O PECADO DE ADÃO (II)
Querendo abordar, agora, o pecado do homem a partir da Misericórdia
de Deus que se manifesta pela Redenção, podemos dizer
que Deus, a Bondade, no seu amor sem limite, diante do homem que,
a diferença de qualquer outro ser animado, é possuidor
da sua imagem e semelhança com o seu Criador, de imediato,
quer atuar nele a perfeição da divinização,
não obstante que isso implique uma Redenção.
Aliás, por ela todo o seu amor misericordioso será manifestado,
a humanidade encontrará, na glorificação do Verbo
encarnado, a expressão última da sua realização
e a todos os homens serão participadas as condições
de uma realização pessoal em Cristo, mediante a comunicação
plena do Espírito. Em Gn 2,7 se fala de uma comunicação
do espírito ao homem que o coloca no gênero animal, embora
Gn 1,26-28 já o distinga dos outros seres animados. Essa condição
de ser animado dotado, contudo, de semelhança com Deus, a ponto
de reinar porque consciente, em tese, permitiria ao homem de se realizar,
segundo o Plano de Deus. De fato, vítima da sua fragilidade,
o homem logo estraga todo o Plano. Deus, contudo, diante da limitação
do homem, é paciente e compassivo. Aliás, aproveita
a culpa para manifestar os extremos da sua Bondade e levar a termo
a obra da criação, tornando o homem semelhante ao Filho,
mediante a comunicação plena do Espírito.
Historicamente, a obra da redenção tem o seu início
com a vocação de Abraão, embora esta redenção
esteja contemplada por Deus desde a criação do homem
(1Pd 1,19s). Isto significa que ela está em ato desde o primeiro
homem que recebe os frutos da redenção como qualquer
outro homem depois de Cristo. A forma pela qual a redenção
é dada a cada homem é diversificada. A uns chega pela
voz da consciência, a outros pela Lei, a nós pelo Evangelho.
Todo e cada homem, segundo a sua responsabilidade, é chamado
a responder segundo às exigências da sua condição
criatural. Vemos, portanto, que a salvação é
a todos oferecida, a uns até com maiores oportunidades, enquanto
constatamos que o homem reage sempre da mesma forma, exatamente segundo
aquela tipificada pela narrativa didático-sapiencial do Gênesis.
O pecado se repete em cada homem e a redenção se torna
necessária para cada homem (Rm 3,23). Cristo morreu por mim,
dizia São Paulo. A forma histórica que determina uma
cronologia quanto à realização da redenção
não define a sua natureza. Ela atinge cada homem no tempo em
que ele existe e lhe proporciona o destino eterno, segundo o Plano
de Deus.
Quando o redator final da Torah precisou envolver na obra da redenção
também os que precederam Abraão, utilizou o artifício
literário da descendência, fazendo, historicamente, remontar
à salvação até o adão do Gênesis.
Isto não é cronologia e sim, intuição
teológica que vê a necessidade de estabelecer uma redenção
em ato que diga respeito a toda a humanidade. É errado pensar
no Adão do Éden, como se tivesse historicamente existido,
porque então surgiriam impasses teologicamente inexplicáveis.
É, contudo, correto dizer que a sua figura interpreta a condição
pecadora de todo homem, de forma que a sua ligação com
a história da humanidade é um recurso teologicamente
correto. Este permite ver claramente como todo e cada homem está
ligado à redenção de Cristo. Permite ver, também,
quanto Cristo Jesus está ligado a cada homem, pelo fato que
com cada um deles tem em comum a natureza humana assumida. É
exatamente esta ligação real que permitiu a São
Paulo explicar, num paralelismo perfeito, contudo analógico
e de contrários, a influência real do Verbo encarnado
sobre cada homem, pela figura do Adão da narrativa didática
de Gn 3.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) Por que Deus permite o pecado?
2ª) De que forma é dada a cada homem a sua condição
de salvação?
3ª) Em que sentido o Adão da criação nos
representa?
Pe. Fernando Capra - CRSP |