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Cartas de Paulo (8)

Contexto histórico

A presença de judeus em Roma era bastante notável. Em 63 a.C. Pompeu conquistou Jerusalém e deportou para Roma prisioneiros judeus. Com o tempo, muitos desses conseguiram a liberdade e fixaram residência em Roma. Por ocasião do primeiro Pentecostes cristão, muitos judeus de Roma se achavam na cidade santa (At 2,10). Convertidos ao Evangelho regressaram à Roma, onde deram origem a um núcleo de cristãos provenientes do judaísmo.

Esta comunidade deve ter sido confirmada pela fé do Apóstolo Pedro. Segundo alguns autores Pedro já teria estado em Roma antes que Paulo escrevesse a sua epístola aos cristãos daquela comunidade. Chegam a afirmar um ministério petrino de 25 anos. Já outros autores dizem que não se pode afirmar com certeza o tempo e as circunstâncias da sua fundação e os nomes de seus fundadores. O fato é que quando Paulo escreve a carta aos Romanos já existia lá uma Igreja numerosa, bem organizada e famosa por sua fé (Rm 1,8; 15,14; 16,16.19).

Em 49/50 o Imperador Cláudio expulsou de Roma judeus que provocavam tumultos por causa de Cristo. Isto deve ter diminuído sensivelmente o número de judeus-cristãos em Roma. Depois que Cláudio morreu, por volta de 54, os judeuscristãos que voltaram à Roma surpreenderam-se ao encontrar um grande número de pagãoscristãos: os convertidos haviam se multiplicado.

Assim, a Igreja cristã romana à qual Paulo enviou esta carta era predominantemente pagão-cristã. E ele se apresenta como "Apóstolo dos gentios" em sua carta (Rm 1,5; 11,13) e ministro de Cristo Jesus entre os pagãos (Rm 15,16). Paulo sabia que existia alguma tensão entre os cristãos provenientes do judaísmo e os convertidos do paganismo, que parecem desprezar os primeiros, correndo o risco de se desentenderem. Por isso canta admiravelmente as glórias de Israel, a oliveira na qual foi enxertado o ramo silvestre (Rm 11,17-25). Na carta expõe sua solução do problema judaismo-cristianismo, tal como ela acaba de amadurecer devido à crise gálata. Para isso, retoma as idéias de Gálatas, mas de modo mais ordenado e matizado.

Paulo tinha por princípio, em sua vida missionária, não intervir na vida de comunidades que outros haviam evangelizado (2 Cor 10,13-16). Todavia o caso da Igreja Romana lhe parecia diferente: Roma era a capital de um império pagão que se estendia da Inglaterra à Arábia. Era rica, cosmopolita, o centro político e comercial do mundo conhecido, ponto de encontro entre os povos. Consciente da sua missão de anunciar a fé entre os gentios (Gl 1,15s; Rm 1,14s; Ef 3,8s), Paulo julgava que devia chegar até Roma e mesmo até a Espanha (que marcava os limites do império romano e da terra habitada). Do coração do império seria mais fácil irradiar por toda parte a luz do Evangelho. Já no fim da sua permanência em Éfeso (56), o Apóstolo concebeu o projeto de ir até Roma (At 19,21); depois passaria para a Espanha (Rm 15,23s).

Com este objetivo, Paulo quis preparar sua visita aos cristãos de Roma mediante uma carta (Rm 15,23s.28s) que lhe daria oportunidade de se apresentar à comunidade que em sua maior parte não o conhecia pessoalmente. Por tudo isso, Paulo escreve com certo atrevimento (Rm 15,15) a pessoas que já tinham recebido a pregação de outros (Rm 15,20). Quer preparar a sua viagem para o Ocidente e quer que os cristãos de Roma o ajudem (Rm 15,24), talvez com um pouco de dinheiro e com cartas de apresentação. Mas, sobretudo, quer estar com eles para os fortalecer na fé (Rm 1,11-12; 15,32), para receber a consolação da sua fidelidade e também para recolher entre eles algum fruto do seu apostolado (Rm1,13). Sente-se devedor de todos: dos gregos, dos bárbaros, dos ignorantes e dos sábios. Por isso tinha desejado várias vezes chegar a Roma (Rm 1,11.15; 15,22-23).

A carta foi escrita no fim da terceira viagem missionária, quando Paulo passava os três meses de inverno de 57/58 em Corinto, à espera de uma nave que o levasse à Palestina. Essas circunstâncias são confirmadas pelo fato de que o apóstolo está para ir a Jerusalém levando as esmolas dos fiéis da Acaia e da Macedônia (At 19,21s). Em Rm 16,1s Paulo recomenda aos leitores Febe, diaconisa da igreja de Cêncreas e portadora da carta (ora, Cêncreas era o porto marítimo de Corinto para o mar Egeu).

Mas, os planos de Paulo tiveram que ser alterados: quando foi a Jerusalém foi preso ficou dois anos encarcerado em Cesareia. Suas peripécias na corte do procurador, seu apelo a César e sua viagem e naufrágio levaram-no por fim a Roma em circunstâncias bem diferentes daquela que ele tinha planejado, por volta de 60 ou 61, cerca de ¾ anos depois de sua carta.

Os cristãos continuavam a ser olhados com suspeita. Por isso, não obstante seu comportamento de cidadãos leais, poucos anos depois desta carta (em 64) Nero pode descarregar sobre eles a culpa do incêndio criminoso da cidade. Segundo a tradição Pedro e Paulo teriam sido mortos na feroz perseguição que se lhe seguiu.

Paulo ditou a Tércio, seu escriba (Rm 16,22) a carta durante muitos serões de trabalho. Por conseguinte, ela é fruto maduro das reflexões diurnas e do trabalho noturno do Apóstolo durante quase metade de um inverno corintio.

Conteúdo

A carta aos Romanos é o escrito mais longo de Paulo e representa, sem dúvida, o ponto mais elevado da sua elaboração teológica. Foi redigida em tom muito impessoal, à guisa de tratado teológico, visto que o autor não conhecia pessoalmente a comunidade destinatária. Não tendo problemas particulares a tratar, Paulo quis abordar o tema geral "vida cristã", ou melhor, a justificação que nos faz viver como filhos de Deus, herdeiros do Pai e co-herdeiros com Cristo (Rm 8,15-17).

A carta ocupa um lugar privilegiado entre as cartas apostólicas. Cronologicamente vem depois de Tessalonicenses, Coríntios e Gálatas e precede Colossenses e Efésios. Retoma alguns temas das cartas precedentes e nos dá o aprofundamento mais completo e rigorosamente estruturado que temos das verdades cristãs fundamentais.

O tema central é o mesmo de Gálatas, mas aqui o trata com mais serenidade, ao mesmo tempo em que o aprofunda e amplia. Deus nos salva por meio da fé em Jesus. É o primeiro tratado de soteriologia, o mais autorizado. O homem é incapaz de salvar-se por seus próprios merecimentos. Somos salvos por pura misericórdia de Deus, numa manifestação suprema de Deus ao homem. Em conseqüência, há uma mudança no íntimo do homem, efetuada pelo Espírito de Deus, que acaba com o domínio do pecado e permite uma vida nova.

Continua no próximo número

Jane do Térsio

 
 
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