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“A falência do sistema carcerário: De quem é a culpa?”

A crescente onda de violência que vem assolando as grandes cidades brasileiras nos últimos anos e que ganha, a cada dia, um espaço cada vez maior na mídia e na preocupação da nossa sociedade nos conduz a uma reflexão muito séria e importante:
Qual deveria ser o verdadeiro papel do sistema carcerário brasileiro?

Boa parte da sociedade, movida na maioria das vezes pela comoção e pelo medo, considera que o aumento na repressão e na punição são as chaves para a solução da violência. Entretanto, os dados oficiais e os estudos dos principais órgãos e institutos na área de segurança pública demonstram que essa sensação é apenas aparente. Vejamos, por exemplo, o caso claro dos números no Estado de São Paulo no início da década passada: durante o governo Montoro (1983-86) a Polícia Militar matou uma pessoa a cada 17 horas e ocorreram 2140 homicídios no mesmo período; no governo Quércia (1987-90) o índice de mortes cometidas pela repressão da Polícia Militar manteve-se igual, e o número de homicídios durante os quatro anos chegou a 7051; no governo Fleury (1991-94) a Polícia passou a matar uma pessoa a cada 6 horas, enquanto que o número de homicídios saltou para 8101. Esses dados demonstram uma falta de correspondência entre o aumento da repressão policial e a diminuição do número de crimes de homicídio. Por outro lado, ao analisarmos o perfil destas mortes, perceberemos que 65% destas vítimas nunca haviam cometido crime algum e cerca de 80% são negros ou migrantes pobres. (Fonte de todos os dados citados acima: Livro Rota 66 do Jornalista Caco Barcellos e o IBGE último censo demográfico brasileiro).

Outro dado extremamente relevante e, ao mesmo tempo preocupante, é o perfil da população carcerária nacional: A sua grande maioria, ou seja, mais de 80%, é composta por negros(as), migrantes e pobres que cometeram apenas um crime de roubo. O mais triste nisso tudo é que a reincidência para estes casos é superior a 50%. Isso demonstra que estamos diante de um grave cenário excludente da população carcerária, uma vez que depois de saírem da "universidade do crime" dos presídios e penitenciárias, os ex-presidiários(as) não encontram emprego ou oportunidade digna na sociedade.

A violência é, sem sombra de dúvidas, conseqüência da miséria e da pobreza alimentada pela falta de oportunidades, principalmente para os jovens (a maioria da população carcerária é de jovens entre 18 a 30 anos) e ex-condenados que cumpriram a sua pena e estão agora em "liberdade". Precisamos, urgentemente, adotar e cuidar dos nossos jovens antes que o tráfico o faça. Atuar na prevenção é, sem sombra de dúvidas, uma das urgências, entretanto, não podemos esquecer da população carcerária. Ao fecharmos os olhos para este problema, empurramos a sujeira para baixo do tapete. E este tapete, amigos leitores, está quase explodindo. Será que privilegiamos as propostas de inclusão e resgate das populações carcerárias que tramitam eternamente no congresso, como a criação de presídios-escolas que buscam a formação e qualificação profissional dos presos visando uma re-inserção destes na sociedade ou caímos nas "armadilhas" daqueles que dizem que "custa muito caro este tipo de projeto"? Será que realmente estamos dispostos a colocar em prática o Amor ágape de Cristo quando ele se coloca no lugar do preso e do marginalizado cobrando a nossa atitude de visita e atenção? (Mt 25: "Estive preso e foste me visitar").

Precisamos ter a coragem de resolver o problema de frente, sem "quebra-galhos" e engodos das atitudes "repressivas" que violam cada vez mais os Direitos Humanos, tão claramente defendidos no Evangelho e na Doutrina Social da Igreja. Ou fazemos uma profunda transformação da atual realidade social excludente e perversa de maneira clara, imediata e objetiva onde todos nós, membros desta sociedade, passamos a ser agentes da transformação cobrando atitudes e políticas inclusivas dos nossos governantes, ou ficaremos chorando na frente da televisão assistindo, passivos e inertes, ao sepultamento da nossa sociedade, cada vez mais distante da tão sonhada civilização do amor.

Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

Robson Campos Leite
Email : feepolitica@terra.com.br

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