Cristologia (20) - O Cristo do Apocalipse (I)
No Apocalipse temos a mais extensa descrição de Jesus Cristo na sua condição gloriosa. Juntamente com os outros Apóstolos, João chegara, pela reflexão sobre a tumba vazia, à visão do Senhor na glória da Ssma. Trindade. Os outros Apóstolos, contudo, não tiveram a oportunidade de ilustrar, em toda a sua extensão, a figura do seu Senhor, como, de fato, a teve João, ao expor a sua escatologia.
A condição gloriosa, segundo a qual devemos considerar Jesus Cristo partícipe, segundo a natureza humana assumida, da vida da Trindade santa, é fundamental para entender a figura do Senhor do Apocalipse. Jesus Cristo é, agora, o "Eu sou, o Alfa e o Ômega,... o Senhor Deus, Aquele-que-é, Aquele-que-era e Aquele-que-vem, o Todo-poderoso" (1,8). O vocábulo teológico que João utiliza para expressar toda a dignidade divina de Jesus Cristo é o da "Glória de Iahweh", tirado de Ezequiel e que Daniel desenvolve. Em Ez 1, a Glória de Iahweh é o próprio Deus que vem para julgar a Cidade (Ez 10,2), enquanto se manifesta como núcleo de fogo numa nuvem grande, tempestuosa. O seu poder, representado pelas figuras do homem, do leão, do touro e da águia, se estende sobre toda a terra. O acompanha o Espírito de Deus, que está nele como fogo, do qual se desprendem luzes que vão e voltam como fagulhas e que são semelhantes a olhos que vigiam sobre toda a terra. Ez 1,26-28 vê essa Glória de Iahweh, enquanto relacionada com a vida do próprio Deus no céu, como a figura de um Filho do Homem, fogo dos quadris para baixo, fogo dos quadris para cima, sentado sobre um trono de safira. Daniel desenvolve a figura de Ez 1,26-28 gancheada a Ez 40,3, e a torna o Anjo Gabriel que lhe explica as Escrituras: "Um homem revestido de linho, com os rins cingidos de ouro puro, seu corpo tinha a aparência do crisólito, e seu rosto, o aspecto do relâmpago, seus olhos, como lâmpadas de fogo, seus braços e suas pernas como o fulgor do bronze polido, e o som de suas palavras como o clamor de uma multidão" (Dn 10,5s). Em Dn 7, a Glória de Iahweh é vista na condição de Filho do Homem que vem sobre as nuvens, para receber do Pai todo poder, que é, também, comunicado aos santos do Altíssimo (v.27). João, à luz de tudo aquilo que lhe foi dado conhecer do seu Mestre, particularmente em virtude da sua ressurreição, modifica a figura profética da Glória de Iahweh, Filho do Homem, por meio da conotação do Cordeiro imolado que venceu, para ilustrar a Pessoa divina do Senhor Jesus em todas as suas prerrogativas, enquanto o contempla na Vida Trinitária (Ap 4-5). Ap 4 é o máximo da visão de Jesus Cristo na glória da vida trinitária porque, aquele que, pela carne assumida, se fez homem, no céu recebe a mesma adoração com Deus Pai.
O Cordeiro imolado é, portanto, o Filho que o Pai enviou ao mundo e que, elevado da terra, atrai todos os homens a si. Essa é a condição daquele que vem sobre as nuvens (1,7): resume em si a condição humana de Jesus e a condição de Glória de Iahweh, com o poder de julgar, porque foi glorificado em virtude da sua imolação. De fato, a sua morte de Cruz, não foi somente o meio pelo qual Jesus Cristo nos purificou dos nossos pecados e fez de nós um reino e sacerdotes para Deus Pai; foi, também, a condição pela qual a sua Humanidade alcançou toda a Glória do Pai, a sua Glória (Hb 2,3), "possuída desde antes da criação do mundo" (Jo 17,5), e a efusão plena do Espírito sobre os seus irmãos.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) Qual é a figura profética que anuncia Jesus como Glória de Iahweh-Filho do Homem?
2ª) Qual é a outra figura que completa a primeira e que João adota para descrever Jesus na sua condição definitiva, no céu?
3ª) O que Jesus mereceu para si com a sua Morte de Cruz, além de merecer para nós a Redenção?
Pe. Fernando Capra/CRSP |