Os ritos da sociedade estão em profunda transformação, desde os do nascimento até os da despedida da vida. Cada etapa da vida humana veste-se de seus simbolismos próprios que respondem às necessidades básicas do ser humano enquanto indivíduo e enquanto sociedade. O namoro não escapou dessa revolução simbólica.
Nesse processo, observam-se mudanças externas que mais chamam atenção e transformações no universo de significado que requerem análise mais profunda para captar-lhes o movimento. A década de 60 é considerada como momento de ruptura, que atingiu as relações afetivas e sexuais entre os jovens, repercutindo forte-mente no ritual do namoro.
Criado pela juventude francesa, o slogan “é proibido proibir" correu mundo. Ele exprimia, na sua concisão, tal corte cultural.
Os namoros tradicionais eram regidos pela vigilância familiar dos pais e, eventualmente, de um irmão ou uma irmã que funcionava como "vela" na expressão de antanho. Essa constante presença de um olhar externo, mais que reprimia ou recalcava os desejos, situava o rito no momento de seu processo.
O rito cumpre a função de oferecer-nos a percepção da condição histórica de quem descreve continuamente um percurso. Os filósofos clássicos diziam: a natureza não conhece saltos. O ser humano participa dessa harmonia natural. No entanto, a modernidade e, mais ainda. a pós-modernidade vem rompendo essa consciência de continuidade, de sucessão, para dar-nos a sensação de que vivemos num mundo alucinante em que cada instante dista infinitamente do outro. Perdidos nessa loucura de rapidez, aceleramos os ritos da existência.
O namoro entra de cheio nesse jogo. Se os primeiros flertes preparam no futuro a relação sexual, por que não realizá-la logo?
Por que esperar? Impressiona-nos perceber que tal cultura estende-se a todos os setores, de modo que nos cansamos rapidamente com a lentidão dos ritos.
Tomemos um exemplo inocente. A refeição. Ela existe para alimentar-nos. Por que gastar tanto tempo a mesa se, para refazer as forcas físicas, basta uma passagem rápida por algum self-service ou por um MacDonalds, devorando sanduíches padronizados? Perdeu-se a consciência do simbolismo da refeição com sua magia de convívio, de alegria, de festa.
A cultura do descartável, da pura funcionalidade, da instrumentalização de coisas e pessoas, das emoções crescentes, do prazer cru não tolera a lentidão de um namoro que inicia com o cruzar de olhares até terminar no casamento de cartório e igreja.
O preço dessa cultura é alto. A desumanização cresce em todos os setores. A violência com desfechos de assassinatos por razoes banais, a onda incontrolável de furtos, o abuso do corpo próprio e alheio sem pudor nem restrição o corroem, no mais fundo de cada um de nós, a dimensão que os antigos chamavam simplesmente de "humanidade".
O namoro humaniza o jovem. O "dês-namoro" animaliza-o. Reduz-lhe os passes rituais ate aboli-los por completo. Só o animal copula sem rito. E, à medida que esse desaparece, nos aproximamos do animal e nos distanciamos do "humanum".
Há uma brecha de esperança que anuncia recriações nas relações afetivas e sexuais entre os humanos. Cresce, no seio da juventude, uma sensibilidade pela estética. Só lhe falta injetar dose de beleza nas relações de namoro e, então, certamente tecerão novos ritos que os humanizará.
Pe. João Batista Libânio- SJ
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