|
Estrutura e Divisão
O livro apresenta diversas divisões conforme as obras consultadas.
De uma maneira geral ele se divide em 2 partes: uma marcada pela
pessoa de Pedro (cap.1-12) e a outra pela de Paulo ( cap. 13-28),
destacando-se no cap. 15 o Concílio de Jerusalém.
O livro "Os Atos dos Apóstolos" de Rinaldo Fabris,
Ed. Loyola e Ed. Paulinas, apresenta a seguinte estrutura do livro:
1,1 5,41 - Origens da Igreja de Jerusalém. Início
da comunidade cristã ligada ao templo e à lei. Vida
e estrutura da comunidade: 2,42-47: fração do pão;
4,31-35: comunhão fraterna; 5,12-16: testemunho apostólico.
Primeiras perseguições. Dois discursos de Pedro
6,1 12,25 Eleição dos 7 . Martírio de Estevão.
Perseguição e missão: de Jerusalém a
Antioquia. Missão na Samaria, Judéia e Síria.
Conversão de Paulo. Batismo de Cornélio. Morte de
Tiago. Prisão e libertação de Pedro. Discurso
de Estevão e de Pedro.
13,1 15,35 Primeira viagem missionária e Concílio
de Jerusalém. Paulo e Barnabé na diáspora judaica.
Conversão dos pagãos. Dois discursos de Paulo e de
Pedro e Tiago.
15,36 20,38 Grandes viagens missionárias: fundação
das Igrejas na Grécia /Ásia. Novas comunidades: missão
em Filipos, Tessalônica, Beréia, Corinto, Éfeso.
Confronto com a cultura grega. As autoridades e estruturas do império.
Discurso de Paulo
21,1 28,31 Paulo prisioneiro de Cristo: de Jerusalém a Roma.
Captura e prisão em Jerusalém e Cesaréia. Acontecimentos
alternados do processo. Viagem a Roma. Naufrágio. Encontro
com os cristãos de Roma. Discurso de Paulo.
Estrutura e Gêneros Literários
Todos os autores que levaram em consideração a terminologia
dos Atos reconhecem a sua variedade e riqueza de vocabulário
em relação a outros escritos do Novo Testamento. Apenas
as Epístolas de Paulo aproximam-se do nível de Atos.
A construção de frases, em alguns casos aproxima-se
da elegância de textos literários em outros assemelha-se
mais a modos populares de dizer.
Antes de tudo, impressiona o leitor a variedade e o encadeamento
dos modelos de expressão: a narrativa se alterna com os discursos,
as pequenas fórmulas de reflexão ou de síntese
com os episódios amplos e dramáticos.
Entre o material narrativo temos as seguintes formas:
-Relatos: de milagres, de viagens, itinerário, de missão.
-Descrição de episódios mais ou menos dramáticos,
sumários: pequenos quadros panorâmicos.
-Material discursivo: discursos, orações, cartas.
Apresenta também disposição simétrica
ou paralelismo dos personagens ou das situações. Ex.
ao discurso programático de Pedro dirigido aos judeus (3,12-26)
corresponde o de Paulo (13,16-41). O encontro vitorioso de Pedro
com a magia, em Samaria (8,18-24), tem o seu paralelo no episódio
em que Paulo desmascara as tramas do mago judeu em Chipre (13,6-12)
entre outros.
Os leitores de Atos podem ficar surpresos ao encontrar algumas histórias
repetidas até três vezes. A intenção
destas repetições é de sublinhar a importância
de alguns fatos ou a função de um personagem ou de
um tema, fixando a atenção sobre um aspecto ou momento
decisivo ou crítico da história que ele está
narrando ou registrando.
Por exemplo, a vocação de Paulo é descrita
em At 9, 22 e 26. Lucas repete alguns dos acontecimentos principais
dos Atos para assinalar sua importância especial para entender
o progresso e a difusão do cristianismo. Ele fala três
vezes sobre a conversão do pagão Cornélio.
Isso deixa claro como era vontade de Deus batizar não judeus
sem antes fazê-los judeus pela circuncisão.
