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O Namoro está perdendo a graça
É tarde de sábado. Urn grupo de amigas, com idade entre 14 e 18 anos, se arruma animada para mais uma balada. Entre cochichos, risos e algazarras, as adolescentes experimentam várias roupas até encontrar aquela considerada ideal. Batom, gloss, rímel, uma pitada de sombra nos olhos complementam o capricho do visual. "Vou beijar muiiitoo nesta festa", avisa LAC, de 14 anos.
As garotas estão reunidas na casa de CRM, 17 anos, e a mãe, discretamente, acompanha tudo. Como de costume, enumera una lista de recomendações na saída do grupo: "Juízo e me liga para dizer se chegaram bem. Irei buscá-las mais tarde".
A cena descrita acima, a do beijar muito, tem-se tornado cotidiana na vida de adolescentes e jovens, que incluíram uma nova expressão ao dicionário dos relacionamentos amorosos: o "ficar com", um termo criado para definir o contato físico, que pode durar apenas alguns minutos, sem o compromisso do dia seguinte. Quem vê um casal de adolescentes se beijando numa festa pensa que estão namorando, mas, na verdade, estão somente "ficando". É o chamado relacionamento relâmpago ou beijo “ fast-food.”
E há os que ficam em uma única noite, com vários ou várias "Já cheguei a ficar com quatro garotos em uma noite", comenta NTR, 14 anos, que logo se apressa em dizer que foi só beijo, mais nada. "Se o interesse acaba, a gente dá a desculpa que vai ao banheiro e sai fora", complementa o garoto WCS, 16 anos, também coleciona incontáveis beijos em seu currículo.
Modismo e auto-afirmação
"Na avaliação de especialistas, essa atitude pode ser por mera curiosidade, uma auto-afirmação em relação a sexualidade (sentir-se capaz de conquistar muitas pessoas) ou uma forma de competição com colegas.
"Virou um modismo, estimulado em grande parte pela mídia", opina a psicóloga Neide Rezende Morais. De acordo com ela, o despertar da sexualidade é um processo normal na adolescência e o namoro, uma etapa importante no desenvolvimento do ser humano. No entanto, na "ficação" dos dias atuais não há afeto, diálogo, conhecimento e relação entre um e outro. "É um jogo sem aprofundamento, que não leva a resultados positivos.
Passamos de um período de extrema rigidez de uns anos atrás, quando o desenvolvimento da sexualidade era muito reprimido, para uma fase de muita liberalidade. Há que se ter um equilíbrio.
Nem liberdade total e nem tantos limites rigorosos, isso está vinculado à educação do ser humano. A receita é conversar e dialogar com os filhos", ensina.
Neide avalia que a tendência é que a "ficação" cesse a partir de uma determinada idade. "A lógica do desenvolvimento é a busca de um parceiro único com o qual a pessoa se identifique e que vá satisfazer seu desejo interior de amor, carinho, afeto e ate mesmo sexual", observa.
Há quem pense diferente
O “ficar” não é unanimidade entre todos os jovens. Convidada a dar sua opinião, Renata Aparecida Machado, de 18 anos, afirma: "Hoje não existe mais aquela empolgação de antes. É coisa de momento, não tem o amanhã e o depois. Alguns relacionamentos até rendem, mas são poucos. Eu preferia o namoro de antigamente, quando se conhecia primeiro as pessoas antes de ter outros envolvimentos. Atualmente, as pessoas ficam primeiro para depois se conhecerem, ou não. Acho errado. Muitos relacionamentos acabam não dando certo por causa disso e terminam em decepção", comenta.
Dilene Ferreirq
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