que pela soma de Igrejas locais, ou pela coexistência de judeus
penitentes e pagãos convertidos, a unidade se realiza derrubando
muros, abolindo diferenças, infundindo o Espírito
único. A Igreja é povo de Deus e esposa do Messias.
Já são espera uma parusia iminente, mas se empenha
no constante crescimento. As categorias jurídicas cedem lugar
às místicas.
Doutrina mais relacionada com a parte moral da carta:
A parte moral da carta (4,1-6,20) banha-se ainda na luz da sublime
doutrina precedente. Paulo faz antes de tudo um apelo à unidade
(4,1-16). A discórdia entre cristãos (4,1-3) opõe-se
à unidade que deve emanar do único Espírito,
do único Senhor, da única fé e único
batismo, do único Pai de todos (4,4-6).
As regras para a vida familiar (5,21-6,9) compreendem a magnífica
passagem sobre o matrimônio cristão, ponto culminante
do ensinamento neotestamentário sobre o casa-mento (5,22-35).
A carta apresenta a relação Cristo-Igreja como arquétipo
do matrimônio cristão, e é precisamente em vista
do arquétipo (explica ele) que a esposa deve ser sujeita
ao marido. O exemplo da sujeição da Igreja a Cristo,
que é o Salvador da Igreja, deve colocar claramente a recomendação
na perspectiva correta. E os maridos são exortados a amar
suas esposas, não de qualquer maneira, mas à maneira
de Cristo. Contra este fundo a "sujeição"
da mulher é compensa-da, e até bem contrabalançada,
pelo amor do seu marido.
As afirmações sobre Cristo, cabeça do universo,
tornam-se afirmações sobre a Igreja. O tema do corpo,
estreitamente mesclado com o da casa de Deus, recebe a sua última
formulação e se enriquece com o novo desenvolvimento
sobre o mistério da união de Cristo com sua Igreja,
modelo da união conjugal, em que se exprimem a soberania
de Cristo e a responsabilidade da Igreja.
Um último ponto de destaque é em relação
à ética para a vida no mundo em vez de "parusia
já!" A demora da volta de Cristo obriga os fiéis
a construir uma casa neste mundo. Daí uma pregação
moral bastante realista: a estabilidade da família faz também
parte do mistério do amor de Cristo. No lugar da exortação
a nos prepararmos para o Juízo vem a exortação
ao combate militante (6,10-20) em todas as dimensões da vida
cristã.
Textos Seletos
1,3-14 - Hino de ação de graças à Trindade
que tem seme-lhança com os prefácios da Missa. Consta
de três estrofes, terminadas pelo refrão "para
louvor e gloria da sua graça" (1, 6.12.14). A primeira
estrofe conta a obra do Pai (1,3-6 a); a segunda estrofe louva a
obra do Filho (1,6b-12) e a terceira estrofe se volta para a ação
do Espírito Santo (1,13-14).
2,1-10 - A vida nova em Cristo.
3,14-21- Oração para que os fiéis compreendam
o mistério.
4,1-16 - A unidade cristã é uma realidade. Estamos
unidos por uma fé, uma vida, um compromisso e um fim comuns.
É a eclesiologia paulina "há um só corpo
e um só Espírito, um só Senhor, uma só
fé, um só Deus e Pai de todos". Servimos a um
só Senhor. Ele é a cabeça e nós somos
os membros de um único corpo.
5,21-6,9 - A mulher cristã é fiel e respeita o marido.
O marido cristão cuida da mulher com amor desinteressado.
Um depende do outro e ambos imitam a Cristo. Seu relacionamento
é um reflexo do relacionamento existente entre Cristo e a
Igreja.
5,32 - A união física entre marido e mulher ilustra
a união espiritual vigente entre Cristo e a Igreja. Matrimônio
inserido no mistério de Cristo e da Igreja.
6,10-17 - A armadura do cristão que nos ajuda a resistir
às insídias do diabo.
Peçamos a Deus para nunca nos esquecermos, conforme a Campanha
da Fraternidade nos lembra, que não há diferenças
entre nós "... num só Espírito temos acesso
junto ao Pai" (2,18).
Peçamos também a Deus que nos permita continuar a
anunciar às pessoas "a insondável riqueza de
Cristo" (3,8), na certeza de estarmos vestidos da "armadura
de Deus" (6,10-13). Finalmente agradeçamos a Ele por
tais graças.
Continua no próximo número
Jane do Térsio
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