- Carta aos Romanos (14)
A incompatibilidade da graça com o pecado (Rm 6) (II)
B) (6, 12-23) O nosso sacrifício espiritual
1º) Nossos membros devem se tornar instrumentos de virtude (6,12-14).
6,12s. Na base de tudo aquilo que acabou de expor (6,1-11), Paulo exorta a perseverar na conquista da salvação revestidos de fé e caridade, alegres na tribulação para desenvolver a vida do Senhor ressuscitado. O cristão está morto para o pecado e vivo para Deus (v.11). Na força do Espírito, do qual nos nutrimos todas as vezes que recorremos ao Evangelho de Deus, pelo qual contemplamos Cristo Caminho e Verdade que nos traz Vida, podemos viver a nossa condição de realeza, mantendo a nossa relação harmoniosa com a criação, da qual somos intérpretes na sua louvação ao Criador. Isto evita que voltemos a ser escravos das concupiscências, servos do pecado, instrumentos de iniqüidade. Porque redivivos entre os mortos, os nossos membros podem ser instrumentos de virtude.
6,14 Estamos sob o regime da graça. Está abolido o regime da Lei, que só multiplicava as culpas, porque agora, na força do Espírito podemos observar a Lei que Cristo levou à perfeição, dela nos mostrando, com o seu exemplo, toda a grandiosidade. A Lei é útil ao pecador (1Tm 1,9) para saber quais são os pecados que deve evitar e as obrigações com Deus a cumprir. Contudo, é só pelo Espírito que cumprimos a Lei, enquanto é por ele que vivemos a vida de Cristo.
2º) Não podemos mais ser escravos do pecado (6,15-23)
6,16 O cristão, pela sua fé em Cristo, se submeteu ao regime da virtude para a vida. Quem se submete aos vícios pratica o pecado e caminha para a morte.
6,17-18 Aquele que se converteu e se regenerou, abraçou a doutrina que medita dia e noite. Um exercício necessário que nos desvencilha da vaidade. O fiel vive como um liberto do pecado enquanto abraça a escravidão da virtude.
6,19-21 A experiência humana mostra à qual grau de baixeza moral podemos chegar quando, afastados de Deus, nos entregamos ao pecado. Os vícios nos enredam e nós vivemos escravos da iniqüidade. O seu termo é a morte porque a criatura humana em nada vive as condições da sua realização: o espírito não se nutre de Deus pela louvação suscitada pela contemplação do Poder e Glória divina, que colocam o homem na perfeita relação de dependência de criatura do Criador, de forma que vive a obediência que lhe permite uma condição de realeza, tornado-o assim mediador da louvação que sobe da criação ao Criador; a alma não encontra a verdade porque a atividade do seu corpo reage desordenadamente aos estímulos da vaidade.
6,22 Pela conversão, que é dom do Espírito de Cristo, recebemos a regeneração e a santificação, que devemos implementar, porque o termo último é a vida eterna. Enquanto sujeitos ao pecado éramos escravos agindo para a nossa morte, agora servimos à virtude. É o caminho correto. Procuramos os valores do Espírito, renovados por Cristo Cabeça, Primogênito da estirpe dos filhos de Deus, segundo a fé, a caridade e a esperança.
6,23 A vida eterna é o dom gratuito supremo dado ao homem por Deus pelo seu plano de divinização. O salário do pecado é a morte.
6,23 Tudo foi concedido por “um só homem, Jesus Cristo” (5,15).
6,23 “...Senhor nosso”. A condição de Jesus, o Cristo, é de ser o Cabeça da Igreja, abertamente constituído Senhor no momento da sua Ressurreição. Aqui temos esboçado o conceito de Igreja: um povo convocado sob o Cristo do Senhor, que usufrui das mesmas prerrogativas dele: “se a Cristo, também a nós”: “se sofrermos com Ele, para sermos glorificados com ele” (8,17).
Reflexão - O ponto de partida é a solidariedade efetiva que existe entre Cristo Jesus e nós, seus irmãos em virtude da Encarnação e da sua condição divina. Tendo o Pai criado nele, por ele e com ele o Adão verdadeiro, do qual o primeiro é figura (5,14), e tendo-o levado à perfeição na obediência e pelo sofrimento (Hb 2,10s), pelo Espírito são comunicadas à criatura as condições que levam à plenitude a obra da criação: a imortalidade gloriosa e a filiação divina. Nesse quadro, Jesus é a Videira, o Cabeça, a Pedra angular. Videira que comunica a seiva do Espírito; Cabeça que , pelo Espírito, atua o “desenvolvimento desejado por Deus” (Cl 2,19) e nos transforma de glória em glória (2Cor 3,17s); Pedra angular sobre a qual o edifício, bem edificado, se torna Templo de Deus. Cristo é a Plenitude da Divindade (Cl 2,9) que nos enche da Plenitude de Deus (Ef 3,19).
Essa vida divina, desde já, é vivida por nós na fé. São Gregório Nazianzeno diz que possuímos a vida eterna enquanto vivemos os seus valores, na expectativa da sua manifestação gloriosa.
Pe. Fernando Capra/CRSP
|