“Os vizinhos, a sociedade e o mundo moderno: a construção do Reino de Deus começa em casa e ao nosso redor. Vamos tentar?”
A relação que estabelecemos com a nossa comunidade, em especial aquela que não é diretamente ligada ao ambiente de Igreja, como os vizinhos e o trabalho, deve ser um reflexo da nossa conduta cristã aplicada no cotidiano de cada um. Essa atitude é um elemento importante para a construção da cidadania e, desta forma, para a mudança que tão sonhamos em nossa sociedade.
Para entender melhor essa importante relação com os que estão ao nosso redor e que pode, sem sombra de dúvidas, transformar a nossa sociedade tão marcada pelo egoísmo e pela falta de cidadania, utilizaremos o modelo de convivência que mantemos com aqueles que, pelo menos na teoria, estão bem próximos de nós: os nossos vizinhos.
A sociedade moderna, tão atribulada e cada vez mais marcada pelo famoso sentimento de “falta de tempo”, faz com que sepultemos um antigo hábito que era, sem sombra de dúvidas, amplamente utilizado pelos nossos pais e avós: A proximidade e a intimidade com os vizinhos. Quantos de nós pelo menos aqueles que têm mais de 30 anos não trazemos boas recordações e, em alguns casos, boas amizades cultivadas através do convívio com os vizinhos da casa dos nossos pais, ou até mesmo avós? Pois é, parece que isso virou “coisa do passado”. As “famílias modernas” pouco ou quase nada conhecem os seus vizinhos. Os encontros nos elevadores, corredores e ruas se restringem, quando acontece, a um leve e quase imperceptível gesto de cumprimento. E os motivos para essa “falta de socialização”, que é caracterizada pela falta de tempo, está intimamente ligada a um fenômeno ao qual eu chamo de “privatização dos sonhos”.
A sociedade de hoje é impulsionada e fomentada pelo consumo. Essa necessidade implacável de consumir cada vez mais acaba levando a uma terrível inversão de valores: O “ter” ganhou um lugar de destaque tão grande na nossa sociedade que a própria família acabou ficando em segundo plano. Tornou-se muito difícil, sob a ótica consumista do “ter”, distinguir o que realmente é necessário para a subsistência familiar daquilo que poderíamos classificar como dispensável ou supérfluo. Atrelado a essa corrida louca consumista encontramos um ambiente altamente competitivo em um mercado de trabalho marcado pelo crescente desemprego. Esses elementos conduzem a uma forte individualização dos sonhos, ou seja, os objetos de satisfação e desejo dos membros dessa sociedade estão se tornando cada vez mais privados e individuais. Os sonhos coletivos que deveriam impulsionar o desejo pelo bem-comum tais como a diminuição das taxas de desemprego, a melhoria da qualidade geral de benefícios dos empregados de uma empresa ou o aumento da qualidade de vida em nossos condomínios, vilas e comunidades são facilmente trocados pelo desejo individual do carro novo, da ascensão profissional e etc. Definitivamente, o individual ganha cada vez mais espaço em relação ao coletivo.
Dentre diversos reflexos e conseqüências desse grave problema, destacamos exatamente a falta de socialização e mobilização popular, inclusive na própria vizinhança. Essa situação explica os graves problemas sócio-políticos em que vivemos e que são causados pelo não-envolvimento da população nessas questões.
Muitos de nós, mesmo preocupados e até supostamente dispostos a fazer alguma coisa para mudar a realidade desigual do nosso país, não encontramos tempo sequer para freqüentarmos as importantes reuniões de condomínios ou associações de bairros de onde moramos. E, infelizmente, pouco fazemos para mudar esse cenário.
Fica fácil agora dizer que o fato de não conhecermos os nossos vizinhos é apenas a ponta de um grande iceberg: na verdade, o problema está intimamente ligado às nossas escolhas. Somos nós que optamos em cair nas armadilhas do consumismo e do egoísmo, quando nos permitimos abdicar da convivência familiar ou comunitária para conseguir alguma coisa a mais. Por outro lado, problemas diretamente relacionados com o coletivo, como o desemprego e a insegurança, chegam até a nos preocupar, entretanto, somente tomamos alguma atitude concreta para mudá-los quando somos diretamente atingidos por eles. Quando isso acontece com o outro, como por exemplo, o nosso vizinho, essa mesma “falta de tempo” impede que tomemos uma atitude de ajuda ou solidariedade.
Reconheço que não é nada fácil dizer não a esse modelo pautado no ter e na privatização dos sonhos. Para que isso ocorra, alguns gestos concretos se fazem necessários: Em primeiro lugar, buscar o coletivo de forma incondicional. Um bom método é não fazer isso sozinho. Um círculo bíblico ou uma vida em comunidade onde se partilhe a palavra de Deus é indispensável para o fortalecimento da batalha que virá. Compartilhar as dificuldades de “remar contra a maré” com pessoas que possuam o mesmo ideal ajuda muito. Em segundo lugar, a oração, tanto a individual quanto a coletiva, também se torna um combustível importante nesta luta. Em terceiro lugar, porém não menos importante, é a celebração da Eucaristia em conjunto.
Todas essas ações precisam ser marcadas pela mudança de atitude. Afinal de contas, os discursos convencem, mas as atitudes arrastam. Se seguirmos a risca essa receita conseguiremos, finalmente, transformar a nossa sociedade em algo melhor e trazer, enfim, o Reino de Deus até nós.
Um grande abraço, a Paz de Cristo e vamos colocar sempre o “Bem Comum acima de tudo”.
Robson Leite
www.robsonleite.com.br
Email: feepolitica@terra.com.br
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