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Fé e Política | MAIO


"Miséria e má distribuição de renda: O verdadeiro mapa da fome, da pobreza e da violência no Brasil”

No último mês de abril, o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas publicou uma pesquisa mostrando o retrato fiel da situação social em que se encontra o nosso país e em particular o nosso estado: 1 em cada 3 brasileiros vive em estado de total miséria.

A pesquisa, intitulada "Mapa do Fim da Fome II" e pautada no último censo demográfico do IBGE de 2000, mostra uma quantidade considerável de dados interessantes e merecedores de uma profunda reflexão. O primeiro deles é a constatação do universo extremamente excludente dos 56 milhões de brasileiros que vivem com uma renda inferior a R$ 79,00 por mês. Esse valor, indicado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como o mínimo necessário para a sobrevivência humana, sob o ponto de vista alimentar, é o divisor de águas da profunda exclusão social em que a nossa sociedade vive mergulhada. Outro dado que chama a atenção na pesquisa, é o custo para erradicar a pobreza no Brasil. Com cerca de R$ 2 bilhões por mês para investimentos em projetos de resgate social, nós conseguiríamos acabar com a fome e com a miséria em nosso país. O mais interessante é o quanto representa esse valor no bolso dos brasileiros que estão acima da linha da pobreza. Segundo a pesquisa, bastariam R$ 14,00 por mês desta camada da população para custear esses projetos. Interessante, não? Essa análise é ainda mais desafiadora quando pensamos sob a luz da concentração de renda: Os 5% mais ricos da população são detentores de mais de 70% do PIB nacional.

Outro dado merecedor de destaque é a relação direta da miséria e da fome com o desemprego e a violência. As regiões onde existem mais miséria e fome são as mesmas onde os índices de desemprego e violência despontam com números significativamente altos. Um bom exemplo disso é a Rocinha, quando analisamos a pesquisa tendo como escopo o Rio de Janeiro. Esta favela, (a maior da América Latina), tem o nível de escolaridade mais baixo do Rio de Janeiro, possui uma das menores rendas de nossa cidade, além de ser destaque nos índices de criminalidade, como constatamos com imensa tristeza no ocorrido da última sexta-feira santa.

Na minha ótica, estamos diante de um quadro avassalador, onde a falta de oportunidades e a concentração de renda fazem com que o crime organizado ganhe força, conduzindo o país, e em especial o Rio de Janeiro, a um quadro de convulsão social. Não quero abordar aqui o terrível cenário da nítida falta de políticas de segurança pública em nosso estado. Isso é evidente para qualquer cidadão que possua o mínimo de censo crítico. Quero aprofundar a questão, buscando soluções de longo prazo. Já está mais do que na hora de invertermos a pirâmide. A Igreja católica vem falando desde Puebla da real necessidade de optarmos preferencialmente por aqueles que mais precisam: Os Pobres e Marginalizados. Precisamos gerar empregos e criar oportunidades principalmente na educação, para garantirmos um futuro melhor aos nossos filhos. Sem oportunidades iguais para todos, estaremos cada vez mais condenados a nos tornarmos reféns de nossa própria sociedade. Sociedade essa que privilegia o "eu", cada vez mais em detrimento do "outro". Nem precisamos citar documentos da Igreja (CNBB no. 69 ou no 67) ou o próprio Evangelho para imaginarmos qual foi à opção de Cristo.

***

Gostaria de aproveitar a oportunidade para parabenizar aos amigos da antiga "Comunijovem". Neste mês de Maio, aquele belo grupo que articulava fé e política em tempos onde isso era muito mais do que proibido, faz aniversário. Hoje, para alguns, ele não mais existe. Mas para muitos, mesmo aqueles que não participaram diretamente do dia a dia do grupo como eu, ele ainda existe. Em sua essência e em seu ideal cristão pautado no Evangelho. Foi, sem sombra de dúvida, o berço, mesmo que indiretamente, de parte dos movimentos sociais existentes hoje em nossa paróquia ou comunidades. A minha crisma e o meu engajamento pastoral e social nasceu dos ideais desta "turma". Guardo com muito carinho os ensinamentos de pessoas que significaram muito na minha formação (e significam até hoje). Sem eles, essa coluna não existiria.

A vocês, amigos que mesmo distantes em função dos percalços da vida, desejo um "feliz aniversário" e um muito obrigado pela oportunidade dos ensinamentos e da convivência.

Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

Robson Campos Leite
Emails para esta coluna: feepolitica@terra.com.br

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