O decreto apostólico de At 15 é também repetido
como o compromisso que permitiu a pagãos e judeus compartilhar
a mesa (e, portanto, a eucaristia), sem forçar os pagãos
a se tornarem judeus. As três versões do chamamento
de Paulo por Jesus ressuscitado reforçam o fato de que Paulo
viu Jesus ressuscitado e dele recebeu diretamente a missão
para os pagãos. Três vezes Lucas mostra Paulo dizendo
aos judeus que levou a boa nova primeiro para eles, mas, como a
rejeitaram, ele a levaria para os pagãos, mais receptivos.
Todas essas repetições são muito úteis
para explicar como a Igreja lucana de predominância pagã
pode legitimamente proclamar-se herdeira das promessas judaicas
por intermédio do Messias judeu. Mostram por que e como foram
feitas as mudanças de judeu para pagão.
Dentre os vários gêneros literários merecem
destaque especial os discursos e os sumários.
Os discursos cortam o desenrolar da ação e tem a função
de sugerir ao leitor o significado mais profundo dos acontecimentos
ou de um certo período histórico. Os discursos ocupam
aproximadamente a quarta parte do livro, eles constituem parte integrante
do livro e é importante o papel que desempenham em mostrar
o alcance dos acontecimentos descritos nas narrativas. Cada estágio
do desenvolvimento histórico da Igreja é assinalado
por discurso concomitante, que indica o desenvolvimento correspondente
do pensamento cristão.
Nos Atos, os três tipos mais importantes de discursos, são
discursos missionários para converter judeus ou pagãos,
discursos de defesa nos julgamentos de Paulo e o discurso de despedida
em At 20. Em sua maioria, eles explicam o que aconteceu e dão
a Lucas a oportunidade de revelar aos leitores o verdadeiro sentido
desse acontecimento. Assim, o discurso em At 2 explica o acontecimento
de Pentecostes e, por sua vez, leva à conversão de
milhares. O discurso em At 3 dá o sentido de cura do aleijado
e leva a outras conversões. Os discursos de defesa, como
em At 22, respondem a objeções que os judeus fizeram
a Paulo e seu ministério. O discurso de defesa em At 20 confere
o discernimento do que era mais importante no ministério
de Paulo e das solicitudes posteriores que teriam sido mais importantes
para ele.
Grande parte dos discursos foi proferida em aramaico e Lucas lhes
deu sua forma grega, recorrendo a seu estilo pessoal adaptado aos
respectivos destinatários. São discursos que seus
personagens teriam pronunciado em certos momentos críticos.
Eles não pretendem ser um registro daquilo que foi dito.
Dos 24 discursos do livro: 8 são de Pedro ; 1,16-22; 2,14-40;
3,12-26; 4,8-12; 5,29-32; 10,34-43; 11,5-17; 15,7-11; 9 são
de Paulo:13,16-41;14,15-17; 17,22-31; 20,18-35; 22,1-21; 24,10-21;
26,6-23; 27,21-26; 28,17-20; os outros 7 discursos são: Gamaliel:
5,35-39; Estevão: 7,2-53; Tiago: 15,13-21; Demétrio:
19,25-27; o escriba de Éfeso: 19,35-40; Tertulo: 24,2-8;
Festo: 25,24-27.
Os sumários são pausas mais ou menos amplas, que ajudam
a tomar pé da situação depois de alguns acontecimentos
decisivos e preparam o leitor para os desenvolvimentos subseqüentes.
Os sumários constituem uma série de textos curtos
que se apresentam como resumos de situações das primeiras
comunidades cristãs. Geralmente enumeram-se oito com importâncias
diferentes. É possível distinguir 3 sumários
maiores relativos à vida e à organização
da primeira comunidade de Jerusalém ( 2,42-47; 4,32-35; 5,12-16)
Diversos sumários menores dizem respeito ao desenvolvimento
da Igreja e ao progresso da mensagem cristã: a comunidade
cristã cresce com a adesão de novos crentes ( 2,41.47;
4,4; 5,14; 11,21.24; 13,48); a Palavra de Deus difunde-se com eficácia
por toda a parte ( 6,7; 12,24; 13,49; 19,20); a Igreja se edifica
na força do Espírito ( 9,31; 16,5).
Continua no próximo mês
Jane do Tércio |