Não
sabemos se Maria cantava ou se dançava. Como as jovens judias
de seu tempo, terá se manifestado segundo os costumes aceitos
pelos pais de então? Não nos consta que Maria pudesse
ter sido uma jovem triste... Aliás, sabemos tão pouco
sobre Maria, que corremos dois riscos: idealizá-la como perfeita
demais, a ponto de, às vezes, pensar que Maria nunca riu nem
brincou; ou idealizá-la como uma jovem que só rezava,
o que é claro que ela fez, mas não só... Não
é todo dia que uma jovem esposa concebe um filho nas condições
em que Maria concebeu... Diferente das demais mulheres por seu chamado
especial, mas foi igual a toda mulher nos aspectos mais comuns da
feminilidade e por seu modo bonito de ser mulher. Sou capaz de apostar
que ela ria, cantava e dançava...
De onde tiramos estas conclusões? Do pouco que os evangelhos
nos narram a seu respeito. Uma das narrativas que envolve a pessoa
de Maria está no evangelho de Lucas, um médico grego,
discípulo de Paulo de Tarso - que pesquisou e pelo que se depreende
do início do evangelho a ele atribuído ( Lc 1, 1- 4),
foi ouvir as testemunhas oculares. Uma dessas testemunhas pode muito
bem ter sido a própria Maria...
Lucas diz, em Lc 1, 39-56, Maria foi acompanhar os últimos
três meses de gravidez da já idosa Isabel. O menino talvez
nem vingasse, pois idade avançada exige atenção
redobrada. E a intimidade do parentesco encontrou em ambas a cumplicidade
do mistério que envolvia as duas. Quem não tem fé
alguma achará uma enorme baboseira isto de Isabel e Zacarias
terem um filho especial e o fato de Maria estar grávida do
Filho de Deus. Mas, é como diz Isabel: "Feliz aquela que
acreditou...(Lc 1, 45). O fato é que Maria foi ajudar Isabel.
Ficou lá três meses. Pois bem! No dia do encontro, Isabel
mostrou que sabia do enorme segredo da parenta. E Maria não
se conteve. Ao menos com ela poderia expandir sua alegria de ser mãe
tão especial, já que outros a achariam doida ou pretensiosa...
E, segundo Lucas, Maria improvisou ali mesmo um canto inspirado no
canto de Ana, mãe de outro homem famoso, o juiz Samuel (Sm
2, 1-10) e noutras passagens do livro santo dos hebreus, que Maria
certamente conhecia. Quem meditava as coisas de Deus e as guardava
no coração (Lc 2,19) era muito capaz de improvisar uma
oração como aquela que Maria rezou na frente de Isabel...
O certo é que Maria cantava um pouco do livro do Deuteronômio,
outros poucos de Samuel, outros poucos de Isaías e dos salmos
111, 103, 89, 107 e 98. Se Maria os cantava e conhecia? E por que
não? Acham-na tão ignorante que não fosse capaz
de saber, de ouvido, aquilo que tantos judeus piedosos cantavam e
rezavam?
O canto tem força teológica incrível. Fala de
um Deus misericordioso, que pensa em todos os homens de todos os tempos;
de um Deus que chama a todos, mas dá tarefas e missões
especiais a algumas pessoas sem que, com isso, ame de maneira limitada.
Mas é um Deus justo, que toma a defesa de pequenos e oprimidos;
tira o poder das mãos dos injustos; e, nem que demore, um dia
dá uma chance aos pobres e pequenos, enquanto mostra aos que
tudo tinham o que é a experiência do não ter.
Um canto político, improvisado por uma jovenzinha desinformada?
Ou um canto cheio de fé, ensaiado por uma jovem mulher inspirada
nas lutas e no sofrimento de seu povo? Se Maria, de fato, cantou esse
canto ou algo parecido, então Maria mostrou conhecer muito
bem os erros e acertos de Israel e, melhor ainda, as profecias e a
constante presença de Deus na história de seu povo.
É uma excelente oportunidade para todos nós refletirmos.
É meio difícil imaginar Maria indiferente à sorte
de seu povo e incapaz de compreender o peso de sua missão.
O canto de Maria tem alta teologia e muita política. Mas é
claro que tem amor e misericórdia. Não vê isso
quem não quer. Para os que idealizam Maria apenas como mãe
de um grande político judeu, o canto é um prato cheio.
Para os que a idealizam como uma jovem mãezinha assustada,
é mais fácil negar que Maria o tenha recitado. Mas Maria
amou seu Deus, seu tempo e seu povo. E nesse contexto não acho
nada difícil crer que Maria tenha dito a Lucas exatamente o
que cantou naquele encontro. Cantou a experiência de ser mãe
de Alguém que anunciaria um novo tempo e uma nova ordem para
o mundo... É mais um dos motivos pelos quais eu admiro essa
mulher. Quem discorda, que se manifeste...
Padre Zezinho, scj |